{"id":1244,"date":"2008-10-27T00:00:51","date_gmt":"2008-10-26T23:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1244"},"modified":"2009-08-08T20:43:18","modified_gmt":"2009-08-08T19:43:18","slug":"mistelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/mistelas\/","title":{"rendered":"Mistelas"},"content":{"rendered":"<p>Corre o boato de que em Angola se come <em>Kizaka<\/em> e <em>Funge<\/em>. Consta tamb\u00e9m que j\u00e1 comi disso algures.<\/p>\n<p>A receita \u00e9 um segredo bem guardado. Sempre que se pergunta como se faz, as mulheres riem-se. N\u00e3o sei se \u00e9 por ser branco e querer saber como se faz a comida angolana porque gostei do sabor, se \u00e9 por ser homem e estar proibido pela tradi\u00e7\u00e3o de me aproximar da cozinha ou se \u00e9 por ser segredo de Estado, que tem de pagar imposto para ser exportado. Um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a da arte, que tem de levar um selo de autoriza\u00e7\u00e3o de sa\u00edda.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que o mais pr\u00f3ximo que estive de uma receita foi um sorriso envergonhado a acompanhar um <em>\u00ab\u00e9 f\u00e1cil&#8230;\u00bb<\/em>. Mas da\u00ed n\u00e3o passou. Talvez seja daquelas coisas que nasce com as pessoas, que \u00e9 \u00f3bvio como se faz, mas n\u00e3o se consegue explicar. Passamos pelo mesmo problema quando tentamos explicar a sensa\u00e7\u00e3o de andar de mota.<\/p>\n<p>Como as indica\u00e7\u00f5es que tinha eram muito vagas, resolvi inventar. Para a Kizaka, os ingredientes b\u00e1sicos s\u00e3o \u00f3leo de palma, folhas de mandioca, cebola, \u00e1gua e coisas indeterminadas. Talvez esteja redondamente enganado, mas parti daqui.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00d3leo de palma no tacho. Talvez muito, talvez pouco.<\/p>\n<p>Comecei a aquecer o \u00f3leo de palma. Como a cozinha angolana tamb\u00e9m se miscigenou com a portuguesa, as hip\u00f3teses de come\u00e7ar com um refogado s\u00e3o grandes.<\/p>\n<p>Ainda havia umas granadas de g\u00e1s lacrimog\u00e9neo no cesto. A Lucinda tem de come\u00e7ar a vender cebolas mais mansas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAspecto inofensivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 faca molhada, \u00f3culos ou outros truques que valham. A hist\u00f3ria que estas cebolas contam \u00e9 sempre de ir \u00e0s l\u00e1grimas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCebola picada e pronta a saltar para o tacho<\/p>\n<p>O \u00f3leo de palma \u00e9 mais discreto que o azeite quanto \u00e0 temperatura a que se encontra, pelo que ia tendo uma surpresa quando l\u00e1 pus a cebola. Nota mental: n\u00e3o demorar tanto a picar a cebola.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nRefogado com \u00f3leo de palma, quem diria?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o encontrei folhas de mandioca \u00e0 venda, nem sei bem como as hei-de escolher, optei por uma solu\u00e7\u00e3o de recurso: uma lata de espinafres.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nPode n\u00e3o parecer, mas s\u00e3o folhas de mandioca<\/p>\n<p>N\u00e3o demoraram muito a ir para o tacho.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMais um pouco de \u00e1gua e deixa-se apurar<\/p>\n<p>Entretanto, deparei-me com um problema. O que seria o ingrediente secreto? O que seriam as <em>coisas indeterminadas<\/em>?<\/p>\n<p>Abri o arm\u00e1rio e procurei algo com um r\u00f3tulo sugestivo. Encontrei v\u00e1rias latas de atum. Seria isto um bom candidato a <em>coisa indeterminada<\/em>?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nHmmm&#8230; acho que j\u00e1 estou a aldrabar demais&#8230;<\/p>\n<p>Escorri o \u00f3leo, desfiz os peda\u00e7os maiores e deparei-me com uma tigela cheia de <em>coisas<\/em>.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNem sei que diga&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o pedi licen\u00e7a e juntei o atum, perd\u00e3o, a <em>coisa indeterminada<\/em> \u00e0s folhas de mandioca, \u00e0 cebola e ao \u00f3leo de palma.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nValente mix\u00f3rdia. Ainda me arrisco a passar fome<\/p>\n<p>Uns minutos de tacho semi-destapado, s\u00f3 para evaporar alguma \u00e1gua, e o panorama era parecido com as <em>kizakas<\/em> que tenho visto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas14.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Kizaka<\/em> aldrabada<\/p>\n<p>Como a <em>kizaka<\/em> n\u00e3o se come sem acompanhamento, e estava numa de cozinha angolana, deitei m\u00e3os \u00e0 obra para tentar fazer um <em>funge<\/em>.<\/p>\n<p>Os ingredientes j\u00e1 conhe\u00e7o, mas n\u00e3o sei as propor\u00e7\u00f5es. Arrisco outra vez.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c1gua a ferver<\/p>\n<p>O <em>funge<\/em> \u00e9 farinha de mandioca, milho, batata-doce ou outra, cozida. Nada mais. Tem muitas vitaminas mas, acima de tudo, enche a barriga.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFub\u00e1 de bombo<\/p>\n<p>Ser\u00e3o estas as propor\u00e7\u00f5es? N\u00e3o eram, tive de acertar a farinha e a \u00e1gua algumas vezes, at\u00e9 conseguir algo parecido com o <em>funge<\/em> que j\u00e1 comi.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nDepois de batido, consegui um <em>funge<\/em> com borbulhas<\/p>\n<p>O <em>funge<\/em> tem de ser muito bem batido ou ent\u00e3o fica com grumos, a que se chamam borbulhas. O processo habitual \u00e9 segurar a panela entre os p\u00e9s e, sentados, tentar furar o fundo usando um pau comprido.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tinha <em>pau-do-funge<\/em>, nem me apetecia sentar no ch\u00e3o, acabei por usar uma colher de pau e suei as estopinhas para conseguir um <em>funge<\/em> demasiado l\u00edquido e com borbulhas&#8230; Estava destinado a comer do meu veneno.<\/p>\n<p>Depois de juntar a <em>kizaka<\/em> ao <em>funge<\/em>, at\u00e9 nem parecia uma imita\u00e7\u00e3o barata. Provei e recomendo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/111008-0000-mistelas15.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>Et voil\u00e1!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corre o boato de que em Angola se come Kizaka e Funge. Consta tamb\u00e9m que j\u00e1 comi disso algures. A receita \u00e9 um segredo bem guardado. Sempre que se pergunta como se faz, as mulheres riem-se. 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