{"id":1366,"date":"2008-11-01T00:00:31","date_gmt":"2008-10-31T23:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1366"},"modified":"2009-09-05T23:34:02","modified_gmt":"2009-09-05T22:34:02","slug":"trs-tentativas-para-a-muxima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/trs-tentativas-para-a-muxima\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas tentativas para a Muxima"},"content":{"rendered":"<p>Antes de partir de f\u00e9rias, l\u00e1 na P\u00e1tria, resolvi aproveitar o meu \u00faltimo fim-de-semana sozinho por terras angolanas.<\/p>\n<p>Umas semanas antes tinha tentado atravessar o Kwanza para ir conhecer o Santu\u00e1rio da Muxima, que julgava ser a vers\u00e3o angolana do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima. O tr\u00e2nsito ca\u00f3tico para Sul fez-me desistir do plano e acabei por ir conhecer a Cabala e a sua jangada.<\/p>\n<p>Na minha segunda tentativa, pus em dia as opera\u00e7\u00f5es STOP que estava a dever ao Estado Angolano. Tr\u00eas no mesmo dia \u00e9 obra. Consegui o mais dif\u00edcil, sair de todas sem pagar <em>gasosas<\/em>.<\/p>\n<p>Como ainda \u00e9 longe e h\u00e1 um longo tro\u00e7o de estrada de terra batida, \u00e9 preciso sair bem cedo. Acordei tarde e pensei que devia encurtar o passeio at\u00e9 ao Parque da Quissama, para fotografar um s\u00edtio com um nome que nos ati\u00e7a a curiosidade, <em>a Baixa da perna do Jacar\u00e9<\/em>!<\/p>\n<p>Pus-me a caminho. Parei na Xilombo para comprar almo\u00e7o. Um choco grelhado pareceu-me a escolha acertada. Levei o tupperware que l\u00e1 t\u00ednhamos comprado.<\/p>\n<p>Ainda antes de chegar ao Kwanza encontrei mais uma opera\u00e7\u00e3o STOP. N\u00e3o me pararam porque estavam ocupados com um camionista. N\u00e3o cheguei a gozar este momento de felicidade. Meia-d\u00fazia de quil\u00f3metros mais tarde, chegou a minha vez de mostrar os documentos. Voltei a n\u00e3o contribuir para o bem-estar financeiro do agente da autoridade.<\/p>\n<p>Barra do Kwanza. Portagem. 210 Kz. Ponte sobre o Kwanza. Empurrado para a berma, est\u00e1 um velho blindado com a metralhadora enferrujada a fingir guardar a ponte. Mesmo muda, o seu olhar g\u00e9lido nas nossas costas continua a imp\u00f4r respeito e a deixar-nos com uma sensa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel. Prov\u00edncia do Bengo.<\/p>\n<p>Cheguei c\u00e1 depressa. Passo pela placa que indica o Parque da Quissama e a perna do jacar\u00e9. Consulto o GPS. Faltam cerca de 25 km para o caminho da Muxima. \u00c9 s\u00f3 mais um quarto de hora&#8230; Sigo para Sul.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do estrad\u00e3o para a Muxima, a sexta opera\u00e7\u00e3o STOP em dois dias. Os cones no meio da estrada e o pol\u00edcia na berma n\u00e3o enganavam. Para virar para a Muxima tinha de passar pelo meio dos cones, o que \u00e9 proibido. Pior, tinha de pisar o tra\u00e7o cont\u00ednuo. A falta de concord\u00e2ncia da placa que indica a Muxima com o resto da sinaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 esquisita. Tomei uma decis\u00e3o. Antes de ser mandado parar, parei eu e interpelei o pol\u00edcia.<\/p>\n<p><em>\u00abPara a Muxima pode-se virar aqui?\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abSim, \u00e9 por essa estrada mesmo.\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abMas posso virar aqui?\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abSim, \u00e9 por a\u00ed para a Muxima!\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abMas est\u00e1 aqui um tra\u00e7o cont\u00ednuo. Posso virar?\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00abSim, pode ir!\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Passei pelo meio dos cones, pisei o cont\u00ednuo e ainda tive direito a um aceno de despedida por parte do pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Entrei no estrad\u00e3o de 120 quil\u00f3metros que liga a costa ao Santu\u00e1rio da Muxima.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nUma risca vermelha a perder de vista<\/p>\n<p>Como j\u00e1 se estava a meio da tarde e a fome apertava, resolvi parar na berma da estrada e dar ao dente. O choco e a salada chamavam por mim.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMesa Jimny<\/p>\n<p>Depois de uns minutos a retemperar as for\u00e7as, voltei \u00e0 estrada. Est\u00e1 a ser recuperada por mais uma firma chinesa. Tem tro\u00e7os estupendos misturados com outros bastante maus. \u00c9 estranho \u00e9 que se esteja a reparar a estrada apenas a alguns meses das chuvas de Ver\u00e3o. Assim que acabarem, estraga-se.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/3009080000blog8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nAo fim de um longo caminho, a Muxima parecia estar perto<\/p>\n<p>\u00c0 medida que me embrenhava em \u00c1frica, os ind\u00edcios de civiliza\u00e7\u00e3o come\u00e7avam a ser cada vez menores. Menos lixo, menos casas, menos carros. A vida selvagem tornou-se mais afoita, menos receosa do bicho homem. Vi rapinas, cobras e lebres. Acabei por parar para apreciar um bando de macacos.<\/p>\n<p>Mais umas curvas na estrada e o Kwanza surgiu atr\u00e1s de um monte. Logo a seguir veio a povoa\u00e7\u00e3o e, no fim da pra\u00e7a, o Santu\u00e1rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA Igreja<\/p>\n<p>Quando cheguei ao adro, as mulheres tinham acabado de varrer a Igreja. Agora estavam ocupadas a lavar o templo antes da ora\u00e7\u00e3o da tarde. Achei por bem respeitar o culto e a limpeza e n\u00e3o entrei. Haver\u00e1 outras oportunidades para fotografar.<\/p>\n<p>Subi o morro at\u00e9 ao forte colonial. At\u00e9 h\u00e1 uns anos estava quase em ru\u00ednas. Agora sofreu algumas obras de recupera\u00e7\u00e3o e est\u00e1 de cara lavada. Contrasta com outros monumentos l\u00e1 para os lados de Luanda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/3009080000blog13.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n1655<\/p>\n<p>Os velhos canh\u00f5es repousam no ch\u00e3o, enferrujados e entupidos. Guardam um cotovelo do Kwanza que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 alvo de Holandeses cobi\u00e7ando Angola aos Portugueses. Canh\u00f5es portugueses e franceses guardam um forte angolano da cobi\u00e7a de navios holandeses. \u00c9 bizarro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog12.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEspreitando o Kwanza<\/p>\n<p>Como n\u00e3o se chegou a construir apoios novos para os canh\u00f5es, todos eles est\u00e3o mais ou menos no s\u00edtio, dando uma ideia de como n\u00e3o usar um canh\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog10.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nCanh\u00e3o a caminho<\/p>\n<p>O maior contraste da Muxima com Luanda \u00e9 mesmo o lixo. Aqui n\u00e3o h\u00e1. Os poucos caixotes que se v\u00eaem s\u00e3o usados e apenas nos matos se conseguem encontrar os omnipresentes sacos de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>A fortaleza est\u00e1 imaculada. A limpeza do templo estende-se at\u00e9 ao cimo do monte. V\u00eaem-se algumas vassouras do tipo tradicional prontas a ser usadas. N\u00e3o h\u00e1 latas nem embalagens \u00e0 vista. Nalgumas guaritas h\u00e1 velas acesas. Algumas est\u00e3o assentes sobre notas de Kwanza. Pequenas, claro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog11.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEm todo o lado h\u00e1 uma vassoura<\/p>\n<p>O forte est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica. Um cotovelo apertado do rio parece ser o local ideal para se colocar alguns canh\u00f5es e impedir que gente mal-intencionada suba o rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog14.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nO grande Kwanza<\/p>\n<p>Com o Sol a descer no horizonte e ainda muitas horas de viagem pela frente, fui dar uma \u00faltima vista de olhos \u00e0 Igreja. H\u00e1 alguns pormenores interessantes. \u00c0 semelhan\u00e7a do que acontece em Ganda, o templo \u00e9 o edif\u00edcio mais bem conservado da povoa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog15.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nOs arcos nos contra-fortes<\/p>\n<p>Por ser j\u00e1 tarde, pus de parte a ideia de voltar pela Cabala. A jangada que permite fazer a travessia do rio Kwanza s\u00f3 funciona at\u00e9 \u00e0s 15h30 e j\u00e1 eram quase 18h. O percurso \u00e9 bonito, por isso n\u00e3o h\u00e1 problema. Mesmo assim, o caminho de volta, com a mesma extens\u00e3o que o de ida, pareceu-me bem mais curto. Ver entardecer numa paisagem quase despovoada \u00e9 algo de po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Um pouco depois de sair da Muxima, dei boleia a um homem. Queria ir at\u00e9 ao bairro seguinte, onde morava. Quinze minutos depois, desceu. Tinham sido onze quil\u00f3metros. A p\u00e9, teria demorado perto de tr\u00eas horas e chegado a casa j\u00e1 com toda a aldeia a dormir.<\/p>\n<p>O resto do caminho fi-lo por entre embondeiros e pares de pequenos olhos que brilhavam \u00e0 passagem dos far\u00f3is. Senti-me em \u00c1frica. Pelo menos at\u00e9 avistar Luanda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/300908-0000-blog16.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nGuarda-de-honra com embondeiros<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de partir de f\u00e9rias, l\u00e1 na P\u00e1tria, resolvi aproveitar o meu \u00faltimo fim-de-semana sozinho por terras angolanas. Umas semanas antes tinha tentado atravessar o Kwanza para ir conhecer o Santu\u00e1rio da Muxima, que julgava ser a vers\u00e3o angolana do Santu\u00e1rio de F\u00e1tima. 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