{"id":168,"date":"2008-06-25T00:00:54","date_gmt":"2008-06-24T23:00:54","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=168"},"modified":"2010-05-25T21:42:06","modified_gmt":"2010-05-25T20:42:06","slug":"cada-vez-sei-menos%e2%80%a6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/cada-vez-sei-menos%e2%80%a6\/","title":{"rendered":"Cada vez sei menos\u2026"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que me vou ambientando a este pa\u00eds t\u00e3o grande e t\u00e3o novo, sinto que \u00e9 dif\u00edcil perceber o qu\u00e3o diferente \u00e9 do s\u00edtio que me viu crescer. Se, quando cheguei, aquilo que me surpreendia eram as semelhan\u00e7as, agora sou confrontado com as diferen\u00e7as gritantes, com as coisas que n\u00e3o fazem sentido aos olhos do ocidental, com as coisas que s\u00f3 se percebem se se tiver crescido aqui. S\u00e3o uma esp\u00e9cie de express\u00f5es idiom\u00e1ticas a que possamos talvez chamar <em>comportamentos idiom\u00e1ticos<\/em>. S\u00e3o imposs\u00edveis de traduzir por palavras, embora se perceba parte do significado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"310\" \/><br \/>\nO Futuro<\/p>\n<p>Angola \u00e9 uma terra simples, mas muito complicada. Simples no aspecto em que se percebe como funcionam as coisas e qual o rumo a seguir, mas complicada porque nada tem um percurso linear. Se queremos ir do Gamek ao Benfica temos de atravessar a <em>vala<\/em>. Para o outro lado s\u00e3o umas centenas de metros, mas o trajecto \u00e9 de v\u00e1rios quil\u00f3metros e varia consoante o carro e o condutor. H\u00e1 ruas que desaparecem de uma semana para a outra porque se construiu uma casa no meio ou as chuvas estragaram o caminho. As compras na rua implicam regateio, embora haja um pre\u00e7o fixo impl\u00edcito. \u00c0 sa\u00edda do supermercado est\u00e1 um seguran\u00e7a que assina o tal\u00e3o de caixa e confere os sacos\u2026<\/p>\n<p>Contrastando com a falta de condi\u00e7\u00f5es em grande parte da cidade, devidas \u00e0 sobre-explora\u00e7\u00e3o ou inexist\u00eancia das infra-estruturas, decorrem obras de grande envergadura um pouco por toda a parte. Algumas com o objectivo de melhorar estradas e servi\u00e7os p\u00fablicos, outras para a cria\u00e7\u00e3o de novas zonas na cidade. Provavelmente j\u00e1 algu\u00e9m se apercebeu que grande parte dos problemas de Luanda se resolvem come\u00e7ando de raiz\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA famosa marginal de Luanda est\u00e1 irreconhec\u00edvel<\/p>\n<p>Nestas minhas deambula\u00e7\u00f5es pelos arredores de Luanda tenho-me cruzado com muitas pessoas. Geralmente mais novas que eu. A esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida em Angola n\u00e3o \u00e9 conhecida por ser das mais altas. Tamb\u00e9m por essa raz\u00e3o, os mais velhos gozam de um estatuto especial. H\u00e1 respeito at\u00e9 no trato. As mulheres passam a ser chamadas de M\u00e3e e os homens de Pai a partir dos cinquenta anos. <em>Mais<\/em>&#8211;<em>Velho<\/em> \u00e9 usado como se fosse um t\u00edtulo. Hoje pude conhecer um casal de <em>Mais-Velhos<\/em>. Ela com 69 anos e ele com 75. Moram numa casa que foi constru\u00edda ainda no tempo do colono, no ano em que a minha m\u00e3e nasceu. \u00c0 volta n\u00e3o havia nada, mas agora surgiu um bairro de renda controlada e uns milhares de barracas na direc\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nFiquei de regressar para entregar uma fotografia ao casal<\/p>\n<p>Aventurei-me tamb\u00e9m na cozinha com ingredientes locais. Comprei duas mandiocas, que cozi e tentei transformar, sem grande sucesso, em pur\u00e9. Juntando esta papa a um refogado e uns pedacinhos de frango fiz uma esp\u00e9cie de coisa vermelha em pasta com um travo a mandioca e tomate. Acompanhado com arroz at\u00e9 parece comida. Foi o meu almo\u00e7o e ainda n\u00e3o morri, mas aprendi uma li\u00e7\u00e3o valiosa: a mandioca cozida \u00e9 muito quente!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEmbondeiros nos arredores de Luanda<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNem sei que diga<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito de Luanda \u00e9 sempre mau, mas h\u00e1 alturas em se transforma num n\u00f3 g\u00f3rdio descomunal. Assisti, num mercado concorrido, a duas filas de candongueiros tentarem ultrapassar os colegas de profiss\u00e3o que paravam \u00e0 direita para largar e recolher passageiros. Estas tr\u00eas viam a sua progress\u00e3o dificultada porque no sentido oposto havia outras tr\u00eas a fazer o mesmo. A rua permitia apenas duas filas de tr\u00e2nsito! Para agravar as coisas, havia cruzamentos e como nunca ningu\u00e9m d\u00e1 uma ab\u00e9bia, a regra \u00e9 furar at\u00e9 que o outro j\u00e1 n\u00e3o consiga avan\u00e7ar sem bater. Foram longos minutos sem sair do mesmo s\u00edtio, sem sequer poder abrir a porta para sair e esticar as pernas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nNa falta de bonecas, uma garrafa<\/p>\n<p>Na maioria dos bairros que tenho visitado, h\u00e1 latrinas p\u00fablicas. Assim evita-se que os dejectos v\u00e3o parar directamente a <em>vala<\/em> no meio do bairro e melhoram-se as condi\u00e7\u00f5es de salubridade. S\u00e3o despejadas periodicamente por cami\u00f5es com bombas. Esses cami\u00f5es, por sua vez, despejam a <em>carga<\/em> no curso de \u00e1gua mais pr\u00f3ximo, \u00e0s vezes a montante do bairro onde foram despejar as latrinas. O sistema existe, mas n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>Na zona oriental de Luanda, vi cami\u00f5es-cisterna a bombear \u00e1gua dos rios para abastecer os tanques dos bairros. Na verdade bombeavam uma \u00e1gua lamacenta, cor de caf\u00e9 com leite. N\u00e3o me custa a crer que estes cami\u00f5es tamb\u00e9m fa\u00e7am o servi\u00e7o de despejo de latrinas\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062508-1906-cadavezseim7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\n\u00c0 espera da \u00e1gua<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 medida que me vou ambientando a este pa\u00eds t\u00e3o grande e t\u00e3o novo, sinto que \u00e9 dif\u00edcil perceber o qu\u00e3o diferente \u00e9 do s\u00edtio que me viu crescer. 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