{"id":1409,"date":"2008-10-16T00:00:37","date_gmt":"2008-10-15T23:00:37","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1409"},"modified":"2008-10-15T11:55:34","modified_gmt":"2008-10-15T10:55:34","slug":"balano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/balano\/","title":{"rendered":"Balan&ccedil;o"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias tenho retomado o contacto com os que deixei na metr\u00f3pole. Todos me pedem novidades, querem saber como me estou a adaptar, se estou a gostar.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que acabei por repetir muitas vezes as mesmas palavras. E, de cada vez que as dizia, ouvia-as. De tanto as ouvir, passei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o ao seu significado. Porque teria eu escolhido <em>aquelas<\/em> palavras? Porque n\u00e3o outras?<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que aprendemos mais quando ensinamos, consolidei o que j\u00e1 conhe\u00e7o de Angola de cada vez que descrevia a minha experi\u00eancia de expatriado.<\/p>\n<p>Porque me fartei de citar os maus exemplos, a pouco e pouco, dei por mim a odiar Angola e a sua arrog\u00e2ncia oficial mesquinha, o racismo omnipresente e as retalia\u00e7\u00f5es terceiro-mundistas de um pa\u00eds que ainda n\u00e3o pode servir de exemplo para muitas coisas.<\/p>\n<p>Venho mais branco. Por fora e por dentro. Por fora porque n\u00e3o tenho apanhado Sol. \u00c9 rid\u00edculo, mas fui para \u00c1frica e volto menos queimado do que se estivesse c\u00e1. A inseguran\u00e7a leva-nos a ficar mais fechados nos nossos casulos &#8211; a casa e o carro. Os dias passam-se a trabalhar dentro de quatro paredes e o Sol s\u00f3 o vemos de manh\u00e3 ou ao fim da tarde.<\/p>\n<p>Venho mais branco por dentro porque a todo o momento sou recordado da minha condi\u00e7\u00e3o de <em>Pula<\/em>, de representante do colono, de <em>laton<\/em>. O racismo que se respira em Angola \u00e9 terr\u00edvel e contagioso, da mesma maneira que sou visto como um mealheiro com pernas, \u00e0s vezes dou por mim a pensar <em>\u00abpretos dum raio&#8230;\u00bb<\/em><\/p>\n<p>No esfor\u00e7o para mostrar que n\u00e3o h\u00e1 racismo em Angola, h\u00e1 quem aponte que dos cinco escritores angolanos mais lidos, dois s\u00e3o pretos, dois s\u00e3o brancos e um \u00e9 mesti\u00e7o. N\u00e3o seria mais simples dizer que s\u00e3o cinco escritores angolanos?<\/p>\n<p>Maus exemplos h\u00e1 em todo o lado, conclu\u00ed. Em Angola h\u00e1 gente boa e gente menos boa. Oportunistas e vigaristas. Corruptos e honestos. Tal como noutras paragens, s\u00e3o sempre os maus exemplos que se destacam.<\/p>\n<p>Depois de uns dias a odiar Angola e todas as suas coisas m\u00e1s, ca\u00ed em mim. N\u00e3o me posso focar nos podres. Tenho de passar a apreciar mais os frutos doces de uma terra maravilhosa que, como tudo, tem as suas imperfei\u00e7\u00f5es.\u00a0 Tenho de deixar de encolher os ombros de incredulidade com os complexos de inferioridade africanos que se traduzem em prepot\u00eancia. Em vez de escolher as palavras negativas, de relatar os pol\u00edcias que se subornam com 500 Kwanzas ou das burocracias supra-kafkianas, tenho de passar a usar as que mostram os bons exemplos. E depois talvez d\u00ea por mim a pensar na raz\u00e3o que me levou a escolher <em>aquele<\/em> bom exemplo e n\u00e3o outro qualquer.<\/p>\n<p>Os t\u00e9cnicos angolanos l\u00e1 da empresa s\u00e3o o nosso orgulho. S\u00e3o a prova de que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 perdida. Sempre que penso neles, retomo a esperan\u00e7a no pa\u00eds. Sinto-me com vontade de lutar pela terra que \u00e9 deles.<\/p>\n<p>Os esfor\u00e7os desenvolvidos na reconstru\u00e7\u00e3o nacional, mesmo que \u00e0s vezes envoltos num faraonismo inconceb\u00edvel, h\u00e3o-de dar frutos. As estradas que se v\u00e3o recuperando de forma expedita e pouco duradoura ir\u00e3o aumentar os n\u00edveis de exig\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o aceitar\u00e3o que a situa\u00e7\u00e3o volte ao tempo da guerra. Uma vez reaberta a estrada, ter\u00e1 de ser mantida.<\/p>\n<p>\u00c1frica marca fundo. \u00c9 uma experi\u00eancia de vida incr\u00edvel. L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es a preto e branco, nem mesmo no racismo. Tudo s\u00e3o matizes e grada\u00e7\u00f5es. Uma apar\u00eancia simples esconde complexidades extraordin\u00e1rias. Come\u00e7o a compreender os que falam dela com o olhar no infinito e o cora\u00e7\u00e3o cheio de saudade. Os poucos meses que l\u00e1 passei j\u00e1 me mudaram. Sei que sou diferente do que fui.<\/p>\n<p>Angola, terra de contrastes. At\u00e9 no meu \u00e2mago me deixa dividido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias tenho retomado o contacto com os que deixei na metr\u00f3pole. Todos me pedem novidades, querem saber como me estou a adaptar, se estou a gostar. \u00c9 \u00f3bvio que acabei por repetir muitas vezes as mesmas palavras. E, de cada vez que as dizia, ouvia-as. 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