Aerograma

Isento de Porte e de Sobretaxa Aérea

21  08 2014

Continuidade cultural sem rótulo

O calendário diz-me que estamos no séc. XXI. A memória guia-me desde a década de 1980 até aos dias de hoje sem interrupções, numa transição gradual e sem grandes sobressaltos.

Com a entrada na C.E.E., tudo o que soava a tradicional ou antigo passou a estar fora de moda. Não era fino usar regionalismos, ter orgulho nas tradições locais ou sequer preferir a gastronomia típica. O bom e bonito vinha do estrangeiro, bem embalado, com etiquetas assegurando ser “made in país avançado”. O país inteiro se tornou emigrante, dizendo que lá fora é que era bom quando regressa nas férias de Agosto. Mas como todos os emigrantes que regressam, são as saudades do que faz o nosso país ser diferente do estrangeiro que nos fazem voltar às nossas raízes.

Agora que se percebeu que tentar copiar o queijo flamengo é parvo, porque entre um flamengo da Flandres ou um flamengo de Sacavém a diferença é que um é original e o outro é a cópia, e, acima de tudo, podemos fazer queijos diferentes, só nossos. Agora que se percebeu que nos dá mais prazer um queijo de Serpa ou de Nisa do que um Emmental, começamos também a perceber não falamos só de queijo e que esta ânsia de apagar o que é nosso nos levou a perder três décadas de continuidade cultural.

A identidade cultural de um povo define-se através da partilha das tradições entre gerações. Os gostos educam-se, mas para isso é necessário que haja quem os possa transmitir e, acima de tudo, a quem os transmitir.

Actualmente, ouve-se muito dizer que a aposta no futuro passa por valorizar o que há de mais característico no país, quer seja em produtos típicos, quer seja com a própria cultura. Institucionalmente, para além de legislar sobre quais as taxas a pagar para poder produzir enchidos ou mel, nada mais é avançado.

Ainda assim, há quem resista e tenha orgulho na sua História e cultura. Há quem insista em usar os regionalismos com que cresceu que lhe transmitem significados mais precisos que os chavões ouvidos na televisão. Um pouco por esse Portugal profundo se vai vendo um regresso à identidade cultural que nos distingue do que vem embalado e etiquetado.

Guardiões da Lua
Guardiões da Lua – Quarta-feira, Sabugal

Na povoação de Quarta-feira, sita nos confins da Cova da Beira, mas já na Beira Alta, há um grupo de teatro amador de seu nome Guardiões da Lua. Todos os anos encenam uma peça, quase sempre escrita pelo encenador seu João Reis, que procura preservar e partilhar um pouco do que é a identidade do lugar. É genuíno. Não vem rotulado.

Acerca do autor

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Nascido no século passado com alma de engenheiro, partiu para Angola, de onde envia pequenos aerogramas.

2 respostas a “Continuidade cultural sem rótulo”

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  1. São amadores mas com muita arte…. Quem os vê sente que amam o que fazem e talvez isso os torne tão especiais e genuinos. Que continuem a partilhar o que o interior tem de melhor, as suas tradições e as suas gentes.
    Aos guardiões da Lua um bem-hajam!

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