{"id":158,"date":"2008-06-23T21:40:01","date_gmt":"2008-06-23T20:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=158"},"modified":"2009-07-18T15:49:06","modified_gmt":"2009-07-18T14:49:06","slug":"luanda-outra-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/luanda-outra-vez\/","title":{"rendered":"Luanda, outra vez"},"content":{"rendered":"<p>Depois de ter visto vender peixinhos dourados na rua apercebi-me de que seria interessante descobrir o que mais se vende nesta Luanda t\u00e3o enigm\u00e1tica. H\u00e1 coisas que me surpreendem verdadeiramente. Um artigo que se pensaria ser de luxo s\u00e3o os gelados, no entanto \u00e9 frequente ver sair de uma saca de serapilheira pequenos copos ou cones de bolacha recheados de gelado branco ou rosa. \u00c9 um prod\u00edgio com este clima! Deve ser algo muito barato porque mesmo nas zonas mais modestas h\u00e1 montes de mi\u00fados a lamber gelados.<\/p>\n<p>Outra coisa que se vende muito s\u00e3o baldes e alguidares de pl\u00e1stico. Como s\u00e3o objectos leves, as pilhas que as mulheres levam \u00e0 cabe\u00e7a s\u00e3o monstruosas. E muito coloridas. Hoje vi uma vendedora com algumas d\u00fazias de alguidares \u00e0 cabe\u00e7a, dois baldes enfiados nos bra\u00e7os, recheados de baldes mais pequenos e p\u00e1s do lixo e, para culminar, uma pilha de cadeiras amarradas \u00e0s costas como se de uma crian\u00e7a se tratasse.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062308-2138-luandaoutra11.jpg\" alt=\"\" width=\"540\" height=\"272\" \/><br \/>\nEm equil\u00edbrio perfeito<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062308-2138-luandaoutra21.jpg\" alt=\"\" width=\"325\" height=\"464\" \/><br \/>\n\u00c0s costas leva cadeiras de pl\u00e1stico<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das torradeiras, ferros de engomar, auto-r\u00e1dios e outros aparelhos, h\u00e1 um mercado fluorescente de extens\u00f5es, triplas, qu\u00e1druplas e cabo a metro. Pilhas de todas as formas e feitios, at\u00e9 mesmo as de tamanhos esquisitos, aparecem em cada esquina.<\/p>\n<p>Os vendedores de cadeados transportam cadeias de <em>aloquetes<\/em> enfiados uns nos outros, como se fossem correntes. O mercado dos cadeados e fechaduras nunca ser\u00e1 saciado. Ali\u00e1s, as trancas, grades e jaulas s\u00e3o uma coisa a que nos habituamos em Luanda. Todas as janelas t\u00eam grades, todas as portas t\u00eam uma segunda porta que se fecha com um ou mais cadeados. Cada p\u00e1tio est\u00e1 trancado, aferrolhado e vigiado. At\u00e9 mesmo os carros costumam ostentar, como acess\u00f3rio de decora\u00e7\u00e3o, um cadeado preso debaixo do p\u00e1ra-choques dianteiro.<\/p>\n<p>Por acaso temos alguma sorte. Onde moramos n\u00e3o temos grades nas janelas nem na porta da frente. Pelo menos n\u00e3o temos a sensa\u00e7\u00e3o de estar numa pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrar no carro e trancar as portas passa a ser um gesto mec\u00e2nico. Tal como andar sem cinto de seguran\u00e7a nos faz sentir nus, andar de portas destrancadas d\u00e1-nos a sensa\u00e7\u00e3o de que andamos mal agasalhados. O condutor que me tem levado \u00e0s zonas menos tur\u00edsticas costuma andar de portas abertas, mas mesmo assim h\u00e1 zonas em que as tranca. E ele est\u00e1 c\u00e1 desde 1961\u2026 Anda descontra\u00eddo, mas usa o rel\u00f3gio na m\u00e3o direita, a que est\u00e1 mais longe da janela.<\/p>\n<p>Lembro-me de, h\u00e1 uns anos, um algarvio dizer que n\u00e3o gostava de Lisboa porque se ouviam muitas ambul\u00e2ncias. Luanda, nesse aspecto, \u00e9 um sossego. Excepto se estivermos doentes\u2026 A maioria das sirenes que se ouve s\u00e3o carros blindados ou de motas da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Hoje aproveitei o final do dia para colocar a rede mosquiteira que trouxe de Portugal. N\u00e3o poder abrir as janelas por causa dos mosquitos \u00e9 aborrecido. Se a casa est\u00e1 quente, o que \u00e9 natural (afinal estamos em \u00c1frica), liga-se o ar condicionado, n\u00e3o v\u00e1 aparecer um mosquito carregadinho de paludismo e com vontade de nos picar. Os angolanos que passavam na rua \u00e9 que devem ter pensado que os brancos deste primeiro andar piraram de vez. Em vez de oferecer uns Kwanzas para que lhes fa\u00e7am as coisas, aventuram-se na bricolage\u2026 Como as janelas s\u00e3o de correr, a rede tinha de ser colocada por fora. Para colocar a rede por fora precisei de estar de c\u00f3coras no parapeito e tive de saltar para a varanda para voltar a entrar em casa. Deve ter sido um espect\u00e1culo lindo. Felizmente que jogava a selec\u00e7\u00e3o e ningu\u00e9m reparou em mim. Depois fui dormir uma sesta com a janela escancarada!<\/p>\n<p>Vi hoje uma obra de chineses. Foram os \u00fanicos que n\u00e3o cumpriram a toler\u00e2ncia de ponto decretada. Num buraco estavam seis chineses a cavar, com mais um c\u00e1 fora a olhar para o buraco. H\u00e1 uma certa harmonia c\u00f3smica entre eles e os angolanos, que cumpriram a toler\u00e2ncia de ponto. Ainda ontem vi um buraco com seis angolanos \u00e0 volta a olhar para um que l\u00e1 cavava dentro. <strong><em>Yin-Yang?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A toler\u00e2ncia de ponto de hoje foi algo surreal. Um pouco antes do meio-dia soubemos que a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica tinha toler\u00e2ncia de ponto a partir das 12:00 e os funcion\u00e1rios privados a partir das 15:00. Motivo: o jogo da selec\u00e7\u00e3o nacional angolana contra o Uganda, no Est\u00e1dio dos Coqueiros. A capital parou. \u00c0 excep\u00e7\u00e3o de sete chineses, claro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de ter visto vender peixinhos dourados na rua apercebi-me de que seria interessante descobrir o que mais se vende nesta Luanda t\u00e3o enigm\u00e1tica. 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