{"id":1208,"date":"2008-10-05T00:00:37","date_gmt":"2008-10-04T23:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1208"},"modified":"2009-08-08T22:11:26","modified_gmt":"2009-08-08T21:11:26","slug":"no-h-quem-perceba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/no-h-quem-perceba\/","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 quem perceba&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Os Angolanos n\u00e3o percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola. Ali\u00e1s, os Portugueses tamb\u00e9m n\u00e3o percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria recente de Portugal ficou marcada n\u00e3o s\u00f3 por uma mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico, como pela independ\u00eancia das suas col\u00f3nias, ou prov\u00edncias ultramarinas. A guerra que marcou a independ\u00eancia de Angola obrigou a acolher e integrar cerca de 5% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa num pa\u00eds debilitado por anos de ditadura severa. Os retornados, como foram chamados, traziam um esp\u00edrito diferente, educado ao sabor dos tr\u00f3picos, com uma iniciativa e pragmatismo pouco comum na Europa.Trouxeram, tamb\u00e9m, uma imensa saudade da terra que os viu crescer. Todos, sem excep\u00e7\u00e3o, falam de \u00c1frica com uma l\u00e1grima ao canto do olho, com a no\u00e7\u00e3o de que \u00e9 um tempo que n\u00e3o volta mais e que nunca ser\u00e3o t\u00e3o felizes como foram. Os que viveram em Angola, por terem tido uma separa\u00e7\u00e3o mais tr\u00e1gica, s\u00e3o os que mais sofrem.<\/p>\n<p>Angola sempre foi uma esp\u00e9cie de Terra Prometida dos retornados. \u00c0 semelhan\u00e7a dos Judeus, que foram expulsos de Israel e sempre sonharam em regressar, os Portugueses nunca esqueceram a terra onde todos os sonhos eram poss\u00edveis. Foram obrigados a sair e acabaram por ficar ainda mais ligados a esta terra do que se a tivessem deixado de livre vontade. <\/p>\n<p>A terra portou-se mal para com eles, mas n\u00e3o guardaram rancor. Perdoaram assim que a deixaram e come\u00e7aram a sonhar com o dia em que regressariam. Os Angolanos n\u00e3o compreendem este ap\u00eago \u00e0 terra que \u00e9 sua. Julgam que, por terem escorra\u00e7ado os colonos, eles passariam a odiar o pa\u00eds e as suas gentes, mas n\u00e3o, a imensa saudade que os retornados sentem por Angola consegue superar a saudade que nasce com os Portugueses, consegue esquecer as inj\u00farias e os maus tratos, as persegui\u00e7\u00f5es em \u00c1frica e os olhares de desconfian\u00e7a na metr\u00f3pole. Os Angolanos acham estranho como pode haver algu\u00e9m que ame mais o pa\u00eds alheio que o seu, que ame mais Angola que os Angolanos, que a queria ver livre e independente, mas sem a guerra e sem a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Durante a \u00faltima guerra, havia angolanos que perguntavam, aos poucos portugueses que c\u00e1 havia, quando \u00e9 que esta hist\u00f3ria da Independ\u00eancia acabava, porque j\u00e1 estavam fartos de sofrer. Os portugueses n\u00e3o sabiam o que responder. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o saberia. Antes da independ\u00eancia eram Portugueses de segunda, abaixo dos Portugueses metropolitanos, os &#8220;verdadeiros&#8221;. Depois da independ\u00eancia, foram perseguidos como colonialistas e refugiaram-se em Portugal, onde eram olhados de soslaio, como &#8220;exploradores dos pretos&#8221;. Todos prefeririam ter passado a ser Angolanos de primeira, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a ou cor. Independ\u00eancia, sim. O sofrimento era dispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os Angolanos n\u00e3o compreendem como pode algu\u00e9m querer vir ajudar um pa\u00eds que o perseguiu, em detrimento do pa\u00eds que o acolheu. Acho que os retornados tamb\u00e9m n\u00e3o percebem.<\/p>\n<p>Angola tem ao seu disp\u00f4r um capital humano invej\u00e1vel, que daria tudo para ajudar a reconstruir o pa\u00eds. Regressar \u00e0 Terra Prometida \u00e9 o seu sonho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Angolanos n\u00e3o percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola. Ali\u00e1s, os Portugueses tamb\u00e9m n\u00e3o percebem os Portugueses, especialmente os que viveram em Angola. A Hist\u00f3ria recente de Portugal ficou marcada n\u00e3o s\u00f3 por uma mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico, como pela independ\u00eancia das suas col\u00f3nias, ou prov\u00edncias ultramarinas. 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