{"id":1310,"date":"2008-10-04T00:00:04","date_gmt":"2008-10-03T23:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1310"},"modified":"2008-10-04T00:00:04","modified_gmt":"2008-10-03T23:00:04","slug":"a-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-espera\/","title":{"rendered":"A espera&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Estou prestes a embarcar noutra viagem intercontinental. Desta feita vou de f\u00e9rias a Portugal. Vou ver o que mudou nestes \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Preparo-me para enfrentar mais sete horas de voo mal dormido. Mas estas sete horas s\u00e3o a parte r\u00e1pida da viagem. A espera at\u00e9 ao embarque \u00e9 bem pior. O <em>check-in<\/em> come\u00e7ou \u00e0s 16h30. Cheguei ao aeroporto \u00e0s 17h15. Sentei-me na sala de espera da zona reservada um pouco antes das 18h. Tudo correu bem. Ningu\u00e9m me tentou extorquir dinheiro nem <em>agilizar<\/em> processos de forma muito evidente. A \u00fanica dificuldade deste processo, at\u00e9 agora, teve-a o motorista que me trouxe. Parou para me deixar e, ainda n\u00e3o tinha fechado a bagageira, j\u00e1 tinha um pol\u00edcia a pedir-lhe os documentos&#8230;<\/p>\n<p>Fui espreitar a varanda com vista para a placa. De l\u00e1 podemos ver, ouvir e cheirar os avi\u00f5es que ligam Luanda ao resto do mundo. Ou, como os angolanos preferem, ligam o resto do mundo a Luanda.<\/p>\n<p>O 747 da South African aterra e fica estacionado mesmo em frente \u00e0 varanda. Caramba, que bicho grande.<\/p>\n<p>No controlo de passaportes, um dos vistos faz nascer um sorriso com a promessa de multas, coimas e <em>gasosas<\/em>. Na p\u00e1gina seguinte, a express\u00e3o fica mais s\u00e9ria e o sorriso apaga-se. Acabou-se a esperan\u00e7a de sacar algum&#8230; <em>\u00abTudo em ordem. Boa viagem.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Raio X. Tudo em ordem.<\/p>\n<p>Antes das salas de espera h\u00e1 um desvio obrigat\u00f3rio para a declara\u00e7\u00e3o de valores em Kwanzas, D\u00f3lares e Euros. Kwanzas n\u00e3o trouxe. D\u00f3lares e Euros, poucos. Mais um sorriso que se desvanace. <em>\u00abBoa viagem.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Subo as escadas. A zona franca tem as lojas quase todas fechadas. S\u00e3o excep\u00e7\u00f5es a cafetaria e a loja de diamantes. Os diamantes devem ser a pre\u00e7o de, a bem dizer, diamantes. Na cafetaria a bitola deve ser a mesma.<\/p>\n<p>Na sala de espera mais antiga, os funcion\u00e1rios da limpeza est\u00e3o sentados a ver uma telenovela portuguesa. Conversam entre si acerca do enredo e da vida. Um pouco ao contr\u00e1rio do que acontecia em Ganda, onde se bebia a hist\u00f3ria em sil\u00eancio. N\u00e3o ficam sentados muito tempo. As cadeiras novas s\u00e3o desconfort\u00e1veis e fazem as pessoas escorregar. \u00c9 menos cansativo ficar de p\u00e9.<\/p>\n<p>No meio da sala h\u00e1 um ponto de <em>internet<\/em> gratuito. Uma tomada el\u00e9ctrica, outra telef\u00f3nica e algumas instru\u00e7\u00f5es de configura\u00e7\u00e3o. Por perto n\u00e3o nem uma mesa onde apoiar o computador, nem uma mesa onde nos possamos sentar. Interessante&#8230;<\/p>\n<p>Apesar dos letreiros proibindo fumar, algu\u00e9m tentou apagar um cigarro nas aparas de madeira que decoram os vasos. Agora v\u00e3o ardendo lentamente, enchendo a sala de fumo.<\/p>\n<p>A sala de espera mais moderna tem aquele aspecto ass\u00e9ptico comum aos edif\u00edcios modernos, com linhas muito estilizadas. Cadeiras de metal desconfort\u00e1veis, iguais \u00e0s da sala antiga. Ch\u00e3o escorregadio e frio. Muitas luzes fluorescentes emprestam um ar est\u00e9ril a um espa\u00e7o j\u00e1 de si desumanizado.<\/p>\n<p>Os mosquitos fogem do fumo e procuram v\u00edtimas na sala nova. Porque estou eu aqui? A bateria do computador est\u00e1 em fim de vida e ao lado da cadeira h\u00e1 uma tomada que posso usar sem dar muito nas vistas. N\u00e3o \u00e9 que seja proibido, mas j\u00e1 se saber que se for para implicar, passa a ser ofensa grave, explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais angolanos e tudo o mais.<\/p>\n<p>Desta vez tenho um lugar \u00e0 janela. Julgo que do lado Oeste. N\u00e3o vou ter o prazer de ver nascer o Sol mas tamb\u00e9m n\u00e3o vou ser acordado por ele. Ainda que \u00e0s escuras, vou poder ver \u00c1frica, coisa que n\u00e3o me foi permitido na viagem para Sul.<\/p>\n<p>Seis e meia. Daqui a pouco mais de tr\u00eas horas j\u00e1 devo estar no avi\u00e3o. sejamos pacientes.<\/p>\n<p>As lojas abriram um pouco antes das oito. Os pre\u00e7os eram de fugir, claro. Os Kwanzas ficam ao fundo das escadas, os D\u00f3lares ficam nas lojas de arte.<\/p>\n<p>Perto das nove, faz-se a chamada para a sala de embarque. Novo controlo de passaportes, boletins de vacinas e tal\u00f5es de embarque.<\/p>\n<p>Bem dentro dos hor\u00e1rios previstos, embarc\u00e1mos. Depois recome\u00e7ou a espera. A greve do pessoal do aeroporto atrasou o carregamento das bagagens. Descolamos com cinquenta e cinco minutos de atraso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou prestes a embarcar noutra viagem intercontinental. Desta feita vou de f\u00e9rias a Portugal. Vou ver o que mudou nestes \u00faltimos meses. Preparo-me para enfrentar mais sete horas de voo mal dormido. Mas estas sete horas s\u00e3o a parte r\u00e1pida da viagem. A espera at\u00e9 ao embarque \u00e9 bem pior. O check-in come\u00e7ou \u00e0s 16h30. 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