{"id":1677,"date":"2008-12-18T00:00:22","date_gmt":"2008-12-17T23:00:22","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1677"},"modified":"2009-08-08T20:42:18","modified_gmt":"2009-08-08T19:42:18","slug":"batendo-o-funge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/batendo-o-funge\/","title":{"rendered":"Batendo o funge"},"content":{"rendered":"<p>A caminho do Dondo, numa pra\u00e7a antes de sair da prov\u00edncia do Bengo, par\u00e1mos para esticar as pernas e comer qualquer coisa.<\/p>\n<p>Eram nove da manh\u00e3 e as mulheres j\u00e1 estavam a preparar o almo\u00e7o. O carv\u00e3o ardia e aquecia panelas de \u00e1gua para o funge. Algumas mulheres raspavam o pelo de peda\u00e7os de bichos variados. Porcos, pacas e veados jaziam aos peda\u00e7os sobre pl\u00e1sticos sujos. Todo o trabalho era feito no ch\u00e3o, ao lado de outras mulheres que varriam o p\u00f3 da sua loja. Cozinha-se na frente da cabana, mais pr\u00f3ximo da estrada, para poder mostrar o prato e melhor controlar a clientela.<\/p>\n<p>Para dentro de alguidares coloridos, cortavam a carne aos pedacinhos e juntavam tempero, enxotando as moscas insistentes. Algures atr\u00e1s das cabanas onde servem os clientes, iam buscar \u00e1gua para cozinhar. Era um l\u00edquido amarelo, que sugere tudo aquilo que os m\u00e9dicos nos dizem que acontece em \u00c1frica&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto umas tratavam da carne de de dosear o concentrado de tomate na panela grande, outras peneiravam a <em>fuba<\/em>, rejeitando a farinha mais grosseira. At\u00e9 aqui as angolanas demonstram uma maior organiza\u00e7\u00e3o que os angolanos, trabalhando em equipa.<\/p>\n<p>Como estava encostado ao carro, aguardando o regresso do meu colega, convidaram-me a sentar numa das cabanas. Aceitei e pude assistir bem mais de perto \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Na cabana ao lado esfolavam uma Paca, uma esp\u00e9cie de roedor grande. Um pouco mais ao lado, uma perna de porco, ainda com o rabo agarrado, era transformada em tiras. \u00c0 minha frente, estava a metade posterior de um bicho desconhecido. Perguntei qual era a ementa. Funge com veado. Ementa fina!<\/p>\n<p>Entretanto, a <em>fuba<\/em> tinha sido toda peneirada e a \u00e1gua do panel\u00e3o que estava nas brasas mostrava uma bolinhas nervosas. Era a hora de bater o funge. Uma das mulheres pousou a panela no ch\u00e3o e sentou-se numa grade de cerveja. Molhou o pau do funge, que parece um remo curto, e segurou a panela entre os p\u00e9s. Meteu duas m\u00e3os-cheias de p\u00f3 branco na panela e come\u00e7ou a mexer devagar. Juntou outras duas e continuou a revolver a farinha, sempre ao mesmo ritmo. \u00c0 medida que a mistura engrossava, fazia mais for\u00e7a, notando-se os m\u00fasculos dos bra\u00e7os e das costas a ficar mais tensos. Mais um pouco de farinha e agarrou no remo curto com determina\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou a bater o funge mais depressa, fazendo as barrigas dos bra\u00e7os abanar. Na verdade, todas as pregas de pele e carne do tronco abanavam. Mesmo de costas, viam-se-lhe as mamas a saltar de um lado para o outro, compassadas. O suor tornou-lhe a pele luzidia. De vez em quando parava, queixando-se das costas. O funge colava cada vez mais. Virou a grade de lado, para mudar de posi\u00e7\u00e3o e voltou a atacar a pasta amarelada da panela. Cerrava os dentes e sustinha a respira\u00e7\u00e3o a cada volta que dava \u00e0 panela. Os bra\u00e7os cada vez mais tensos faziam adivinhar a for\u00e7a que fazia. Depois parou. Usou uma colher para ver a consist\u00eancia do funge e deu-lhe mais uma volta. Limpou o suor da testa com as costas da m\u00e3o, comp\u00f4s a roupa e levantou-se.<\/p>\n<p>Tenho de admitir, a receita do funge \u00e9 b\u00e1sica: <em>fuba<\/em> e \u00e1gua. Aquilo que n\u00e3o me explicam \u00e9 que \u00e9 preciso muita experi\u00eancia e suor para acertar nas propor\u00e7\u00f5es e conseguir uma pasta homog\u00e9nea.<\/p>\n<p>O veado j\u00e1 estava todo na panela, e come\u00e7ava a cheirar bem. Fiquei com pena de n\u00e3o o provar, mas era preciso seguir viagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A caminho do Dondo, numa pra\u00e7a antes de sair da prov\u00edncia do Bengo, par\u00e1mos para esticar as pernas e comer qualquer coisa. Eram nove da manh\u00e3 e as mulheres j\u00e1 estavam a preparar o almo\u00e7o. O carv\u00e3o ardia e aquecia panelas de \u00e1gua para o funge. 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