{"id":1504,"date":"2008-11-12T00:00:24","date_gmt":"2008-11-11T23:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1504"},"modified":"2009-09-04T15:09:28","modified_gmt":"2009-09-04T14:09:28","slug":"ndang","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/ndang\/","title":{"rendered":"N\u00e1d&#8217;Ang\u00f4"},"content":{"rendered":"<p>Apenas as l\u00ednguas a poucos anos de entrar na categoria de l\u00edngua morta se podem orgulhar de n\u00e3o ter sotaques regionais. Quanto menos falantes, menor a diversidade. O Portugu\u00eas, felizmente, ainda conta com um sem-fim de sotaques, regionalismos e vers\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Cada povo introduz o seu sotaque e a sua maneira muito pr\u00f3pria de interpretar a l\u00edngua. Cada regi\u00e3o vive a l\u00edngua \u00e0 sua maneira, adaptando-a \u00e0s circunst\u00e2ncias do momento. \u00c9 isso que a mant\u00e9m viva.<\/p>\n<p>Para quem ainda n\u00e3o se habituou \u00e0 diferente pron\u00fancia de alguns fonemas ou \u00e0s contrac\u00e7\u00f5es de certas s\u00edlabas, os sotaques que diferem muito da l\u00edngua-padr\u00e3o podem parecer um idioma novo. Isto \u00e9 verdade para qualquer l\u00edngua. Quem j\u00e1 ouviu Franc\u00eas canadiano, o famoso Quebeqois, pode ficar com d\u00favidas quanto \u00e0s suas semelhan\u00e7as com o Franc\u00eas original ou at\u00e9 mesmo com o que se fala na Bretanha ou no Congo. Ningu\u00e9m diria que os Mexicanos falam Castelhano, tais s\u00e3o as diferen\u00e7as para o que se fala l\u00e1 na Ib\u00e9ria.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias em Luanda, confesso que tive alguma dificuldade em habituar-me n\u00e3o tanto \u00e0 pron\u00fancia das palavras, mas ao ritmo com que s\u00e3o faladas, com pausas inesperadas, oriundas directamente do ritmo das l\u00ednguas nacionais.<\/p>\n<p>Nas conversas que vou tendo, as coisas agora s\u00e3o f\u00e1ceis. At\u00e9 dou por mim a falar com o mesmo ritmo, misturando algumas palavras de kimbundu l\u00e1 pelo meio e trocando as t\u00f3nicas aqui e ali. Sou mais bem entendido assim.<\/p>\n<p>Mesmo assim, ainda h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que me sinto perdido, sem perceber patavina. Um bom desafio s\u00e3o os preg\u00f5es das zungueiras.<\/p>\n<p>Levei alguns dias a destrin\u00e7ar o que era o chamamento da peixeira do an\u00fancio da mercadoria. Agora j\u00e1 sei que o <em>Ai\u00ea\u00ea\u00eakarapaw\u00ea<\/em> quer dizer carapau, ou peixe-carapau, como aqui se chama. Ali\u00e1s, s\u00e3o estas pequenas diferen\u00e7as, chamar peixe-carapau ou p\u00e3o-carca\u00e7a, que quebram o ritmo a que estamos habituados. A mistura de alguns verbos do kimbundu, com conjuga\u00e7\u00f5es diferentes do que esperamos, tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda. <em>Zungar<\/em>, por exemplo significa passear, mas quando aplicado \u00e0 venda nas ruas pode ser conjugado como vender. Se me disserem que andam a <em>zungar<\/em> abacaxis percebo logo onde querem chegar.<\/p>\n<p>A aprendizagem dos preg\u00f5es \u00e9 lenta, quem vende est\u00e1 sempre a andar de um lado para o outro e n\u00e3o ouvimos muitas vezes o chamamento. Outras vezes nem vemos a mercadoria.<\/p>\n<p>Mas houve uma vez em que tive sorte.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de casa e ouvi, bem alto, <em>N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4, N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4 50 Kwanz!<\/em><\/p>\n<p>Tentei perceber o que vendiam, mas n\u00e3o consegui. Segundos mais tarde, <em>N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4, N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4 50 Kwanz!<\/em><\/p>\n<p>Estava mais pr\u00f3ximo, mas continuava a n\u00e3o perceber. Virei a esquina e vi um rapaz sentado no ch\u00e3o. Gritava <em>N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4, N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4 50 Kwanz!<\/em> Aproximei-me mais e vi uma pilha de jornais \u00e0 sua frente, junto das canetas e desodorizantes para autom\u00f3vel que tamb\u00e9m vendia. No ch\u00e3o tinha um papel com \u00ab50 KZ\u00bb escrito a vermelho. Continuava a gritar <em>N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4, N\u00c1D&#8217;ANG\u00d4 50 Kwanz!<\/em><\/p>\n<p>Quando passei por ele, vi o t\u00edtulo do jornal. Jornal de Angola. 50 Kz!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apenas as l\u00ednguas a poucos anos de entrar na categoria de l\u00edngua morta se podem orgulhar de n\u00e3o ter sotaques regionais. Quanto menos falantes, menor a diversidade. O Portugu\u00eas, felizmente, ainda conta com um sem-fim de sotaques, regionalismos e vers\u00f5es internacionais. 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