{"id":1535,"date":"2008-11-16T00:00:33","date_gmt":"2008-11-15T23:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1535"},"modified":"2009-11-15T00:27:50","modified_gmt":"2009-11-14T23:27:50","slug":"a-cabala-do-kwanza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-cabala-do-kwanza\/","title":{"rendered":"A Cabala do Kwanza"},"content":{"rendered":"<p>Na minha primeira tentativa para a Muxima, o tr\u00e2nsito para Sul fez-me desistir de seguir pela costa at\u00e9 ao desvio para o santu\u00e1rio. Nos mapas aparece um caminho mais curto, que come\u00e7a em Catete e atravessa o Kwanza numa povoa\u00e7\u00e3o chamada Cabala. Com as seguintes tentativas frustradas para chegar \u00e0 Muxima, comecei a pensar se n\u00e3o seria tudo uma cabala para eu n\u00e3o conhecer o s\u00edtio.<\/p>\n<p>Lembrei-me que no Jornal de Angola vinha a not\u00edcia de que a nova ponte da Cabala tinha sido adjudicada j\u00e1 em 2006, pelo que seria bastante prov\u00e1vel haver uma passagem transit\u00e1vel. Entre ficar parado no tr\u00e2nsito ou ir conhecer outros recantos de Angola, optei pela segunda op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda de Catete esperava-me uma estrada acabada de arranjar. Bom sinal. Vinte e muitos quil\u00f3metros de asfalto novo, com obras de arte capazes de resistir \u00e0s chuvas e tudo.<\/p>\n<p>A seis quil\u00f3metros do Kwanza, o asfalto acabava. As obras de compacta\u00e7\u00e3o das terras ainda estavam a decorrer. H\u00e1, concerteza, avenidas com mais buracos em Luanda.<\/p>\n<p>Aos poucos, o povoamento vai ficando menos disperso. As duas ou tr\u00eas cubatas \u00e0 beira da estrada passam a meia-d\u00fazia e depois a uma vintena.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-162838-s09-25101-e013-74199-50.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"452\" \/><br \/>\nAs crian\u00e7as est\u00e3o em todo o lado<\/p>\n<p>Algumas lavras encaixadas entre colinas, com o Kwanza ao fundo, denunciam uma terra f\u00e9rtil. \u00c9 natural que c\u00e1 haja gente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-162350-s09-27746-e013-74871-49.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"206\" \/><br \/>\nA primeira impress\u00e3o da Cabala<\/p>\n<p>\u00c0 medida que nos aproximamos daquilo que parece ser a curva mais bonita do Kwanza, adivinhamos uma terra bonita, a descer para o rio. As cubatas modestas e as casas degradadas relembram os anos de priva\u00e7\u00f5es, mas o cen\u00e1rio \u00e9 excelente.<\/p>\n<p>Claro que o ponto alto da Cabala \u00e9 o rio e a famosa ponte. A estrada que liga a Catete termina mesmo no rio, por isso damos logo com ele. O que se passa do outro lado parece que foi montado para um filme. As \u00e1rvores, a curva da estrada e a pr\u00f3pria jangada azul. A qualquer momento se espera ouvir um <em>&#8220;Corta!&#8221;<\/em> e pessoal a correr de um lado para o outro, desmontando o cen\u00e1rio. Mas n\u00e3o, \u00e9 tudo verdade. S\u00f3 a ponte \u00e9 que ainda n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Um pouco a jusante da jangada, come\u00e7ou-se a montar uma ponte flutuante. Para j\u00e1, a jangada vai funcionando, como tem feito nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-161501-s09-28052-e013-74530-32.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"246\" \/><br \/>\nCen\u00e1rio de filme<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, n\u00e3o percebi porque raz\u00e3o estava a jangada pintada de azul. N\u00e3o \u00e9 uma cor que estivesse \u00e0 espera. Antes de a ver, contava que fosse verde-tropa ou vermelha e preta.<\/p>\n<p>Depois percebi. \u00c9 um transporte p\u00fablico. S\u00f3 lhe falta uma risca branca! E, como bom candongueiro, buzina \u00e0s \u00e1rvores, aos peixes e aos p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-140559-s09-28060-e013-74532-055.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAdorna um pouco para bombordo, \u00e9 certo<\/p>\n<p>A jangada tem um barqueiro de cada lado. Cada um controla uma h\u00e9lice, procurando n\u00e3o atrapalhar o outro. A atracagem \u00e9 feita de forma algo rudimentar, acelerando a fundo perto da margem, para que as rampas se enterrem um pouco. \u00c0s vezes \u00e9 preciso usar uma enxada para encher o buraco deixado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-140618-s09-28060-e013-74532-056.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nTomando balan\u00e7o<\/p>\n<p>A jangada transporta tudo e todos. De uma margem para a outra.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-161810-s09-28081-e013-74523-36.jpg\" \/><br \/>\nMarcas da guerra<\/p>\n<p>Se n\u00e3o houvesse esta travessia, a estrada que se v\u00ea do outro lado estaria a quase trezentos quil\u00f3metros. A Cabala \u00e9, portanto, um local de passagem importante. \u00c9 claro que tem o seu mercado. Vendem-se c\u00e1 os produtos da terra. E quem atravessa o rio, costuma c\u00e1 vir espreitar a mercadoria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-150145-s09-28070-e013-74630-108.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nRegateando as cebolas<\/p>\n<p>Da primeira vez fui sozinho e ao final da tarde. Da segunda, fomos os tr\u00eas, para preparar a ida \u00e0 Muxima por um caminho alternativo.<\/p>\n<p>Entrar com o carro requer alguns dotes de equilibrismo. As pranchas est\u00e3o t\u00e3o afastadas, que n\u00e3o h\u00e1 muito espa\u00e7o para descuidos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-140901-s09-28102-e013-74533-064.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nO piloto<\/p>\n<p>Quem vir os pilotos a trabalhar, pode julgar que o controlo mais importante \u00e9 o bot\u00e3o que acciona a buzina.<\/p>\n<p>Acelerador a fundo e uns toques no leme chegam para que a jangada se atire para o meio do rio. Um pouco depois, um choque indica que cheg\u00e1mos \u00e0 outra margem. A travessia \u00e9 r\u00e1pida. Em menos de tr\u00eas minutos j\u00e1 se tem o carro em terra. Quase nem temos tempo de tirar fotografias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-140932-s09-28159-e013-74539-069.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nOperando o motor de estibordo<\/p>\n<p>Do rio temos uma vis\u00e3o diferente do mundo. Por momentos somos apenas viajantes. Dentro da jangada n\u00e3o havia pretos ou brancos. Todos observavam a margem com aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os barcos t\u00eam esta capacidade especial de nos fazer focar a aten\u00e7\u00e3o nos pormenores que nos mexem c\u00e1 dentro. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a paisagem, \u00e9 tudo o resto; as emo\u00e7\u00f5es e as mem\u00f3rias que se misturam com a agita\u00e7\u00e3o das \u00e1guas. Dei por mim a pensar na Ba\u00eda de Set\u00fabal, que deve ser das mais bonitas do mundo para se ver de barco. De imediato me lembrei da compara\u00e7\u00e3o que fiz entre a partida da cidade e ao final dos filmes de Jacques Tati. Nostalgia do tempo que j\u00e1 passou? Saudade do tempo que nunca foi?<\/p>\n<p>Nisto, a vida do rio mistura-se com estes pensamentos e um pescador lan\u00e7a a rede com mestria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-141008-s09-28162-e013-74539-073.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"451\" \/><br \/>\nPescando<\/p>\n<p>Do outro lado esperava-nos um mangueiral com uma sombra acolhedora. Almo\u00e7\u00e1mos. Algumas pessoas tratavam de p\u00f4r as sestas em dia, gozando a leve brisa que corria ao longo do rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-144901-s09-28381-e013-74379-081.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nA ponte flutuante, quase acabada<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00f3s contempl\u00e1mos a paisagem e olh\u00e1mos, com uma certa cobi\u00e7a, para as mangas que amadureciam por cima das nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-145711-s09-28103-e013-74545-093.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nMarcas da civiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As \u00e1guas do Kwanza, a montante de Luanda, n\u00e3o est\u00e3o muito polu\u00eddas. A press\u00e3o humana \u00e9 pequena e as lavadeiras n\u00e3o sujam assim tanto a \u00e1gua. Mesmo assim, ainda vimos uma garrafa de cerveja passar por n\u00f3s. Duvido que levasse alguma mensagem.<\/p>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as chapinham e riem nas \u00e1guas menos profundas, as m\u00e3es lavam a roupa numas pedras grandes colocadas na margem. Algumas carregam o filho \u00e0s costas enquanto lavam. As outras fazem-no, com a maior naturalidade, de tronco n\u00fa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20081026-145728-s09-28088-e013-74542-101.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAs m\u00e3es lavam e os filhos brincam<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que, t\u00e3o perto de Luanda, se encontre um recanto t\u00e3o pacato, onde os ritmos s\u00e3o bem mais ajustados \u00e0 vida das pessoas. Aqui ainda se vive, n\u00e3o se corre.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-161834-s09-28083-e013-74522-39.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nTradi\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>A despedida da Cabala acabou por ser s\u00f3 um at\u00e9 j\u00e1. Daqui a uns dias voltamos a c\u00e1 passar, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 t\u00e3o esquiva Muxima.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/10\/luanda-20080920-165905-s09-08345-e013-63062-67.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"400\" \/><br \/>\nComo sempre, a companhia foi excelente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha primeira tentativa para a Muxima, o tr\u00e2nsito para Sul fez-me desistir de seguir pela costa at\u00e9 ao desvio para o santu\u00e1rio. 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