{"id":1387,"date":"2008-10-14T00:00:51","date_gmt":"2008-10-13T23:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1387"},"modified":"2008-10-13T16:57:30","modified_gmt":"2008-10-13T15:57:30","slug":"vila-viosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/vila-viosa\/","title":{"rendered":"Vila Vi\u00e7osa"},"content":{"rendered":"<p>Depois de muitos meses de cacimbo em Luanda, com c\u00e9us cinzentos e o Sol escondido, j\u00e1 come\u00e7ava a sentir saudades do clima portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A voltinha pelo Alentejo serviu para voltar a ver um p\u00f4r-do-Sol a s\u00e9rio, daqueles em que o horizonte esconde a bola de fogo que deixou o c\u00e9u cor de fogo.<\/p>\n<p>No segundo dia, a chuva fez-nos companhia at\u00e9 Vila Vi\u00e7osa. Depois foi-se embora, despedindo-se com um arco-\u00edris duplo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-181315-n38-77851-w007-42535-296.jpg\" \/><br \/>\nA dobrar \u00e9 bem melhor<\/p>\n<p>Uns minutos depois, veio um c\u00e9u azul com nuvens de postal ilustrado. A maneira perfeita de apreciar o final do dia que se aproximava.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-181637-n38-78119-w007-41777-308.jpg\"  \/><br \/>\nFarrapos brancos<\/p>\n<p>Um dos meus assuntos favoritos para fotografar s\u00e3o portas. Essas m\u00e1quinas espantosas que fazem a liga\u00e7\u00e3o entre o mundo exterior e a vida privada. Em Angola n\u00e3o o tenho podido fazer, embora haja l\u00e1 muitas que mere\u00e7am ser fotografadas. Ter de espreitar por cima do ombro antes de enquadrar a fotografia n\u00e3o \u00e9 a melhor maneira de apreciar a porta.<\/p>\n<p>Felizmente que aqui n\u00e3o preciso de ter tantos cuidados e h\u00e1 muitas portas bonitas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-182216-n38-78017-w007-41577-324.jpg\" \/><br \/>\nPorta do Sol<\/p>\n<p>A luz do fim do dia, com um c\u00e9u l\u00edmpido e tudo lavadinho pela chuva, empresta um ar m\u00e1gico \u00e0s velhas pedras do castelo bem cuidado.<\/p>\n<p>Os calipolenses t\u00eam orgulho na sua Vila Vi\u00e7osa e o estado dos monumentos da vila \u00e9 espelho disso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-182451-n38-78037-w007-41476-336.jpg\"  \/><br \/>\nNas ameias<\/p>\n<p>Do cimo das ameias temos um horizonte quase infinito. Noto algumas semelhan\u00e7as com as paisagens angolanas, que parece nunca acabarem. No entanto, temos a sensa\u00e7\u00e3o de que aqui \u00e9 diferente. O suave ondular dos montes at\u00e9 \u00e0 linha azulada que toca nas nuvens diz-nos que aqui n\u00e3o h\u00e1 embondeiros nem terras vermelhas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-182841-n38-78054-w007-41454-343.jpg\"  \/><br \/>\nPaisagem calipolense<\/p>\n<p>O Alentejo \u00e9 sempre um lavar de alma. Tudo faz sentido. As coisas funcionam como devem e sem sobressaltos. A famosa pregui\u00e7a alentejana n\u00e3o \u00e9 pregui\u00e7a. \u00c9 um ritmo constante e seguro, que se ajusta \u00e0 paisagem. \u00c9 mantendo esta cad\u00eancia que se consegue falar a cantar e ter gestos que poderiam ser uma dan\u00e7a. \u00c9 um ritmo que nasce com todos os alentejanos e se sente quando se sentam no caf\u00e9, provando uns petiscos e conversando em <em>cante<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 este ritmo que faz as pessoas gostar das suas ruas e pra\u00e7as como das suas casas. N\u00e3o atiram lixo para o ch\u00e3o. N\u00e3o escrevem nas paredes. T\u00e3o diferentes dos angolanos m\u00e9dios.<\/p>\n<p>Por vezes penso se toda a az\u00e1fama do mundo moderno n\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o ingl\u00f3rio. Tentar cumprir prazos imposs\u00edveis, correr, correr e depois terminar tarde, com muitas coisas para corrigir. Porque n\u00e3o optar pela sabedoria milenar dos alentejanos, que s\u00e3o os herdeiros de todos os povos que por c\u00e1 passaram e se apaixonaram pela terra. As coisas t\u00eam um ritmo delas. Pode parecer lento, pode parecer que n\u00e3o se chega a lado nenhum, mas \u00e9 preciso ir fazendo. Como o varredor que admiro em Luanda, que varre dez cent\u00edmetros de cada vez, o que importa \u00e9 manter o ritmo. Os quil\u00f3metros que faltam varrer n\u00e3o importam. O que interessa \u00e9 que estes dez cent\u00edmetros j\u00e1 est\u00e3o limpos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-184406-n38-78098-w007-41582-346.jpg\" \/><br \/>\nAs sombras<\/p>\n<p>O lusco-fusco tropical \u00e9 breve. Ora est\u00e1 um dia radioso, ora est\u00e1 uma noite cerrada. No princ\u00edpio do Outono, com o Sol j\u00e1 baixo no horizonte, o lusco-fusco alentejano dura algumas horas. As sombras movem-se lentamente pelas fachadas e pelas ruas. Revelam detalhes que s\u00e3o invis\u00edveis durante o resto do dia.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha saudades de ver sombras. Em Luanda, com o cacimbo, n\u00e3o h\u00e1 sombras. Uma luz uniforme invade todos os recantos e ilumina as esquinas. O Sol s\u00f3 est\u00e1 baixo ao final do dia e apenas por alguns minutos. As sombras correm e a noite invade tudo enquanto piscamos os olhos&#8230;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-184443-n38-78078-w007-41566-348.jpg\" \/><br \/>\nAs sombras<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para apreciar as coisas mais singelas, como um contraluz num c\u00e9u de fim de dia. Quando reparamos nele, j\u00e1 acabou.<\/p>\n<p>Esta visita ao Alentejo mostrou-me que tudo isto ainda existe. Sei que a grandeza de Angola tamb\u00e9m se revela na imensid\u00e3o das paisagens mon\u00f3tonas e que contrasta com a imensa variedade de paisagens deste recanto a que chamo P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 pequenino, mas t\u00e3o variado!\u00a0<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/alentejo-20081007-184829-n38-78050-w007-41450-350.jpg\" \/><br \/>\nLusco-fusco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de muitos meses de cacimbo em Luanda, com c\u00e9us cinzentos e o Sol escondido, j\u00e1 come\u00e7ava a sentir saudades do clima portugu\u00eas. A voltinha pelo Alentejo serviu para voltar a ver um p\u00f4r-do-Sol a s\u00e9rio, daqueles em que o horizonte esconde a bola de fogo que deixou o c\u00e9u cor de fogo. 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