{"id":1595,"date":"2008-11-28T00:00:46","date_gmt":"2008-11-27T23:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1595"},"modified":"2009-08-23T01:31:37","modified_gmt":"2009-08-23T00:31:37","slug":"verdinegro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/verdinegro\/","title":{"rendered":"Verdinegro"},"content":{"rendered":"<p>Ainda no tempo do cacimbo, no pino do Inverno tropical, fomos \u00e0 praia. Os angolanos a quem confess\u00e1mos o pecado tiveram a confirma\u00e7\u00e3o das suas suspeitas: somos mesmo estranhos.<\/p>\n<p>Como se pode ir \u00e0 praia no Inverno? A \u00e1gua est\u00e1 fria, n\u00e3o se v\u00ea o Sol. Deixaram o ju\u00edzo l\u00e1 no outro hemisf\u00e9rio, s\u00f3 pode.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-017.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_017\" width=\"600\" height=\"355\" \/><br \/>\nOutro doido<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a \u00e1gua, pelos padr\u00f5es angolanos, est\u00e1 fria ao ponto de causar c\u00e3imbras quando pensamos nela. Os seus m\u00edseros 22\u00ba mant\u00e9m afastados os locais. Eles, provavelmente por recearem os efeitos da \u00e1gua gelada em contacto com a sua masculinidade&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-021.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_021\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>Certo, certo, \u00e9 que \u00e1gua assim, rivaliza com muita praia algarvia no Ver\u00e3o Setentrional. S\u00f3 mesmo as ondas grandes, que se enrolam numa praia \u00edngreme, \u00e9 que nos impedem a afoiteza de entrar at\u00e9 ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, molhar os p\u00e9s e sentir a \u00e1gua a contornar-nos o corpo no seu vai-e-vem incans\u00e1vel \u00e9 um dos pequenos prazeres da vida.<\/p>\n<p>Enquanto nos deix\u00e1vamos embalar pelas ondas da praia do km 55, seguindo o percurso do Sol em direc\u00e7\u00e3o ao horizonte, repar\u00e1mos que n\u00e3o est\u00e1vamos sozinhos na praia. L\u00e1 longe, quase no horizonte, um grupo em que se jogava \u00e0 bola ou se fugia das ondas maiores enquanto tentava n\u00e3o molhar mais que a barriga.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-018.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_018\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPraia no cacimbo<\/p>\n<p>Um deles separou-se do grupo e caminhou pela areia na minha direc\u00e7\u00e3o. Parou para meter conversa. Era Mauritano e chamava-se Abu. Pensou que fosse seu compatriota. Troc\u00e1mos conversa em Portugu\u00eas e Franc\u00eas. Ainda tentou \u00c1rabe, mas fiquei-me pelo <em>Salam aleikum<\/em> e <em>Shokran<\/em>. H\u00e1 cinco anos deixou a Maurit\u00e2nia, com um curso de economia e abriu uma loja de m\u00f3veis no mercado de S\u00e3o Paulo, em Luanda.<\/p>\n<p>Isto de ser verdinegro tem destas coisas. J\u00e1 na Tun\u00edsia me confundiram v\u00e1rias vezes. Especialmente nos dias em que usei turbante nos mercados.<\/p>\n<p>Continuaram o seu jogo de futebol e voltei a contemplar o mar.<\/p>\n<p>Adoro o campo e posso passar anos sem ir \u00e0 praia, mas adoro o mar. O perp\u00e9tuo ritmo das ondas que lavam a terra recorda-me a nossa insignific\u00e2ncia perante o mundo. Lembram-me que sou o culminar de todas as vidas dos meus antepassados que, tal como as ondas, foram mudando lentamente a terra. Eu serei mais uma onda. Farei a minha parte e darei o lugar a outra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-020.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_020\" width=\"600\" height=\"327\" \/><\/p>\n<p>O Sol descia cada vez mais depressa e a praia sossegada come\u00e7ou a ser percorrida por dezenas de pequenos caranguejos. Saiam dos seus buracos e procuravam passar despercebidos. Corriam de um lado para o outro at\u00e9 entrarem noutro buraco.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-019.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_019\" width=\"600\" height=\"370\" \/><\/p>\n<p>Fugiam de n\u00f3s e das ondas, mas n\u00e3o resistiam ao p\u00f4r-do-Sol. Mesmo em tempo de cacimbo, era um espect\u00e1culo de pasmar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-023.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_023\" width=\"600\" height=\"298\" \/><br \/>\nHora de partir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda no tempo do cacimbo, no pino do Inverno tropical, fomos \u00e0 praia. Os angolanos a quem confess\u00e1mos o pecado tiveram a confirma\u00e7\u00e3o das suas suspeitas: somos mesmo estranhos. Como se pode ir \u00e0 praia no Inverno? A \u00e1gua est\u00e1 fria, n\u00e3o se v\u00ea o Sol. Deixaram o ju\u00edzo l\u00e1 no outro hemisf\u00e9rio, s\u00f3 pode. 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