{"id":1762,"date":"2008-12-30T00:00:30","date_gmt":"2008-12-29T23:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1762"},"modified":"2009-11-15T00:27:18","modified_gmt":"2009-11-14T23:27:18","slug":"angolanitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/angolanitas\/","title":{"rendered":"Angolanitas"},"content":{"rendered":"<p>Estava eu entretido a ler um livro \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore sem nome e sem idade, na pacata cidade do Dondo, quando me comecei a sentir observado.<\/p>\n<p>Olhei em volta, mas consegui apenas ver as zungueiras esperando que um t\u00e1xi parasse no posto de combust\u00edvel para abastecer. Ao contr\u00e1rio das de Luanda, as zungueiras do Dondo n\u00e3o perseguem os clientes. Esperam que cheguem, com vontade de esticar as pernas e alguma fome.<\/p>\n<p>Do outro lado da estrada, o funcion\u00e1rio da bomba estirava-se numa cadeira desconjuntada. Os poucos clientes da tarde e o calor puxavam \u00e0 indol\u00eancia.<\/p>\n<p>No rio, as lavadeiras estavam escondidas pelo talude das margens e os pescadores prestavam aten\u00e7\u00e3o a outras coisas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m olhava para mim, mas a sensa\u00e7\u00e3o de estar a ser mirado de alto abaixo persistia.<\/p>\n<p>Talvez os lagartos que se passeiam nos ramos l\u00e1 em cima&#8230; mas n\u00e3o, hoje n\u00e3o havia lagartos \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Levantei um pouco a cabe\u00e7a e espreitei pelas costas do banco. Dois pares de olhos pequeninos olhavam para os minhas botas, para as minhas cal\u00e7as, para a minha pele branca.<\/p>\n<p>Duas jovens angolanas semi-nuas prestavam aten\u00e7\u00e3o ao que fazia. J\u00e1 me tinham avisado que as angolanas, desde muito cedo, aprendem a n\u00e3o largar os brancos, mas t\u00e3o novas \u00e9 rid\u00edculo!<\/p>\n<p>Olhavam para mim e estavam desejosas de fazer perguntas, mas n\u00e3o sabiam como come\u00e7ar. A mais velha brincava com uma flor e desviava os olhos sempre que lhe falava. A mais nova olhava para um e para outro. Procurava seguran\u00e7a na irm\u00e3 mas n\u00e3o disfar\u00e7ava a curiosidade. N\u00e3o, ainda n\u00e3o ando na escola, mas ela sim, j\u00e1 vai. E j\u00e1 sabes ler? Ainda.<\/p>\n<p>A m\u00e3e ria-se e dizia para ficarem bonitas para a fotografia. O Toninho, primo das duas queria vir tamb\u00e9m ver o branco, mas tinha medo e corria para as saias da m\u00e3e sempre que eu o encarava.<\/p>\n<p>A mais velha l\u00e1 ganhou coragem e perguntou o que fazia a m\u00e1quina amarela do outro lado da estrada. Tentei explicar o melhor que pude o que faz um GPS, mas duvido que tenha percebido. Como se explica isso a quem n\u00e3o conhece mais do que as ruas onde a m\u00e3e vende?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_12_05_01\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-12-05-01.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Djanelle e D\u00e9bora<\/p>\n<p>Despediram-se com um aperto de m\u00e3o e um sorriso. Voltaram para a m\u00e3e, fazendo barulho com as contas coloridas que traziam no cabelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava eu entretido a ler um livro \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore sem nome e sem idade, na pacata cidade do Dondo, quando me comecei a sentir observado. Olhei em volta, mas consegui apenas ver as zungueiras esperando que um t\u00e1xi parasse no posto de combust\u00edvel para abastecer. 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