{"id":1502,"date":"2008-11-11T00:00:07","date_gmt":"2008-11-10T23:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1502"},"modified":"2009-11-15T00:04:19","modified_gmt":"2009-11-14T23:04:19","slug":"a-pergunta-mais-difcil-de-todas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-pergunta-mais-difcil-de-todas\/","title":{"rendered":"A pergunta mais dif\u00edcil de todas"},"content":{"rendered":"<p>Num destes dias, quando conversava com um dos nossos t\u00e9cnicos acerca de Angola e do seu futuro, lembrei-me de lhe fazer uma pergunta incomum: &#8220;O que h\u00e1 de bom em Luanda?&#8221;<\/p>\n<p>Habitualmente, as conversas acerca de Luanda centram-se nas coisas m\u00e1s, no que n\u00e3o funciona, no que est\u00e1 estragado, no lixo, na corrup\u00e7\u00e3o, nos pre\u00e7os altos, na pobreza&#8230; Raramente se fala no que \u00e9 bom. E quando se fala, \u00e0s vezes diz-se que no tempo do colono, sim, havia coisas a funcionar. Os angolanos s\u00e3o os maiores cr\u00edticos de si mesmos.<\/p>\n<p>Ora acontece que a conversa, at\u00e9 ent\u00e3o animada, morreu de repente. A pergunta trouxe um sil\u00eancio pesado, um cacimbo que prendeu a l\u00edngua ao <em>X.<\/em>. A pergunta era demasiado dificil, mas vinha disfar\u00e7ada de coisa simples, com palavras inofensivas. Sei que a pergunta \u00e9 terr\u00edvel, j\u00e1 muitas vezes lhe tentei encontrar resposta. Por vezes consigo. Noutras ocasi\u00f5es tamb\u00e9m fico sem palavras.<\/p>\n<p><em>&#8220;O que h\u00e1 de bom?&#8221;<\/em> repetia ele.<\/p>\n<p>&#8220;Sim, tem de haver alguma coisa boa. N\u00e3o pode ser tudo mau!&#8221;<\/p>\n<p>Depois de mais uns momentos de sil\u00eancio, desistiu. <em>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada bom em Luanda. S\u00f3 se se for rico.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Insisti. Tem de haver coisas boas em Luanda. Acabou por dizer que talvez s\u00f3 a liberdade que se tem para ouvir m\u00fasica em qualquer lado ou o facto de n\u00e3o se cobrarem impostos \u00e9 que poderiam ser coisas boas. Sabe que as coisas v\u00e3o melhorar e que a guerra atrasou muito o desenvolvimento do pa\u00eds. Faz parte da gera\u00e7\u00e3o que tem perspectivas para Angola mas sabe que n\u00e3o as gozar\u00e1. Ser\u00e3o os seus filhos a herdar o pa\u00eds reconstru\u00eddo.<\/p>\n<p>Tive de discordar dele. H\u00e1 coisas boas em Luanda, concerteza. Os angolanos \u00e9 que andam um pouco atordoados com as dificuldades da vida para se aperceberem delas. Eu bem vejo os sorrisos em cada esquina e as crian\u00e7as a rir enquanto correm atr\u00e1s de uma bola. Isso s\u00e3o coisas boas, n\u00e3o s\u00e3o?<\/p>\n<p>Entretanto fiz a mesma pergunta ao <em>C.<\/em> e ao <em>J.<\/em>, outros dois t\u00e9cnicos. Falaram-me da divers\u00e3o nocturna, das festas e do bom ambiente que se vive em Luanda. O <em>X.<\/em> confirmou, mas percebeu que n\u00e3o era bem isso que eu procurava saber.<\/p>\n<p>A <em>L.,<\/em> que tamb\u00e9m l\u00e1 trabalha, disse-me que havia muitas coisas m\u00e1s, que a Luanda de hoje melhora nuns aspectos mas piora noutros e explicou-me porque raz\u00e3o as pessoas s\u00f3 falam no que n\u00e3o est\u00e1 bem, mas depois conclu\u00edu com a resposta mais bonita. <em>&#8220;Hoje, o que h\u00e1 de melhor em Angola, \u00e9 a quantidade de t\u00e9cnicos m\u00e9dios que j\u00e1 se formou!&#8221;<\/em><\/p>\n<p>E agora, para quem l\u00ea, o que h\u00e1 de bom por a\u00ed?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num destes dias, quando conversava com um dos nossos t\u00e9cnicos acerca de Angola e do seu futuro, lembrei-me de lhe fazer uma pergunta incomum: &#8220;O que h\u00e1 de bom em Luanda?&#8221; Habitualmente, as conversas acerca de Luanda centram-se nas coisas m\u00e1s, no que n\u00e3o funciona, no que est\u00e1 estragado, no lixo, na corrup\u00e7\u00e3o, nos pre\u00e7os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1,14,360],"tags":[256],"class_list":["post-1502","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","category-luanda","category-provincia-de-luanda","tag-coisas-boas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1502"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1502\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1503,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1502\/revisions\/1503"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}