{"id":1354,"date":"2008-10-31T00:00:37","date_gmt":"2008-10-30T23:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1354"},"modified":"2008-10-29T21:44:57","modified_gmt":"2008-10-29T20:44:57","slug":"bichos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/bichos\/","title":{"rendered":"Bichos"},"content":{"rendered":"<p>Em Luanda, como em grande parte de \u00c1frica, h\u00e1 muitos c\u00e3es. Cada esquina tem o seu e h\u00e1 alguns becos com pequenas matilhas. Todos t\u00eam o mesmo aspecto macilento, de rafeiro empoeirado, filho de primo, tio de si mesmo e av\u00f4 do seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a dos humanos com quem vivem, tamb\u00e9m compartilham a mis\u00e9ria. Na capital, poucos s\u00e3o os c\u00e3es com ar saud\u00e1vel. Curiosamente, ao contr\u00e1rio dos humanos, ainda n\u00e3o vi c\u00e3es ricos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/121008-0000-bichos1.jpg\"  \/><br \/>\nVendo Luanda passar<\/p>\n<p>Nos musseques, as orelhas dos bichos competem com as ruas em n\u00famero de buracos. Em animais cobertos de p\u00f3 encontramos sempre duas manchas vermelho-vivo a adornar a cabe\u00e7a. N\u00e3o se trata de vaidade. A tinha, a sarna e as larvas das moscas deixam a sua marca.<\/p>\n<p>Os c\u00e3es, quando est\u00e3o doentes, deitam-se \u00e0 espera. Esperam a cura ou a morte. Uma delas \u00e9 garantida. Nas ruas v\u00eaem-se muitos c\u00e3es magros s\u00f3 \u00e0 espera, ap\u00e1ticos. Corre o boato de que chineses e coreanos compram os rafeiros menos doentes&#8230;<\/p>\n<p>Tal como os angolanos de dois p\u00e9s, os de quatro patas s\u00e3o quase todos novos. Muitos cachorros com ar assustado percorrem as ruas. Fogem do tr\u00e2nsito, das pedras que os mi\u00fados lhes atiram e dos porcos com quem competem pelo lixo com que se alimentam. T\u00eam medo. S\u00e3o esquivos e ao menor pretexto desatam a ganir atrozmente enquanto fogem de rabo-entre-as-pernas. As cadelas, que andam sempre prenhas, v\u00e3o procurando alimento nos montes de lixo e bebendo do que escorre das valas. As ninhadas s\u00e3o grandes mas poucos sobrevivem \u00e0s primeiras semanas.<\/p>\n<p>A caminho da Praia do Bispo, logo abaixo da Fortaleza de Luanda, na antiga Praia do Sol, entretanto j\u00e1 desaparecida, costumo ver um mi\u00fado que passa o tempo sentado na soleira do port\u00e3o do quintal. Ao colo costuma ter um c\u00e3o amarelo. V\u00e1rias foram as vezes que me arrependi de n\u00e3o ter a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica comigo, para imortalizar aqueles dois amigos.<\/p>\n<p>Os poucos c\u00e3es velhos que se v\u00eaem ostentam cicatrizes feias, de atropelamentos menos tr\u00e1gicos. Ningu\u00e9m abranda ou desvia o carro por causa de um pe\u00e3o, quanto mais por um c\u00e3o. O c\u00e3o no meio da estrada \u00e9 tratado como mais uma lata de cerveja vazia, \u00e0 qual se aponta a roda do carro. Se se desviar, muito bem, se n\u00e3o, tanto pior para a lata. Ou para o c\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/301008-0000-bichos12.jpg\"  \/><br \/>\nReciclagem com pernas<\/p>\n<p>Os que ficam no meio da via depressa se transformam num papa indistinta que s\u00f3 dificilmente acreditamos que j\u00e1 foi um c\u00e3o. Os que morrem nas bermas escapam a esse destino. \u00c9 frequente ver c\u00e3es a guardar os cad\u00e1veres e, por vezes, a tentar empurr\u00e1-los para longe da estrada. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o fazer compara\u00e7\u00f5es com emo\u00e7\u00f5es humanas&#8230;<\/p>\n<p>Um pouco fora do centro de Luanda, vemos alguns rebanhos de cabras. Nunca s\u00e3o muito numerosos porque a carne de cabrito tem muita procura. O cabrit\u00e9 , carne de cabrito grelhada, \u00e9 um prato habitual e sempre s\u00e3o cinco milh\u00f5es de pessoas a comer. Dizem tamb\u00e9m que h\u00e1 poucos gatos em Luanda por causa do cabrit\u00e9&#8230; pelo sim, pelo n\u00e3o, da pr\u00f3xima vez pergunto se o cabrito miava quando era vivo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/290908-0000-caesdeluanda1.jpg\"  \/><br \/>\nCabrit\u00e9 em bruto<\/p>\n<p>Os vendedores que ganham a vida no meio das filas de tr\u00e2nsito, entre outras coisas, vendem coleiras e trelas. A princ\u00edpio achei estranho, porque n\u00e3o via ningu\u00e9m a passear c\u00e3es na rua.<\/p>\n<p>Quando comecei a reparar mais nos pormenores e menos nas generalidades, apercebi-me que os nossos vizinhos t\u00eam dois na varanda. Na rua h\u00e1 mais uns quantos e, se tivermos sorte, podemos ver crian\u00e7as a passe\u00e1-los.<\/p>\n<p>Na prov\u00edncia, n\u00e3o h\u00e1 trelas e as coleiras resumem-se a um bara\u00e7o. Os c\u00e3es s\u00e3o tratados com alguma indiferen\u00e7a, mas s\u00e3o considerados os melhores amigos. Chora-se mais a perda de um c\u00e3o do que a de um cabrito, embora o cabrito valha dinheiro e o c\u00e3o n\u00e3o. Partilham o mesmo ar temeroso dos c\u00e3es de cidade, mas est\u00e3o menos magros e com o pelo bem mais lustroso.<\/p>\n<p>Os porcos que se v\u00eaem nas ruas, est\u00e3o-se nas tintas para o tr\u00e2nsito, para as pessoas e para os buracos com lama. Todos se desviam deles. Numa terra onde a lei do mais forte ainda vai reinando, eles est\u00e3o no topo da hierarquia. Se vemos um monte de lixo a mexer, podemos apostar que do outro lado h\u00e1 um porco a revolver as coisas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/290908-0000-caesdeluanda4.jpg\"  \/><br \/>\nFoge coelho, foge<\/p>\n<p>As galinhas, omnipresentes at\u00e9 nos jardins dos edif\u00edcios p\u00fablicos, vivem num limbo. N\u00e3o se lhes presta aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 ao dia em que v\u00e3o para a panela.<\/p>\n<p>A poucos quil\u00f3metros de Luanda j\u00e1 se encontram bandos de macacos nas matas. Por j\u00e1 saberem o que os espera, fogem das pessoas assim que as v\u00eaem, lan\u00e7ando gritos de alarme <em>CAH! CAH! CAAH!<\/em> Os p\u00e1ssaros, confiantes da sua vantagem a\u00e9rea, esperam at\u00e9 mais tarde. Aguardam pelo momento em que lhes apontamos a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica e levantam voo no preciso instante em que decidimos carregar no bot\u00e3o.<\/p>\n<p>No mercado de arte h\u00e1 sempre algu\u00e9m com um pequeno macaco cinzento para atrair os compradores. O macaco tamb\u00e9m est\u00e1 \u00e0 venda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/290908-0000-caesdeluanda2.jpg\"  \/><br \/>\nVizinhos<\/p>\n<p><em>Adenda: A Karima relembrou-me as palavras s\u00e1bias de Gandhi, que dizia poder-se avaliar a cultura de um povo tamb\u00e9m pela maneira como trata os seus animais. Os angolanos tratam os animais como podem. Tr\u00eas d\u00e9cadas de guerra apagaram v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es e com elas, muita cultura. Daqui para a frente s\u00f3 pode \u00e9 melhorar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Luanda, como em grande parte de \u00c1frica, h\u00e1 muitos c\u00e3es. 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