{"id":1249,"date":"2008-10-12T00:00:38","date_gmt":"2008-10-11T23:00:38","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1249"},"modified":"2009-08-08T22:00:18","modified_gmt":"2009-08-08T21:00:18","slug":"amor-dio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/amor-dio\/","title":{"rendered":"Amor-\u00f3dio"},"content":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o de Angola e dos Angolanos com Portugal e com os Portugueses \u00e9 algo de muito esquisito.<\/p>\n<p>Por um lado, h\u00e1 um \u00f3dio institucional \u00e0 pot\u00eancia colonial, ao colono e a tudo o que remeta para os cinco s\u00e9culos que antecederam 1975. Muitos Angolanos dizem que o colono era feio, mau e comia criancinhas. Alguns dizem mesmo que Angola s\u00f3 est\u00e1 assim, neste buraco, por causa do colono, que s\u00f3 c\u00e1 veio roubar.<\/p>\n<p>Por outro lado, dizem-me que no tempo do colono \u00e9 que as coisas funcionavam. Que n\u00e3o havia assaltos nem bandidos. Que, nessa altura, Luanda estava limpa e a electricidade n\u00e3o faltava todos os dias. Dizem-me que os Portugueses calculavam tudo e que as casas n\u00e3o ca\u00edam.<\/p>\n<p>Portugal continua a ser uma refer\u00eancia para muitas coisas. Os restaurantes em Luanda quase todos servem comida portuguesa. O vinho \u00e9 considerado bom se vier de Portugal, mesmo que seja o pior carrasc\u00e3o do mundo. Para temperar a comida, \u00e9 frequente ver latas de azeite e \u00f3leo com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Tempero Portugu\u00eas&#8221;. Os supermercados abastecem-se de produtos portugueses e, \u00e0s vezes, sul-africanos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/121008-0000-amorodio1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCarrasc\u00e3o <em>Tuga<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 Angolanos que foram doutrinados desde pequenos a odiar Portugal e o tempo colonial. A sua maioria tem agora perto de vinte anos. Sabem de cor e salteado todas as atrocidades cometidas pelos portugueses desde que Diogo C\u00e3o chegou ao Rio Congo e s\u00e3o incapazes de apontar coisas boas. \u00c9 um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a daqueles que apenas s\u00e3o capazes de apontar os defeitos do regime de Salazar.<\/p>\n<p>Os mais velhos s\u00e3o cr\u00edticos dos dois per\u00edodos. Apontam defeitos e virtudes ao regime colonial e \u00e0 Angola independente. Falam dos <em>contratos<\/em>, que ro\u00e7avam a escravatura. Falam da falta de condi\u00e7\u00f5es actual. Lamentam que a pol\u00edtica se tenha sobrepujado ao bem-estar das pessoas.<\/p>\n<p>Durante a campanha eleitoral, havia uma candidata, a &#8220;Mam\u00e3 Coragem&#8221;, que fazia uns discursos saudosistas do passado, elogiando o tempo colonial e criticando o Governo. Dizia que, se os angolanos soubessem como era a vida no tempo colonial, se revoltariam por viver no meio do lixo e da pobreza. \u00c9 uma figura hist\u00f3rica da liberta\u00e7\u00e3o de Angola e acabou por n\u00e3o ser eleita. Talvez tenha sido demasiado inc\u00f3moda.<\/p>\n<p>Depois da Independ\u00eancia, muitas cidades mudaram de nome. As cidades brancas ficaram com o nome das cidades negras que as rodeavam. Algumas passaram a ser chamadas pelos dois nomes. A ordem com que s\u00e3o referidos ainda \u00e9 um pouco aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O Portugu\u00eas, como branco, \u00e9 visto como explorador. Como Portugu\u00eas, \u00e9 um s\u00edmbolo de tempos menos dif\u00edceis. \u00c9 uma dicotomia interessante&#8230;<\/p>\n<p>Mas, \u00e0s vezes, no meio de tanto mal-dizer do colono, h\u00e1 coisas que me deixam boquiaberto. O antigo governador da prov\u00edncia de Cabinda foi destacado para o Bi\u00e9, no interior. Lan\u00e7ou uma campanha de obras para recuperar a cidade do Cu\u00edto, que foi destru\u00edda na guerra de 1992-2002. Em Outubro de 2002, o Presidente da Rep\u00fablica foi l\u00e1 ver o andamento das obras. Fez um discurso onde prometeu que o Cu\u00edto havia de voltar a ser como Silva Porto! Em que ficamos, Z\u00e9 D\u00fa?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/121008-0000-amorodio2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>in<\/em> Seman\u00e1rio Angolense n\u00ba281<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o de Angola e dos Angolanos com Portugal e com os Portugueses \u00e9 algo de muito esquisito. Por um lado, h\u00e1 um \u00f3dio institucional \u00e0 pot\u00eancia colonial, ao colono e a tudo o que remeta para os cinco s\u00e9culos que antecederam 1975. Muitos Angolanos dizem que o colono era feio, mau e comia criancinhas. 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