{"id":1281,"date":"2008-10-29T00:00:48","date_gmt":"2008-10-28T23:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1281"},"modified":"2009-08-08T21:41:35","modified_gmt":"2009-08-08T20:41:35","slug":"os-seus-documentos-e-os-da-viatura-por-favor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/os-seus-documentos-e-os-da-viatura-por-favor\/","title":{"rendered":"Os seus documentos e os da viatura, por favor!"},"content":{"rendered":"<p>Tinha tudo planeado para ir fazer uma visita ao Santu\u00e1rio de Nossa Senhora da Muxima, a cerca de 200 quil\u00f3metros de Luanda. O farnel estava arrumado, as rotas tra\u00e7adas e carregadas no GPS. Faltava atestar o carro e partir bem cedo.<\/p>\n<p>As coisas come\u00e7aram logo a correr mal quando, depois de uma semana a aturar obras debaixo da janela at\u00e9 \u00e0s duas da manh\u00e3, dormi onze horas de seguida. Levantei-me repousado, pelo fresquinho da manh\u00e3, julgava. Afinal j\u00e1 era o morno da tarde e o meio-dia tinha partido h\u00e1 um bocado.<\/p>\n<p>Se encurtasse a volta at\u00e9 \u00e0s margens do Cuanza, at\u00e9 um s\u00edtio com o po\u00e9tico nome de <em>Baixa da perna do jacar\u00e9<\/em>, o dia ainda se aproveitava. Pelo menos podia fazer fotografias bonitas. S\u00f3 faltava mesmo atestar.<\/p>\n<p>As bombas perto de casa, habitualmente pouco concorridas, pareciam estar a vender combust\u00edvel com desconto, tanta era a gente. Mais \u00e0 frente percebi porqu\u00ea. As mais concorridas estavam a ser reabastecidas. Haveria mais oportunidades pelo caminho.<\/p>\n<p>Havia muitos militares na rua, mesmo nas avenidas onde n\u00e3o costumam aparecer. Ser\u00e1 que o Z\u00e9 D\u00fa vai <em>zungar<\/em>?<\/p>\n<p>Os engarrafamentos que me tinham feito desistir do passeio na semana n\u00e3o me apoquentaram desta vez. Havia zonas em que se andava mais devagar, mas nada de especial para Luanda.<\/p>\n<p>Carros da pol\u00edcia por todo o lado. Muitos a rebocar as esquadras m\u00f3veis, uns atrelados que transportam tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para uma opera\u00e7\u00e3o STOP.<\/p>\n<p>Em frente ao edif\u00edcio do Controlo da Pol\u00edcia, onde vai come\u00e7ar a nova estrada circular para Viana, cones laranja, coletes amarelos e luzes azuis a piscar. Habitualmente a pol\u00edcia de tr\u00e2nsito usa coletes laranja. Estes eram amarelos porque pertenciam \u00e0 pol\u00edcia de preven\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria!<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, fui carimbado! Mas hoje foi de borla.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos1.jpg\"  \/><br \/>\nO &#8220;carimbo&#8221;<\/p>\n<p>Toda a gente era interpelada. Ao contr\u00e1rio do habitual, n\u00e3o pediam documentos ou contribui\u00e7\u00f5es para o bem-estar dos agentes. Estavam a entregar panfletos de sensibiliza\u00e7\u00e3o e a desejar uma condu\u00e7\u00e3o cuidada aos motoristas. Depois colavam um autocolante no vidro, que nos relembra a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fiquei muito bem impressionado com a campanha. Em vez de se fazer como nas terras lusas, onde se gasta dinheiro para decidir onde se vai espetar um cartaz a repetir os chav\u00f5es gastos. Um a um, os motoristas prestam alguns segundos de aten\u00e7\u00e3o ao pol\u00edcia e recebem quatro panfletos bem interessantes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos2.jpg\"  \/><br \/>\nAtr\u00e1s do cartaz, uma ribanceira cheia de destro\u00e7os<\/p>\n<p>Continuei para sul. A estrada foi asfaltada de novo nos quil\u00f3metros que se seguem ao Morro dos Veados. Tem marca\u00e7\u00f5es, sinais e asfalto em condi\u00e7\u00f5es. Nem parece que estamos em Luanda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos3.jpg\" \/><br \/>\nO primeiro, para criar ambiente<\/p>\n<p>Na curva a seguir ao Museu da Escravatura, est\u00e1 um cami\u00e3o a voltar \u00e0 estrada depois de uma opera\u00e7\u00e3o STOP. Olhei pelo espelho, n\u00e3o vinha ningu\u00e9m atr\u00e1s. Bonito, j\u00e1 me saiu a sorte grande.<\/p>\n<p>Certo e sabido, a raquete do pol\u00edcia de colete laranja come\u00e7ou a indicar-me um local para encostar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos4.jpg\"  \/><br \/>\nA tabela<\/p>\n<p><em>\u00abBoa tarde. Os seus documentos e os da viatura, por favor!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Como sempre, as v\u00e1rias dobras e p\u00e1ginas em l\u00ednguas estranhas da carta de condu\u00e7\u00e3o internacional, deixam os pol\u00edcias sem saber muito bem o que fazer com o documento. Abre daqui, folheia dali, desdobra acol\u00e1, volta a dobrar, dar a volta, ver a capa, abrir outra vez.<\/p>\n<p><em>\u00abSabe onde foi assinada a Confer\u00eancia Internacional de 1949?\u00bb<\/em> perguntou o pol\u00edcia, apontando para a capa da licen\u00e7a de condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00abN\u00e3o fa\u00e7o ideia.\u00bb<\/em> respondi, rindo-me para dentro. Enquanto o ar demasiado oficial do documento causar estas reac\u00e7\u00f5es, estou safo. O passaporte e respectivo visto acabou por esclarecer o resto das d\u00favidas.<\/p>\n<p>Mandou-me seguir viagem. Continuei para sul. Agora s\u00f3 paro no Cuanza, pensei.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos5.jpg\" \/><br \/>\nO acondicionamento da carga nem sempre \u00e9 o ideal<\/p>\n<p>Nem cheguei a engrenar a quarta. Na curva seguinte, outra opera\u00e7\u00e3o STOP! O que se passa hoje? Estavam sem nada que fazer e vieram dar uso \u00e0s esquadras m\u00f3veis? Desta feita eram coletes amarelos outra vez. A raquete a agitar-se n\u00e3o deixou margem para d\u00favidas. Parei de novo.<\/p>\n<p><em>\u00abBoa tarde. Os seus documentos e os da viatura, por favor!\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abNos \u00faltimos dez minutos j\u00e1 fui parado tr\u00eas vezes, tenho direito a pr\u00e9mio?\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Desta vez apanhei um misto da primeira e da segunda opera\u00e7\u00f5es. Era ac\u00e7\u00e3o de sensibiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m queria ver os documentos. E o macaco. E a chave de rodas. E o tri\u00e2ngulo.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o havia nada a apontar, mandou-me seguir viagem, mas n\u00e3o sem antes verificar se tinha o &#8220;carimbo&#8221;. Mostrei-lhe onde mo tinham colado e arranquei.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos6.jpg\"  \/><br \/>\nSe fosse s\u00f3 por causa do telefone que n\u00e3o se p\u00e1ra nas passadeiras&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei sem \u00e2nimo de seguir viagem. Ainda para mais, na \u00faltima bomba de combust\u00edvel at\u00e9 ao Cuanza j\u00e1 n\u00e3o havia gasolina. Fiz meia-volta e s\u00f3 parei para uma visita r\u00e1pida ao mercado de arte. Amanh\u00e3 \u00e9 outro dia!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/09\/161008-0000-osseusdocumentos7.jpg\"  \/><br \/>\nA pol\u00edcia tamb\u00e9m n\u00e3o gosta das coisas de pr\u00e9-sinaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha tudo planeado para ir fazer uma visita ao Santu\u00e1rio de Nossa Senhora da Muxima, a cerca de 200 quil\u00f3metros de Luanda. O farnel estava arrumado, as rotas tra\u00e7adas e carregadas no GPS. Faltava atestar o carro e partir bem cedo. 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