Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

14  02 2009

Galinha rija

As expressões idiomáticas de cada povo dão um colorido muito especial a esta língua que nos une, mesmo que com sotaques e ritmos diferentes.

O quotidiano vai moldando os discursos das pessoas, criando expressões muito características. O curioso é que, na maioria das vezes, o seu significado por ser fechado para os estrangeiros, mesmo que dominem bem a língua. Só com a convivência com os locais é que se começa a perceber algumas. Outras são-nos traduzidas, mas ficamos com a ideia de que metade da piada se perdeu.

É como a frase mais repetida na Tunísia aos turistas, “Les Gazelles et les Gazous”, usada para referir raparigas e rapazes. Bem nos explicaram que, para os muçulmanos, as gazelas são um símbolo de beleza e que não é desprimor nenhum chamar uma rapariga de gazela, muito pelo contrário. E, sorrindo, disseram que a segunda parte, os “Gazous” era só para rimar. Cá para mim, há ali mais qualquer coisa…

Em Angola também há expressões muito peculiares, que reflectem a vida independente que o Português tem em África. Também elas são moldadas pelo que rodeia as pessoas.

Em Luanda, terra dos engarrafamentos e da gasolina barata (não necessariamente por esta ordem), os carros fazem parte da vida das pessoas. E devem ser uma parte muito importante, a julgar pelo esmero com que todos os dias são lavados, escovados, passados a pano, untados com sprays diversos, decorados com autocolantes, cortinas, altifalantes e aplicações cromadas.

Era inevitável que começassem a surgir alcunhas e definições curiosas para os carros. Os Olhos de Gatos e Rabo de Pato identificam Toyotas Corolla de várias séries, os Tubarões são Range Rover dos novos e as iáces sapatilha distinguem as Hiace das Liteace, com a sua frente alongada e o pára-choques a imitar uma sola.

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Está aqui para as curvas

Há muitos anos, a Toyota lançou um pequeno modelo a que deu o nome de Starlet. Como sempre, criou um carro pouco complicado, fiável e duradouro. Até mesmo com a tortura que é Luanda, alguns destes pequenos automóveis sobrevivem até perto do meio milhão de quilómetros. Quando começaram a chegar, todos os que podiam, compraram um. Eram tão frequentes os chamaram de Gira-Bairro. E os das primeiras gerações, por serem tão fiáveis e resistentes ganharam a alcunha deliciosa de Galinha Rija.

Acerca do autor

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Nascido no século passado com alma de engenheiro, partiu para Angola, de onde envia pequenos aerogramas.

2 respostas a “Galinha rija”

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  1. Fico feliz por saber que já tive uma Galinha Rija em casa, quem diria…

  2. “Le Rallye des Gazelles” é uma versão em ponto pequeno, exclusivamente feminina, do Dakar que se realiza em Marrocos.
    Abraço

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