{"id":1101,"date":"2008-09-21T00:00:49","date_gmt":"2008-09-20T23:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1101"},"modified":"2009-08-08T21:00:27","modified_gmt":"2009-08-08T20:00:27","slug":"zoom-ao-lixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/zoom-ao-lixo\/","title":{"rendered":"Zoom ao lixo"},"content":{"rendered":"<p>Quando se chega a um local desconhecido, a primeira coisa que fazemos \u00e9 apreciar o todo e depois partir para as v\u00e1rias partes. Tal como nas fotografias, come\u00e7amos pelos panoramas e vistas gerais e s\u00f3 depois nos vamos aproximando dos v\u00e1rios pormenores. Fotografam-se as paisagens e depois vamos escolhendo sujeitos bem mais pr\u00f3ximos como \u00e1rvores, pedras ou flores. As paisagens mostram muito, \u00e9 certo, mas com t\u00e3o pouco detalhe que n\u00e3o nos conseguimos inteirar das emo\u00e7\u00f5es que sentimos naquele s\u00edtio. A pouco e pouco vamos procurando enquadramentos cada vez mais apertados, focando a nossa aten\u00e7\u00e3o em determinados pormenores que passam despercebidos na vista geral. Passamos a dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pequenas coisas, \u00e1quelas que deixam marcas na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um local novo \u00e9 uma enxurrada de est\u00edmulos para os sentidos. H\u00e1 tantas coisas para ver, ouvir, sentir e cheirar, que n\u00e3o somos capazes de nos abstrair dessa onda de sensa\u00e7\u00f5es que nos submerge. A pouco e pouco vamos conseguindo filtrar o ru\u00eddo e come\u00e7amos a ver o que \u00e9 realmente importante. O ser humano identifica as coisas pelo desvio da m\u00e9dia, isto \u00e9, tem uma imagem mental do que \u00e9 o aspecto habitual de uma coisa e compara isso com o objecto. Se for algo totalmente novo, as diferen\u00e7as \u00f3bvias v\u00e3o-se sobrep\u00f4r \u00e0s mais subtis. \u00c9 normal ir para o estrangeiro e, nos primeiros tempos, ter a sensa\u00e7\u00e3o de que as caras s\u00e3o todas iguais. S\u00f3 depois de se criar a imagem m\u00e9dia dos habitantes \u00e9 que se come\u00e7a a perceber as diferen\u00e7as que h\u00e1 entre eles.<\/p>\n<p>\u00c9 um pouco como distinguir a voz de uma \u00fanica pessoa no meio de uma multid\u00e3o, ou de perceber dois estrangeiros a falar a sua l\u00edngua natal. A princ\u00edpio tudo n\u00e3o passa de uma cacofonia monumental, um ru\u00eddo que enlouquece porque n\u00e3o somos capazes de compreender nada, embora saibamos que a mensagem est\u00e1 l\u00e1. H\u00e1 um momento em que nos abstra\u00edmos das diferen\u00e7as gritantes e nos focamos s\u00f3 nas mais t\u00e9nues. Nesse instante conseguimos descortinar a verdade. Depois \u00e9 f\u00e1cil e n\u00e3o percebemos como algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 capaz de o fazer instantaneamente. \u00c9 talvez um pouco como saber ler&#8230; o que eram desenhos engra\u00e7ados passaram a ser palavras e ideias. Para sempre.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/210908-0000-zoomaolixo1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPanorama<\/p>\n<p>Quando cheguei a Luanda s\u00f3 via lixo. Havia lixo por toda a parte. Todos os cantos e recantos estavam repletos de lixo das mais variadas formas, feitios e cheiros. Depois, quando me habituei a essa omnipresen\u00e7a do lixo, passei a ver varredores a trabalhar. Via-os trabalhar, mas o lixo continuava l\u00e1. Depois comecei a reparar no lixo que varriam e percebi que, o que parecia uma tarefa ingl\u00f3ria, afinal come\u00e7ava a dar frutos. A partir de certa altura, deixei de ver varredores e passei a ver homens e mulheres com um trabalho digno, que n\u00e3o desistem de tornar Luanda uma cidade limpa. Mais tarde passei a reconhecer rostos, a reconhecer as zonas de trabalho de cada um. Saber quais s\u00e3o os mestres e os aprendizes j\u00e1 n\u00e3o tem mist\u00e9rio. \u00c9 aqui que entra o grande plano.<\/p>\n<p>Os varredores usam umas vassouras largas, com o cabo inclinado. Parecem umas escovas grandes. Varrem empurrando o lixo at\u00e9 fazer um pequeno monte que j\u00e1 custa a mexer. Nessa altura deixam esse monte e continuam mais \u00e0 frente, at\u00e9 fazerem outro. Atr\u00e1s deles anda outro cantoneiro, que vai apanhando os montes de p\u00f3 e lixo. Os varredores mais novos no servi\u00e7o fazem a vassoura percorrer um metro de cada vez, dando quase um passo atr\u00e1s dela. A velocidade a que varrem diminui \u00e0 medida que se cansam. Levantam muito p\u00f3. Tentam compensar varrendo um espa\u00e7o maior a cada vez, mas depois t\u00eam de varrer o mesmo s\u00edtio, porque o p\u00f3 ficou para tr\u00e1s e a vassoura tem de ser batida porque est\u00e1 cheia de lixo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/210908-0000-zoomaolixo2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nGrande plano<\/p>\n<p>Os mestres varredores limpam a rua a uma velocidade fren\u00e9tica. A vassoura salta para tr\u00e1s e para diante, descrevendo um arco. Empurra o lixo dez cent\u00edmetros e salta para tr\u00e1s, ressaltando duas vezes. Sempre que bate no ch\u00e3o, deixa cair o p\u00f3 e fica limpa. Apenas os bra\u00e7os do varredor mexem, com gestos econ\u00f3micos, sem esfor\u00e7o. Agarra o cabo da vassoura como se estivesse apoiado num cajado inclinado, com uma m\u00e3o sobre a outra, esticando e encolhendo os bra\u00e7os. Varrer\u00e1 mais devagar no princ\u00edpio do dia que o varredor inexperiente, mas mant\u00e9m um ritmo t\u00e3o regular e tranquilo que termina repousado e com mais servi\u00e7o feito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/210908-0000-zoomaolixo3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFor\u00e7a da terra<\/p>\n<p>Foi assim que fui fazendo um zoom ao lixo de Luanda. O que me saturou os sentidos afinal tinha mais para ver. No meio de tanto est\u00edmulo numa cidade t\u00e3o grande, acabei por apreciar uma coisa t\u00e3o pequena como o movimento de uma vassoura numa qualquer rua de Luanda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se chega a um local desconhecido, a primeira coisa que fazemos \u00e9 apreciar o todo e depois partir para as v\u00e1rias partes. Tal como nas fotografias, come\u00e7amos pelos panoramas e vistas gerais e s\u00f3 depois nos vamos aproximando dos v\u00e1rios pormenores. 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