{"id":1587,"date":"2008-11-27T00:00:42","date_gmt":"2008-11-26T23:00:42","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1587"},"modified":"2009-09-05T23:31:05","modified_gmt":"2009-09-05T22:31:05","slug":"praia-de-santiago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/praia-de-santiago\/","title":{"rendered":"Praia de S\u00e3o Tiago"},"content":{"rendered":"<p>Um pouco a norte de Luanda, j\u00e1 no munic\u00edpio de Cacuaco, a costa vai descrevendo curvas suaves, que criam umas ba\u00edas abrigadas muito agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>No tempo do colono eram conhecidas por ter praias sossegadas, onde se podia fazer boas pescarias. N\u00e3o eram muito frequentadas porque as praias famosas eram as de Luanda, onde havia esplanadas e restaurantes.<\/p>\n<p>Entretanto, a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos tra\u00e7ou o destino de Angola, j\u00e1 depois do fim da Guerra Colonial em terras angolanas. Angola seria independente mais cedo que tarde, mesmo com tr\u00eas movimentos incapazes de se entender sobre quem formaria o primeiro governo.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1975 percebeu-se que a guerra civil era inevit\u00e1vel, com as tr\u00eas for\u00e7as a importar armas e soldados. Os famosos <em>conselheiros militares<\/em> cubanos do MPLA e cong\u00e9neres da UNITA e FNLA come\u00e7aram a chegar ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os colonos e as tropas portuguesas deixavam \u00c1frica, dando lugar a militares ao servi\u00e7o de outros sonhos coloniais, ditados pela Guerra Fria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-104.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_104\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPraia de S\u00e3o Tiago<\/p>\n<p>Ainda antes do 11 de Novembro de 1975, numa praia isolada perto de Luanda e a coberto da noite, um navio carregado de armas encalha. A enseada abrigada de olhares indiscretos e o areal extenso e compacto s\u00e3o ideais para o descarregar rapidamente e sem deixar rastos. Juntamente com a carga, tamb\u00e9m a tripula\u00e7\u00e3o desaparece, ficando apenas o navio abandonado a enferrujar lentamente na praia. Uma concha vazia, sem pr\u00e9stimo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-105.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_105\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nNomes esquecidos<\/p>\n<p>A este seguiram-se outros. Muitos outros. Armas, muni\u00e7\u00f5es, combust\u00edveis e fardas foram sendo descarregados nestas condi\u00e7\u00f5es, com navios do tipo <em>tara perdida<\/em>. A aus\u00eancia de manifestos de carga n\u00e3o incomoda os fretadores e muito menos os intermedi\u00e1rios, que recebem a sua parte. As perguntas indiscretas e de resposta embara\u00e7osa deixam de fazer sentido quando os navios n\u00e3o regressam ao porto de origem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-111.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_111\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nDois irm\u00e3os que se amparam, partilhando recorda\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Hoje em dia, quando se menciona a praia de S\u00e3o Tiago, todos nos falam dos navios que l\u00e1 definham. \u00c0s vezes falam do seu prop\u00f3sito ou do que se fez com a mercadoria que transportavam.<\/p>\n<p>Agora os navios servem de sombra nos dias de praia. A eles se encostam os grelhadores onde se cozinha o peixe acabado de pescar. Os por\u00f5es esventrados acabam por ser usados como latrinas mais discretas, onde se ouve o rebentar das ondas contra as anteparas, fazendo tudo estremecer e soltando peda\u00e7os de ferrugem. S\u00e3o apenas a passagem para as escadas com poucos degraus inteiros que d\u00e3o acesso aos conveses.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-106.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_106\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nMarcas do tempo que passa<\/p>\n<p>As tr\u00eas d\u00e9cadas de \u00e1gua salgada e sol forte transformaram as grossas chapas dos conveses em labirintos de renda fina, onde se amontoam blocos de metal que se assemelha a cascalho. Lentamente, os passadi\u00e7os v\u00e3o tombando. Acabam por ser arrastados para o mar pela chuva e pelas ondas que conseguem galgar os costados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-107.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_107\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nAs cores esbatem-se com o passar dos dias<\/p>\n<p>Entre v\u00e1lvulas e tubos corro\u00eddos que j\u00e1 n\u00e3o ligam a lado algum, preenchemos os espa\u00e7os e adivinhamos onde se ligariam. Pensamos no que teria transportado este navio an\u00f3nimo. Por ter como destino a praia de S\u00e3o Tiago, o nome que ostenta no casco n\u00e3o \u00e9 importante. Na verdade, at\u00e9 interessa que seja esquecido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-108.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_108\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nTara perdida<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Por entre os ferros retorcidos vislumbramos outros cascos avermelhados, de hist\u00f3rias silenciadas. Ao longo de toda a ba\u00eda v\u00e3o olhando uns pelos outros, envelhecendo e tentando adivinhar quando \u00e9 que o mar os vai vencer. Lembram-me baleias encalhadas, morrendo numa praia qualquer, naquelas esp\u00e9cies de suic\u00eddios colectivos que s\u00e3o noticiados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-109.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_109\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nCorros\u00e3o<\/p>\n<p>Nos meses e anos que se seguiram ao abandono de cada navio, tudo quanto poderia ser facilmente removido e transportado, acabou por desaparecer. As mangueiras, os instrumentos, algumas portas e vidros. O resto ficou. N\u00e3o h\u00e1 sucateiros navais em Angola. Importa-se o a\u00e7o. O que est\u00e1 nas praias ficar\u00e1 at\u00e9 que desapare\u00e7a ou mudem as vontades.<\/p>\n<p>Para j\u00e1, a praia de S\u00e3o Tiago continuar\u00e1 a ser a ba\u00eda dos esqueletos, assombrada por fantasmas ferrugentos, testemunhos de \u00e9pocas conturbadas.<\/p>\n<p>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-110.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_110\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nNavio-fantasma<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pouco a norte de Luanda, j\u00e1 no munic\u00edpio de Cacuaco, a costa vai descrevendo curvas suaves, que criam umas ba\u00edas abrigadas muito agrad\u00e1veis. No tempo do colono eram conhecidas por ter praias sossegadas, onde se podia fazer boas pescarias. 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