{"id":1272,"date":"2008-10-22T00:00:16","date_gmt":"2008-10-21T23:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1272"},"modified":"2009-08-08T21:23:38","modified_gmt":"2009-08-08T20:23:38","slug":"o-fim-da-memria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-fim-da-memria\/","title":{"rendered":"O fim da Mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Perto do Largo do Lumeji, em frente ao Cinema 1\u00ba de Maio, mais um edif\u00edcio do tempo colonial veio abaixo. Ficava na esquina, era vermelho e impunha a sua presen\u00e7a. Dizem-me que era uma escola. H\u00e1 muito que n\u00e3o tinha alunos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCinema 1\u00ba de Maio, antigo Cinema Sindicato<\/p>\n<p>Era um edif\u00edcio interessante. Apesar de revelar os sinais do abandono que cobre Luanda, n\u00e3o era dos que estava em pior estado. Fiquei de o fotografar um destes dias, quando por l\u00e1 passasse com a m\u00e1quina. Fico-me pelas inten\u00e7\u00f5es. Hoje j\u00e1 s\u00f3 cheguei a tempo de ver a girat\u00f3ria galgar as \u00faltimas paredes, que se despediram da verticalidade com um suspiro de p\u00f3. Agora, a sombra da torre da China International Fund (CIF) j\u00e1 n\u00e3o tem mais que se cansar a subir para o telhado do seu <em>mais-velho<\/em>. Pode-se espregui\u00e7ar at\u00e9 \u00e0 esquina seguinte.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/151008-0000-fimdamemoria6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nQualquer dia&#8230;<\/p>\n<p>No quarteir\u00e3o onde se est\u00e1 a construir um arranha-c\u00e9us para a CIF, as marcas do passado s\u00e3o substitu\u00eddas pelas promessas do futuro. As constru\u00e7\u00f5es \u00e0 escala humana v\u00e3o dando lugar \u00e0s de escala multinacional. Infelizmente, este n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. As constru\u00e7\u00f5es coloniais v\u00e3o sendo demolidas umas atr\u00e1s das outras. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 inc\u00f3modas por relembrarem o passado, ocupam o lugar do futuro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/151008-0000-fimdamemoria3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEspreitando o futuro<\/p>\n<p>A recente campanha de obras foca-se apenas na constru\u00e7\u00e3o de coisas novas e modernas, sinais de progresso e ostenta\u00e7\u00e3o. As antigas apenas lhes podem ceder o lugar. Reconstruir n\u00e3o vale a pena. N\u00e3o se mostra obra, parece f\u00e1cil. De qualquer das formas, n\u00e3o se pode reconstruir aquilo que teve tr\u00eas d\u00e9cadas de desmazelo e abusos. \u00c9 demasiado caro. \u00c9 in\u00fatil. A aus\u00eancia de manuten\u00e7\u00e3o e as obras selvagens tra\u00e7aram-lhes o destino h\u00e1 muito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/151008-0000-fimdamemoria4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c0 espera da sua vez<\/p>\n<p>As poucas obras que os ed\u00edficios sofrem, limitam-se \u00e0s que os seus moradores fazem para melhorar o seu espa\u00e7o. E aqui, para evitar problemas, as obras feitas pelos inquilinos passam a ser propriedade do senhorio. Nunca h\u00e1 interven\u00e7\u00f5es de fundo. Quem as pagava?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/151008-0000-fimdamemoria2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAntigo ex-libris<\/p>\n<p>A pouco e pouco, Luanda vai desaparecendo, submergida pelo centro de uma qualquer capital financeira. A Luanda centen\u00e1ria transforma-se numa cidade de torres de vidro e a\u00e7o. As multinacionais disputam o seu lugar com vista para a ba\u00eda. A tal ba\u00eda que se planeia encher de areia para fazer uma marginal com seis faixas de rodagem. Obras fara\u00f3nicas, alimentadas pelo petr\u00f3leo e pelos diamantes. Enquanto isso, os esgotos da cidade continuam entupidos&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/151008-0000-fimdamemoria1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nLuanda est\u00e1 cada vez mais parecida com lugar nenhum<\/p>\n<p>A pouco e pouco a Hist\u00f3ria da cidade e do pa\u00eds vai sendo apagada. As mem\u00f3rias esbatem-se a cada fachada que cai. Qualquer dia chegam ao fim&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perto do Largo do Lumeji, em frente ao Cinema 1\u00ba de Maio, mais um edif\u00edcio do tempo colonial veio abaixo. Ficava na esquina, era vermelho e impunha a sua presen\u00e7a. Dizem-me que era uma escola. H\u00e1 muito que n\u00e3o tinha alunos. 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