{"id":1263,"date":"2008-11-19T00:00:50","date_gmt":"2008-11-18T23:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1263"},"modified":"2009-08-08T20:59:52","modified_gmt":"2009-08-08T19:59:52","slug":"negro-que-brilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/negro-que-brilha\/","title":{"rendered":"Negro que brilha"},"content":{"rendered":"<p>Quando cheguei a Luanda, o nome das frotas de candongueiros dava-me, na maioria das vezes, para sorrir. \u00c0 primeira vista, era cada um mais parvo que o anterior. <em>I\u00e1ces<\/em> azuis-e-brancas que se distinguiam pelo nome da frota. A pouco e pouco comecei a perceber que os chav\u00f5es eram a melhor maneira de fazer o t\u00e1xi ficar na mem\u00f3ria. H\u00e1 diferen\u00e7as nos servi\u00e7os e a concorr\u00eancia \u00e9 feroz.<\/p>\n<p>Quem circula nos carros da frota <em>Kamikaze<\/em> tem a garantia de um r\u00e1dio a tocar num volume desumano, que se sente mais do que ouve. Os passageiros chegam ao seu destino surdos, mas com os m\u00fasculos relaxados, tal \u00e9 a massagem dos buracos na estrada e das pancadas da aparelhagem. A frota <em>Vampiro<\/em> tem os vidros fumados e passa m\u00fasica electr\u00f3nica. Depois h\u00e1 os <em>Ferrari<\/em>, os <em>Fortaleza do Guetho<\/em>, os <em>Defesa do Prenda<\/em> e muitos outros.<\/p>\n<p>No meio de tanta oferta, houve um em particular que me chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o. A frota dos<em> Negro que brilha<\/em>! Numa terra em que o tom da pele chega quase a ser tabu, \u00e9 curioso como se usava para distinguir uma frota de candongueiros.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062208-1054-fimdesemana9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nBrilhante!<\/p>\n<p>Mas a parte mais estranha era a do brilho. O que \u00e9 um negro que brilha? Porque n\u00e3o chamar \u00e0 frota apenas <em>Brilhante<\/em> ou algo similar? Agora que sei mais das gentes e da terra que me acolhe, percebo que tinha mesmo de ser <em>Negro que brilha<\/em>. Na verdade, \u00e9 quase um grito nacionalista, que n\u00e3o tem equivalente em mais nenhuma parte do mundo.<\/p>\n<p>Desde sempre me achei capaz de distinguir os angolanos dos demais africanos. N\u00e3o sabia bem porqu\u00ea. Ou melhor, sabia, mas n\u00e3o o conseguia explicar de forma coerente. Foi durante uma conversa com os nossos t\u00e9cnicos que me apercebi que o verdadeiro angolano tem brilho. \u00c9 um negro brilhante. Brilha no sorriso e na pele. Os congoleses s\u00e3o ba\u00e7os e os namibianos cinzentos. Tal como os guineenses s\u00e3o quase azuis, os angolanos s\u00e3o luzidios e brilham! Era esse o termo que me faltava. Agora j\u00e1 o consigo explicar. H\u00e1 pequenas notas de cultura que n\u00e3o v\u00eam nos livros e que s\u00f3 se aprendem pelo contacto pr\u00f3ximo. Esta \u00e9 uma delas. os angolanos comparam-se aos vizinhos dizendo que s\u00e3o brilhantes! Assim sendo, a frota <em>Negro que brilha<\/em> bem se poderia chamar <em>Angolano de gema<\/em>.\u00b4<\/p>\n<p>\u00c9 engra\u00e7ado como, aquilo que parecia ser mais um nome parvo, afinal acaba por ser o mais genu\u00edno de todos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheguei a Luanda, o nome das frotas de candongueiros dava-me, na maioria das vezes, para sorrir. \u00c0 primeira vista, era cada um mais parvo que o anterior. I\u00e1ces azuis-e-brancas que se distinguiam pelo nome da frota. 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