{"id":1449,"date":"2008-10-20T00:00:58","date_gmt":"2008-10-19T23:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1449"},"modified":"2009-03-06T10:54:50","modified_gmt":"2009-03-06T09:54:50","slug":"regresso-a-luanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/regresso-a-luanda\/","title":{"rendered":"Regresso a Luanda"},"content":{"rendered":"<p>Antes do meu v\u00f4o, a porta de embarque \u00e9 usada para o avi\u00e3o com destino a Belo Horizonte. \u00c9 incr\u00edvel como h\u00e1 gente descontra\u00edda. J\u00e1 com as \u00faltimas chamadas e com os assistentes a pedir para se apressarem, continuam com um passo lento. O avi\u00e3o espera. Esperou, esperou e esperou. \u00c0s tantas desistiu de esperar e levantou v\u00f4o. Houve quem ficasse em terra. O melhor \u00e9 que estavam na sala de embarque. Deviam estar a tentar saber qual era o atraso m\u00e1ximo que conseguiam ter. Um pouco como o outro maluco que quis saber qual era a dist\u00e2ncia m\u00ednima a que conseguia ter a cabe\u00e7a de um comb\u00f3io em movimento. Tamb\u00e9m correu mal.<\/p>\n<p>As cadeiras da sala de espera da Aerogare Gago Coutinho partilham a mesma m\u00e1 ergonomia que as do 4 de Fevereiro. Para ser sincero, acho que s\u00e3o iguais em todos os aeroportos. Desconfort\u00e1veis e mal dimensionadas. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que as de Lisboa t\u00eam uma cobertura verde que n\u00e3o escorrega. Muito melhor.<\/p>\n<p>Pelas janelas aprecio os avi\u00f5es na placa. Vejo aletas, accionadores, flaps, reactores, tubos aqui e fios acol\u00e1. Fa\u00e7o uma compara\u00e7\u00e3o com os avi\u00f5es do antigamente, constru\u00eddos de forma emp\u00edrica. Vejo a sua evolu\u00e7\u00e3o e ocorre-me que agora temos avi\u00f5es pr\u00f3ximo do ideal da \u00e9poca da Segunda Grande Guerra. Pelo menos em tamanho.<\/p>\n<p>Chegou a nossa vez de embarcar. Vamos para o autocarro que nos leva at\u00e9 ao avi\u00e3o. Mais uma pesagem da bagagem de m\u00e3o e l\u00e1 vamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>O 747-400 da South African desta vez n\u00e3o me pareceu t\u00e3o descomunal. Fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que at\u00e9 \u00e9 pequeno. Ter\u00e1 sido lavado a 90\u00ba?<\/p>\n<p>A condensa\u00e7\u00e3o nocturna vai escorrendo ao longo da fuselagem, juntando-se na barriga do avi\u00e3o. Faz um fio cristalino numa das aletas ventrais. Uma po\u00e7a escura marca a sombra do avi\u00e3o. Ser\u00e1 normal? Estar\u00e1 o avi\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de voar? A vontade de ficar mais umas horas perto do meus lan\u00e7a estas d\u00favidas parvas&#8230;<\/p>\n<p>Voltei a n\u00e3o ter lugar \u00e0 janela. Escolhi um lugar na coxia, sobre a asa, com menos turbul\u00eancia. Por enquanto n\u00e3o tenho vizinhos e ainda h\u00e1 a esperan\u00e7a de que fiquem tr\u00eas lugares s\u00f3 para mim.. Aproveito para espreitar pela janela e ver os passageiros do Airbus do lado serem espremidos por uma pequena abertura a que chamam porta. Fazem uma fila at\u00e9 ao autocarro e fico com a sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 ali um tubo de pasta de dentes a ser espremido. Um tubo de pasta de dentes com asas. Se as companhias de avia\u00e7\u00e3o fossem unhas-de-fome, agarravam num abre-latas e aproveitavam os \u00faltimos restos de passageiros&#8230;<\/p>\n<p>A partida est\u00e1 atrasada. Apareceram mais umas dezenas de passageiros. Um deles tinha lugar \u00e0 janela na minha fila&#8230; se chegou ao aeroporto suficientemente cedo para ter um lugar \u00e0 janela, porque raz\u00e3o chegou tarde ao avi\u00e3o?<\/p>\n<p>Come\u00e7am a passar os v\u00eddeos com as instru\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. Antigamente ainda punham o pessoal de bordo a demonstrar como se fazia, mas parece que tamb\u00e9m as companhias de avia\u00e7\u00e3o desistiram de prestar aten\u00e7\u00e3o. A civiliza\u00e7\u00e3o caminha para o fim, est\u00e1 visto.<\/p>\n<p>O ecr\u00e3 que vai mostrando a posi\u00e7\u00e3o do avi\u00e3o assinala algumas cidades importantes: Lisboa, Paris, Dar-es Salam e Fortaleza&#8230; Assim que descolamos, fazem uma amplia\u00e7\u00e3o ao sul de Portugal. Faro, Lisboa e Beja aparecem no mapa. As novas regras do acordo ortogr\u00e1fico j\u00e1 s\u00e3o seguidas pela South African Airways. Escrevem Beja com sotaque alentejano e tudo: <em>BEIJA<\/em>.<\/p>\n<p>Os auscultadores que a TAAG empresta aos passageiros s\u00e3o um pouco manhosos, para n\u00e3o dizer maus. Colocam-se sobre as orelhas e n\u00e3o filtram ru\u00eddo nenhum do exterior. E o Jumbo \u00e9 barulhento como um raio. Temos de ter o volume no m\u00e1ximo e prestar muita aten\u00e7\u00e3o para perceber o que se est\u00e1 a tentar ouvir. Aproveitei o tempo de espera at\u00e9 ao embarque para comprar uns auscultadores com supress\u00e3o de ru\u00eddo. Que luxo! A nova defini\u00e7\u00e3o de qualidade de vida \u00e9 poder ouvir m\u00fasica cl\u00e1ssica sem o BZZZZZ dos motores a distrair.<\/p>\n<p>Est\u00e3o a passar um filme de anima\u00e7\u00e3o dobrado. T\u00eam a banda sonora original e a dobrada em simult\u00e2neo. Espantosamente, percebem-se as duas. Basta prestar aten\u00e7\u00e3o a uma delas e a outra parece que desaparece&#8230;<\/p>\n<p>Muitas horas depois, chegamos a Luanda. As pernas custam a dobrar. Custam a esticar. Custam a arrastar. O resto do corpo est\u00e1 na mesma. Os restantes passageiros est\u00e3o nas mesmas condi\u00e7\u00f5es. T\u00e3o mo\u00eddos que ningu\u00e9m bate palmas quando as rodas tocam no ch\u00e3o. Ainda bem, \u00e9 um costume um bocado parolo. Mas temos boas not\u00edcias. Em que outra parte do mundo podemos chegar ao cair da noite e ser brindados com uns amenos 24\u00ba? Angola \u00e9 especial.<\/p>\n<p>Depois vem o controlo de passaportes. Filas lentas com muitos patamares de burocracia. Formul\u00e1rio aqui, boletim de vacinas e carimbadela acol\u00e1, passaporte e visto junto das perguntinhas &#8220;de onde vem, o que o traz c\u00e1 e quando regressa?&#8221;. Na fila do lado estavam quatro coreanos. Tr\u00eas deles aparentavam ser coreanos normais. O quarto era a vers\u00e3o oriental do Keith Richards. Vestido de preto, com um len\u00e7o \u00e0 Arafat, \u00f3culos de sol, cabelo comprido, pele curtida e enrugada e muitas tatuagens. Fazia sintonia com a preta metaleira, de coleira de pregos ao pesco\u00e7o, l\u00e1 no outro lado da sala.<\/p>\n<p>A seguir vem a saga da bagagem. Pelo tempo que esperei pela minha mala de por\u00e3o, sou capaz de adivinhar que s\u00f3 h\u00e1 uma pessoa a tratar das malas e que as tem de ir buscar uma por uma ao avi\u00e3o. A p\u00e9. Com sorte, ainda p\u00e1ra pelo caminho para dois dedos de conversa.<\/p>\n<p>Os passageiros aglutinam-se em frente ao tapete das malas, como se assim a sua bagagem sa\u00edsse mais depressa. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para todos. Como tudo me parece extremamente demorado, prefiro n\u00e3o ficar a acotovelar-me com os outros. Vou criando imagens mentais das malas pelos relances que consigo ter dos objectos que se passeiam atr\u00e1s das pernas das pessoas. H\u00e1 dois ou tr\u00eas locais estrat\u00e9gicos em que se consegue ver um ou dois palmos de cada vez. A minha mala ainda n\u00e3o anda por l\u00e1.<\/p>\n<p>A espera era t\u00e3o longa que os passageiros, ao encontrarem a sua bagagem, se abra\u00e7avam aos embrulhos e malas, sorrindo de al\u00edvio. Eu devo ter feito o mesmo.<\/p>\n<p>Quase duas horas depois de ter sa\u00eddo do avi\u00e3o, encaminhei-me para a Alf\u00e2ndega. O funcion\u00e1rio que verificava os recibos de bagagem pediu-me discretamente uma gasosa. Disse que n\u00e3o. Apareceu logo outro a perguntar o que levava na mala e que me ajudava a passar a Alf\u00e2ndega. \u00abLevo roupa\u00bb. <em>\u00abMas eu facilito. Vem comigo que n\u00e3o h\u00e1 <\/em>maka<em>\u00bb!<\/em> \u00abN\u00e3o, n\u00e3o vale a pena. S\u00f3 levo roupa\u00bb.<\/p>\n<p>Afoito, l\u00e1 segui pelo canal verde. Parei em frente ao fiscal, como quem pergunta se devo ir com a mala para o Raio-X ou se sigo logo para a porta. Est\u00e1 ocupado a mandar outro passageiro para o controlo e manda-me seguir.<\/p>\n<p>Uns minutos depois chego a casa. H\u00e1 um ratinho morto nas escadas. Dizem-me que esse foi o segundo que mataram nesta tarde. Dois ratinhos m\u00ednimos, ainda sem no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser rato, mais pequenos que um polegar. Estamos bonitos, estamos.<\/p>\n<p>O R. e a P. saem para ir comprar um frango assado. Eu fico a desfazer as malas. Vejo uma sombra mexer-se pelo canto do olho. Queres ver&#8230;?<\/p>\n<p>Era mesmo. Persigo um polegar peludo pela casa. Tem um encontro imediato com a biqueira do sapato e depois \u00e9 atirado pela varanda. Estou a ver que Luanda continua como a deixei.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/201008-0000-regressoluanda1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nRatinho amassado<\/p>\n<p>Como c\u00famulo de normalidade, n\u00e3o temos electricidade!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes do meu v\u00f4o, a porta de embarque \u00e9 usada para o avi\u00e3o com destino a Belo Horizonte. \u00c9 incr\u00edvel como h\u00e1 gente descontra\u00edda. J\u00e1 com as \u00faltimas chamadas e com os assistentes a pedir para se apressarem, continuam com um passo lento. O avi\u00e3o espera. 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