{"id":1551,"date":"2008-11-18T00:00:36","date_gmt":"2008-11-17T23:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1551"},"modified":"2009-11-15T00:27:58","modified_gmt":"2009-11-14T23:27:58","slug":"regresso-muxima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/regresso-muxima\/","title":{"rendered":"Regresso \u00e0 Muxima"},"content":{"rendered":"<p>Luanda d\u00e1 cabo dos nervos a qualquer um. De vez em quando \u00e9 preciso esticar as pernas ao esp\u00edrito, s\u00f3 para n\u00e3o dar em maluco.<\/p>\n<p>A vida fora da capital tem ritmos e bases diferentes. As pessoas s\u00e3o pessoas. N\u00e3o foram desumanizadas pelos esquemas e jogos da cidade grande. Ningu\u00e9m nos pede dinheiro para ficar a <em>controlar<\/em> o carro e os olhares trocados j\u00e1 n\u00e3o denunciam a cobi\u00e7a pela carteira do <em>pula<\/em>.<\/p>\n<p>Depois de uma curta visita ao mangueiral do outro lado do rio, na Cabala, ficou decidido voltar a fazer a viagem, rumando at\u00e9 ao Santu\u00e1rio da Muxima. Os \u00faltimos dias em Luanda exigiam-no!<\/p>\n<p>Como sempre, os planos de sair cedinho foram postos de parte l\u00e1 pelas onze. Mesmo assim, resolvemos sair. Trat\u00e1mos de comp\u00f4r o farnel e fizemo-nos \u00e0 estrada. Cerca de duas horas depois, esper\u00e1vamos o fim da pausa dos barqueiros.<\/p>\n<p>A Cabala estava, na sua maneira especial, linda. Nesta travessia, que julgo ter sido a \u00faltima, porque a ponte est\u00e1 quase conclu\u00edda, nem tirei fotografias. Voltei a perder-me nos pensamentos dos barcos e dos rios.<\/p>\n<p>Vi os porcos deitados na lama olhando as lavadeiras quase nuas ali ao lado. Vi dois homens a lavar a roupa enquanto tr\u00eas mulheres assistiam. Vi as crian\u00e7as a atirar \u00e1gua umas \u00e0s outras. Reparei que a espuma branca que sa\u00eda das h\u00e9lices completava o jogo de cores da jangada azul. A sombra das mangueiras estava \u00e0 nossa espera para o almo\u00e7o. Atrac\u00e1mos.<\/p>\n<p>A estrada at\u00e9 \u00e0 Muxima ainda est\u00e1 a ser reparada. Depois da \u00e9poca das chuvas vai ficar em mau estado, mas, at\u00e9 l\u00e1, circula-se bem. Cerca de tr\u00eas quartos de hora depois de comer, o cotovelo do Kwanza aparece no sop\u00e9 de um monte. O verde das margens contrasta com a paisagem vermelha e cinzenta que nos tem acompanhado nos \u00faltimos quil\u00f3metros.<\/p>\n<p>Desta vez j\u00e1 n\u00e3o vi lavar a igreja. Voltei a n\u00e3o entrar. Toda a gente se descal\u00e7ava e deixava os chinelos \u00e0 porta. Eu estava de botas.<\/p>\n<p>Muita gente dormia a sesta \u00e0 sombra da igreja. No rio, homens e mulheres tomavam banho. Elas, com as crian\u00e7as, perto das pedras onde lavam a roupa. Eles, uns metros mais abaixo.<\/p>\n<p>No jardim da igreja, cada arbusto ou sebe tinha uma pe\u00e7a de roupa a corar ao sol. Algumas crian\u00e7as brincavam com os tachos e panelas vazios. Dois rapazes esticavam a pele de um tambor alto com capim a arder. Noutro recanto, mais quatro rapazes formavam um quadrado e rezavam o ter\u00e7o, com as m\u00e3os levantadas como se segurassem uma bandeja.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima1.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Afinando o tom<\/p>\n<p>O servi\u00e7o religioso come\u00e7ou. Os adultos foram entrando e as crian\u00e7as continuaram as suas brincadeiras, agora com menos constrangimentos. Riam quando escorregavam pelo muro. Bateram palmas quando o mais novo aprendeu a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima2.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Acrobacias<\/p>\n<p>Chegada a hora do regresso, despedimo-nos da Muxima. Voltaremos em breve. \u00c9 um s\u00edtio bonito em tantos aspectos. Apetece ficar c\u00e1 mais tempo e falar com as pessoas, aproveitar cada momento.<\/p>\n<p>Na berma da estrada, uma menina retribuia o aceno, enquanto o Kwanza ficava para tr\u00e1s. Um pouco mais \u00e0 frente, \u00e0 sa\u00edda da povoa\u00e7\u00e3o tivemos direito a mais um momento raro. Mi\u00fados a brincar com brinquedos feitos por eles. As brincadeiras em Luanda s\u00e3o mais raras e as crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam oportunidade de construir coisas com tanto esmero.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima9.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>A corrida<\/p>\n<p>Par\u00e1mos para conversar. Que diferen\u00e7a para os mi\u00fados de Luanda que, desde pequenos aprendem a ser desconfiados e a dominar esquemas! Estes sorriem, mostram-se orgulhosos da sua obra. N\u00e3o pedem kwanzas&#8230;<\/p>\n<p>Apresentei-me a cada um deles. E cada um falou da sua m\u00e1quina.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima3.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>O Bit\u00f3 tem um Land Cruiser que vai a todo o lado<\/p>\n<p>Com muito engenho, latas de salsichas, \u00f3leo ou margarina s\u00e3o transformadas nos carros de sonho de cada um.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima4.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>O Sim\u00e3o tem um cami\u00e3o grande<\/p>\n<p>Dobras e cortes estrat\u00e9gicos d\u00e3o forma \u00e0s carro\u00e7arias e \u00e0s suspens\u00f5es de cada carro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"600\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima5.jpg\" width=\"400\" border=\"0\"><br \/>O Alberto tem um Unimog da Pol\u00edcia<\/p>\n<p>O Alberto mostrava um Unimog com todos os detalhes. Grelhas de radiador, encostos de cabe\u00e7a e, acima de tudo, pol\u00edcias armados na caixa de carga, como v\u00ea no quartel da pol\u00edcia da Muxima.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima8.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Com pol\u00edcias armados na traseira<\/p>\n<p>Os detalhes com que constru\u00edu este brinquedo s\u00e3o impressionantes. At\u00e9 podemos reconhecer uma AK-47 nas m\u00e3os de um pol\u00edcia de ar espantado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima6.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>O Gerson tem um Nissan Patrol<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse um acto criminoso, ter-me-ia oferecido para comprar os carros todos. S\u00e3o obras de arte! \u00c9 claro que nunca me seria capaz de voltar a olhar ao espelho sem sentir remorsos. Estes mi\u00fados correm \u00e0 frente dos sonhos que puxam na ponta de um cordel. N\u00e3o ser\u00e1 a minha cobi\u00e7a que os impedir\u00e1.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima7.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>O Sim\u00e3o mais novo tem um Toyota Rav4<\/p>\n<p>De qualquer das formas, nunca poderia encontrar nada que pudesse ser uma troca justa. N\u00e3o se pode oferecer um brinquedo j\u00e1 feito a artistas destes. N\u00e3o se pode oferecer dinheiro.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o que vejo, \u00e9 ser eu a fazer um igual. Preciso \u00e9 de um mestre. Um destes mestres que correm descal\u00e7os, gozando a sua obra. J\u00e1 me come\u00e7a a faltar aquela ingenuidade que \u00e0s crian\u00e7as sobra. Como engenheiro, come\u00e7ava logo a fazer medidas e a tentar manter as propor\u00e7\u00f5es. Eles s\u00e3o guiados pelo sonho. E sabem que aquele seu carro \u00e9 muito mais bonito que o verdadeiro. J\u00e1 agora, eu tamb\u00e9m acho o mesmo!<\/p>\n<p>Despedimo-nos destes condutores de sonhos e continu\u00e1mos estrada fora.<\/p>\n<p>Uns quil\u00f3metros adiante, par\u00e1mos numa escola \u00e0 beira do caminho, longe das povoa\u00e7\u00f5es, mas com alunos. A \u00faltima li\u00e7\u00e3o tinha sido quatro dias antes. Aqui, ao contr\u00e1rio de muitas salas de aula do pa\u00eds, h\u00e1 carteiras para os alunos. S\u00e3o um pouco toscas, mas partilham a magia dos brinquedos que vimos.<\/p>\n<p>Como diziam na r\u00e1dio h\u00e1 uns dias, a escola n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o lugar onde as crian\u00e7as aprendem a ler e a escrever. \u00c9 onde aprendem a ser homens.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/011108-0000-regressomuxima10.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Aqui aprende-se<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luanda d\u00e1 cabo dos nervos a qualquer um. De vez em quando \u00e9 preciso esticar as pernas ao esp\u00edrito, s\u00f3 para n\u00e3o dar em maluco. A vida fora da capital tem ritmos e bases diferentes. As pessoas s\u00e3o pessoas. N\u00e3o foram desumanizadas pelos esquemas e jogos da cidade grande. 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