{"id":1773,"date":"2008-12-31T00:00:34","date_gmt":"2008-12-30T23:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1773"},"modified":"2009-07-17T00:04:47","modified_gmt":"2009-07-16T23:04:47","slug":"a-revolta-dos-embondeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-revolta-dos-embondeiros\/","title":{"rendered":"A revolta dos embondeiros"},"content":{"rendered":"<p>Que os embondeiros s\u00e3o umas \u00e1rvores cheias de personalidade, ningu\u00e9m p\u00f5e em causa. O que n\u00e3o se esperava deles era uma coisa destas.<\/p>\n<p>Reparei nisso no regresso a Luanda, quando eles seguiam em sentido contr\u00e1rio, apressados e com cara de caso.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_revolta_01\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-revolta-01.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Corre-corre<\/p>\n<p>Habitualmente t\u00eam s\u00f3 aquele ar sonhador e paciente. Cruzam-se connosco e quase juramos que nos d\u00e3o uma chapelada \u00e0 antiga, segurando a aba do chap\u00e9u verde de Ver\u00e3o com aqueles dedos longos parecidos com ramos.<\/p>\n<p>Parei e perguntei a um arbusto que passava o que havia com os <em>mais-velhos<\/em> vegetais. N\u00e3o sabia ao certo. Desde manh\u00e3zinha que pareciam inquietos. N\u00e3o paravam de falar, mas n\u00e3o contavam hist\u00f3rias aos mais novos. Era diferente. Quase gritavam, pelo menos a julgar pelo vento que faziam.<\/p>\n<p>Continuei a viagem e fui espreitando os gigantes cinzentos. As suas formas estavam a mudar lentamente, como que sofrendo uma metamorfose. Dos seus ventres brotavam membros novos, de aspecto agressivo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"600\" alt=\"blog_revolta_05\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-revolta-05.jpg\" width=\"400\" border=\"0\"><br \/>Metamorfose<\/p>\n<p>Apesar de arriscado, resolvi barrar o caminho a um. Estava curioso. Onde iria ele com tanta pressa? Tentei meter conversa, mas quase fui mordido e tive de fugir. Nunca pensei que existissem embondeiros carn\u00edvoros!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_revolta_02\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-revolta-02.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Sai-me da frente! Olha que te mordo.<\/p>\n<p>Um outro, que j\u00e1 estava cansado de tanto correr, parou para descansar as ra\u00edzes. Aproveitei para lhe perguntar o que se passava. Pareceu-me menos irado, mas igualmente com cara de caso. A princ\u00edpio tive alguma dificuldade em perceb\u00ea-lo. A linguagem das \u00e1rvores exige muita concentra\u00e7\u00e3o e, com tanto rebuli\u00e7o e o sotaque carregado do embondeiro, a tarefa mostrou-se complicada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_revolta_04\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-revolta-04.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Descansando as ra\u00edzes<\/p>\n<p>Os embondeiros tinham iniciado uma revolta! Estavam fartos da prepot\u00eancia humana. Abatem-se \u00e1rvores por tudo e por nada e j\u00e1 n\u00e3o se escuta os <em>mais-velhos<\/em>. \u00c1frica n\u00e3o pode continuar assim. Plantem-se \u00e1rvores! Os embondeiros dirigiam-se para o interior, onde n\u00e3o havia homens. Fundariam o seu pa\u00eds vegetal.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"blog_revolta_03\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-revolta-03.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Farto do Homem<\/p>\n<p>Mas depois veio um p\u00f4r-do-Sol de estampa, daqueles que nos deixa de boca aberta, e os embondeiros pararam de correr. Todos, eu e eles, fic\u00e1mos a ver o Sol pintar o c\u00e9u de laranja. Foi nessa altura que se aperceberam que o s\u00edtio onde mais querem estar \u00e9 a terra que os viu nascer e abandonaram a ideia da revolta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"399\" alt=\"blog_12_20_01\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/12\/blog-12-20-01.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Mas ainda fizeram estragos <\/p>\n<p>Os mais velhos dos <em>mais-velhos<\/em> fizeram soar a sua voz gasta e contaram hist\u00f3rias acerca de outras tentativas de revolta, l\u00e1 no tempo em que tinham sido novos. Alucina\u00e7\u00f5es da velhice pois, como diz o prov\u00e9rbio, n\u00e3o h\u00e1 embondeiros novos&#8230;<\/p>\n<p>Todos os dias se abatem estes gigantes. Ningu\u00e9m os planta. Um dia acabam-se, sem que se d\u00ea por isso. \u00c1frica inteira, n\u00e3o s\u00f3 Angola, tem de olhar pelas suas florestas.<\/p>\n<p>O que vale \u00e9 que amanh\u00e3 \u00e9 um novo ano e isto passa-me!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que os embondeiros s\u00e3o umas \u00e1rvores cheias de personalidade, ningu\u00e9m p\u00f5e em causa. O que n\u00e3o se esperava deles era uma coisa destas. Reparei nisso no regresso a Luanda, quando eles seguiam em sentido contr\u00e1rio, apressados e com cara de caso. Corre-corre Habitualmente t\u00eam s\u00f3 aquele ar sonhador e paciente. 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