{"id":1008,"date":"2008-09-05T18:30:15","date_gmt":"2008-09-05T17:30:15","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1008"},"modified":"2009-07-19T13:57:27","modified_gmt":"2009-07-19T12:57:27","slug":"avenida-de-portugal-curioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/avenida-de-portugal-curioso\/","title":{"rendered":"Avenida de Portugal, curioso"},"content":{"rendered":"<p>Como continua a faltar a electricidade c\u00e1 em casa, fui dar uma volta at\u00e9 \u00e0 marginal. Luanda respira uma atmosfera nova. Nem aos Domingos est\u00e1 este ambiente descontra\u00eddo. \u00c9 um dia preenchido apenas pelo voto, depois vai-se dan\u00e7ar ou ouvir m\u00fasica com os amigos. Bebe-se gasosas porque a cerveja j\u00e1 esgotou.<\/p>\n<p>Coisa rara, h\u00e1 pessoas a passear na rua. S\u00f3 a passear. D\u00e3o passos lentos e conversam. H\u00e1 assembleias de voto \u00e0 vista umas das outras. Aqui na rua h\u00e1 duas. Ambas debaixo dos letreiros de dois bancos. O processo tem decorrido sem incidentes. A grande aflu\u00eancia matutina foi substitu\u00edda por uma acalmia ao final da tarde. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 filas para votar. H\u00e1 muitos elementos das mesas que conversam \u00e0 volta dos frascos de tinta onde se molha o dedo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"050908-1830-avenidaportugal1\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/050908-1830-avenidaportugal1.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Ao final do dia<\/p>\n<p>Os amigos encontram-se \u00e0 boca das urnas e perguntam se s\u00f3 \u00e9 preciso o cart\u00e3o de eleitor. Ouve-se perguntar <em>\u00abj\u00e1 votaste?\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Os candogueiros circulam quase vazios. Os poucos que se avistam nas paragens habituais, mudam o seu destino v\u00e1rias vezes at\u00e9 que apare\u00e7a um cliente. <em>\u00ab\u00e9roporte, \u00e9roporte&#8230; congolenses-pra\u00e7a, congolenses-pra\u00e7a&#8230; sanp\u00e1ul\u00f3, sanp\u00e1ul\u00f3&#8230;\u00bb <\/em>mas os clientes n\u00e3o chegam.<\/p>\n<p>Hoje foi o dia em que senti ser poss\u00edvel andar de m\u00e1quina fotogr\u00e1fica em punho sem ser incomodado. N\u00e3o a levei, claro. Pude apreciar muitos pormenores que me t\u00eam passado despercebidos.<\/p>\n<p>Cruzei-me com dois b\u00eabados cr\u00f3nicos, com ar de quem me queria pedir Kwanzas. Assim que me interpelaram perguntei se j\u00e1 tinham votado. Julgo que ficaram desarmados. N\u00e3o estavam a ser bons angolanos e eu pus o dedo na ferida. N\u00e3o, ainda n\u00e3o tinham votado&#8230; <em>\u00abperdermos o cart\u00e3o de eleitor, mas&#8230;\u00bb<\/em> come\u00e7aram a agarrar as m\u00e3os, envergonhados, e foram-se embora. Quase apostava que estavam corados.<\/p>\n<p>Encontrei mais uns seguran\u00e7as a discutir o futuro do pa\u00eds. Ficou-me na mem\u00f3ria a frase de um <em>\u00abN\u00e3o interessa se \u00e9 preto ou branco. N\u00e3o interessa se fala o dialecto kimbundo ou se fala do dialecto umbundo. \u00c9 angolano!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Todas as lojas est\u00e3o fechadas. Nem as zungueiras apareceram para cumprir os seus turnos de doze horas di\u00e1rias com o alguidar \u00e0 cabe\u00e7a e o filho \u00e0s costas. N\u00e3o h\u00e1 caf\u00e9s abertos.<\/p>\n<p>Os problemas de organiza\u00e7\u00e3o que marcaram estas elei\u00e7\u00f5es nalgumas assembleias de voto j\u00e1 foram corrigidos, espera-se. O encerramento das urnas, previsto para o final da tarde de hoje, foi adiado paraque todos votem. O porta-voz da CNE garante que <em>\u00abenquanto houver eleitores para votar, manteremos abertos os locais de votamento\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada do Largo da Mutamba encontrei uma placa ca\u00edda. Habitualmente serve de banco e as pernas das pessoas ocultam a sua inscri\u00e7\u00e3o. Hoje estava desocupada. Apercebi-me de que se tratava de mais um peda\u00e7o de Hist\u00f3ria. Neste caso, um peda\u00e7o de sucata com 33 anos. Trouxe-me um novo significado para o local onde habito. Afinal, segundo diz a placa, moro na Avenida de Portugal.<\/p>\n<p>A electricidade foi-se ontem ao final da tarde. Tem regressado aos poucos \u00e0 rua e \u00e0s casas. O nosso pr\u00e9dio j\u00e1 tem, mas n\u00f3s continuamos \u00e0s escuras. S\u00f3 uma das fases tem tens\u00e3o. T\u00ednhamos 33% de hip\u00f3teses de ter luz, mas perdemos a aposta. Tentei corrigir a situa\u00e7\u00e3o, mas parece que o electricista que fez a liga\u00e7\u00e3o tinha medo que os cabos fugissem e usou uma chave de rodas para apertar os terminais. Desisti.<\/p>\n<p>Como hoje \u00e9 dia de folga, a EDEL n\u00e3o tem pessoal para acudir a todos estes pequenos problemas que v\u00e3o acontecendo um pouco por toda a Luanda. A nossa \u00fanica pergunta \u00e9 porque raio acontecem sempre estas avarias nas v\u00e9speras de fim-de-semana?<\/p>\n<p>Como a bateria deste computador j\u00e1 h\u00e1 muito passou o seu prazo de validade, estou limitado a alguns minutos de trabalho sem estar ligado \u00e0 corrente. Para terminar este artigo tive de me socorrer da tecnologia antiga que nunca falha: caneta e papel. A minha d\u00favida era como haveria eu de publicar isto. Fazia um avi\u00e3ozinho e mandava l\u00e1 para a tal da internet?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"050908-1830-avenidaportugal2\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/050908-1830-avenidaportugal2.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Ao papel nunca acaba a bateria <\/p>\n<p>Veio a noite e lig\u00e1mos o gerador. Publique-se!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como continua a faltar a electricidade c\u00e1 em casa, fui dar uma volta at\u00e9 \u00e0 marginal. Luanda respira uma atmosfera nova. Nem aos Domingos est\u00e1 este ambiente descontra\u00eddo. \u00c9 um dia preenchido apenas pelo voto, depois vai-se dan\u00e7ar ou ouvir m\u00fasica com os amigos. Bebe-se gasosas porque a cerveja j\u00e1 esgotou. 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