{"id":1606,"date":"2008-12-04T00:00:22","date_gmt":"2008-12-03T23:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1606"},"modified":"2008-12-04T00:00:22","modified_gmt":"2008-12-03T23:00:22","slug":"olhando-o-cu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/olhando-o-cu\/","title":{"rendered":"Olhando o c&eacute;u"},"content":{"rendered":"<p>Lembro-me que, quando era pequeno, costumava maravilhar-me com o c\u00e9u. Era a magia de correr a olhar a Lua e ver que ela estava sempre no mesmo s\u00edtio, a mirar-me.<\/p>\n<p>As noites tinham c\u00e9us escuros, cheios de pintas brancas. Aprendi a reconhecer algumas constela\u00e7\u00f5es. Esqueci-me delas e voltei a ser ensinado.<\/p>\n<p>Depois melhoraram a ilumina\u00e7\u00e3o do bairro. As ruas iluminadas por poucas l\u00e2mpadas fracas passaram a ser t\u00e3o claras como o dia. O c\u00e9u passou a ser uma massa amorfa e alaranjada. As estrelas foram-se e s\u00f3 a Lua persistia em vencer esta nova &#8220;escurid\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que crescia, passava a ter cada vez menos tempo para observar o c\u00e9u. Olhava para o ch\u00e3o, para onde punha os p\u00e9s, para o degrau do comb\u00f3io, para a rampa da escola, para a secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esqueci-me de como era olhar o c\u00e9u. Esqueci-me das vezes em que me levantei de madrugada, s\u00f3 para poder ter o prazer de ver nascer o Sol. Esqueci-me da vez em que vi a Lua cheia esconder-se atr\u00e1s do horizonte, por entre as oliveiras, com o Sol a despontar a Oriente.<\/p>\n<p>Quando sa\u00eda da cidade, j\u00e1 nem me lembrava de olhar para o c\u00e9u. Todas as estrelas que se escondem atr\u00e1s da n\u00e9voa luminosa das cidades me sorriam, mas eu n\u00e3o dava por elas. Uma ou outra vez, por acaso, reparava nelas e ficava abismado. Eram tantas, que n\u00e3o as conseguia contemplar. Um c\u00e9u estrelado no interior causa vertigens.<\/p>\n<p>De vez em quando apercebia-me de que j\u00e1 n\u00e3o sabia o que era olhar o c\u00e9u, tentar perceber os seus mist\u00e9rios ou, simplesmente, deixar-me ser apenas um espectador do maior espect\u00e1culo do mundo.<\/p>\n<p>A rotina atacava outra vez e o c\u00e9u era esquecido. Talvez um pouco como quem deixa de ler. N\u00e3o l\u00ea hoje, amanh\u00e3 tamb\u00e9m n\u00e3o e depois d\u00e1 por si sem ter lido um livro num mont\u00e3o de tempo.<\/p>\n<p>Lutei contra este marasmo celestial. Aprendi a reconhecer outras constela\u00e7\u00f5es, relembrei as lendas que lhes deram o nome. Procurei estrelas conhecidas por todo o lado. Haver\u00e1 algo melhor do que, numa noite de Ver\u00e3o, contar hist\u00f3rias de estrelas, deitados no asfalto quente de uma qualquer estrada secund\u00e1ria?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_033\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-033.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Entardecer<\/p>\n<p>Em Luanda j\u00e1 olhei para o c\u00e9u. Tamb\u00e9m \u00e9 ba\u00e7o. Ou \u00e9 o cacimbo ou as luzes que nunca se apagam. Afastei-me da cidade, mas as constela\u00e7\u00f5es setentrionais ainda s\u00e3o misteriosas. Aos poucos, o c\u00e9u voltou a ficar esquecido.<\/p>\n<p>Mas um dia, voltando da Barra do D&nbsp; ande, olhei, distraidamente, para o c\u00e9u. Algo me prendeu a aten\u00e7\u00e3o. Algo de visceral, que despertou mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia h\u00e1 muito adormecidas. Olhava para o c\u00e9u e para as nuvens que ganhavam as cores quentes do final do dia. Apercebi-me de que estava a jogar o jogo mais antigo de todos, tentar adivinhar a forma que a nuvem sugeria.<\/p>\n<p>Primeiro era apenas uma nuvem, mas depois contorceu-se e esticou-se em direc\u00e7\u00f5es improv\u00e1veis.<\/p>\n<p>Sorri. Tinha adivinhado a m\u00edmica nebulosa!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_034\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/11\/blog-034.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Era um c\u00e3ozinho!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me que, quando era pequeno, costumava maravilhar-me com o c\u00e9u. Era a magia de correr a olhar a Lua e ver que ela estava sempre no mesmo s\u00edtio, a mirar-me. As noites tinham c\u00e9us escuros, cheios de pintas brancas. Aprendi a reconhecer algumas constela\u00e7\u00f5es. Esqueci-me delas e voltei a ser ensinado. 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