{"id":1819,"date":"2009-01-08T00:00:26","date_gmt":"2009-01-07T23:00:26","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1819"},"modified":"2010-12-07T15:24:05","modified_gmt":"2010-12-07T14:24:05","slug":"frica-adormecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/frica-adormecida\/","title":{"rendered":"\u00c1frica adormecida"},"content":{"rendered":"<p>No regresso a Angola tive a felicidade de viajar de noite. N\u00e3o s\u00f3 a viagem parece muito mais curta, como revela excelentes surpresas.<\/p>\n<p>A partida de Lisboa, numa noite triste de Inverno, fica envolta numa bruma de sono e nuvens. Uns relances da cidade at\u00e9 \u00e0 Avenida de Roma e depois s\u00f3 as luzes de Almada \u00e9 que foram capazes de vencer as nuvens.<\/p>\n<p>A recorda\u00e7\u00e3o da Lua a sorrir-nos enquanto embarc\u00e1vamos ficou em terra. A noite era escura. Olhar pela janela era o mesmo que fechar os olhos&#8230; fechei-os.<\/p>\n<p>Perto de Casablanca, o piloto disse-nos que a cidade se podia avistar \u00e0 esquerda do avi\u00e3o. Mentira! \u00c0 esquerda havia apenas uma parede escura e, no meio do breu, s\u00f3 as luzes na ponta da asa faziam brilhar as nuvens.<\/p>\n<p>Nos intervalos do sono que me consumia, acabei por ver uma cidade iluminada. Algumas avenidas principais e outros tantos bairros perif\u00e9ricos. Era pequena e pareceu-me mais organizada que Luanda. As nuvens esconderam-na. Julgo que fosse a capital do Burkina Faso, Uagadugu.<\/p>\n<p>A dada altura o tecto de nuvens baixou consideravelmente e o c\u00e9u negro cobriu-se de milhares de pequenos pontos luminosos. O espanto de como consegue um avi\u00e3o daquele tamanho voar foi substitu\u00eddo pela sensa\u00e7\u00e3o de esmagamento e insignific\u00e2ncia que os c\u00e9us estrelados trazem.<\/p>\n<p>Tentei reconhecer alguma constela\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da janela. N\u00e3o se via muito c\u00e9u, mas talvez tivesse sorte. Julguei que estava a ver o Escorpi\u00e3o com Antares, o seu cora\u00e7\u00e3o vermelho, ao centro. Fiquei com a ideia de que podia estar a ser enganado pelas estrelas mais t\u00e9nues, que habitualmente n\u00e3o se v\u00eaem. Procurei estrelas mais brilhantes. A um cantinho do meu campo visual encontrei umas quantas estrelas que me pareceram ser a constela\u00e7\u00e3o de G\u00e9meos. A outra constela\u00e7\u00e3o n\u00e3o era o Escorpi\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto observava as estrelas e lutava contra o sono, alguns riscos breves assinalavam os meteoritos que tinham sido promovidos a estrelas cadentes. Nesta \u00e9poca do ano, com a Terra mais pr\u00f3xima do Sol, nem esperava ver nenhum. Em meados de Dezembro h\u00e1 alguns meteoritos que aparentam surgir de G\u00e9meos&#8230; deve ter sido mesmo essa constela\u00e7\u00e3o que vi.<\/p>\n<p>O horizonte para onde se dirigia o avi\u00e3o come\u00e7ou a substituir o breu por um risco anil que foi crescendo em tamanho e intensidade. As estrelas foram-se apagando aos poucos. Um sat\u00e9lite que rodopiava acima de n\u00f3s, de vez em quando reflectia o Sol que j\u00e1 iluminava outras paragens. Um breve relampejo indicava a sua posi\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m ele deixou de brilhar assim que o c\u00e9u come\u00e7ou a ganhar tons avermelhados.<\/p>\n<p>As hospedeiras come\u00e7aram a distribuir toalhetes quentes para que os passageiros encarassem o pequeno-almo\u00e7o de cara lavada. Lentamente, o cheiro de comida quente come\u00e7ou a encher a cabina e a substituir o ressonar pesado que ainda se ouvia aqui e ali.<\/p>\n<p>Abaixo de n\u00f3s, um mar de nuvens onduladas ia ganhando sombras e brilhos \u00e0 medida que o Sol subia. Olhando para elas conseguimos ter a no\u00e7\u00e3o da velocidade assombrosa a que nos deslocamos. De vez em quando, um jacto de ar branco saltava por cima da asa, mostrando o frio no exterior.<\/p>\n<p>O Sol surgiu, finalmente, acima das nuvens. O seu brilho intenso e uma atmosfera muito rarefeita obrigou-me a fechar a janela. Deixei uma pequena fresta aberta pela qual espreitava as nuvens a correr ordeiramente l\u00e1 em baixo.<\/p>\n<p>Come\u00e7\u00e1mos a perder altitude e, aos poucos, mergulh\u00e1mos nas nuvens. Alguns minutos depois est\u00e1vamos sobre a praia de S\u00e3o Tiago e os seus <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1587\" target=\"_blank\">esqueletos<\/a>. Os trav\u00f5es a\u00e9reos faziam o A340 deixar a velocidade de cruzeiro, dando mais tempo para observar Luanda a despertar para mais um dia.<\/p>\n<p>Pista 23, a mais comprida. Aterr\u00e1mos com a suavidade poss\u00edvel. O avi\u00e3o percorre a pista e podemos ver os abrigos de terra e bet\u00e3o onde ficavam os jactos da guerra civil. Sa\u00edmos da atmosfera seca do avi\u00e3o e descemos para o calor h\u00famido de Luanda. Somos levados at\u00e9 \u00e0 sala de controlo de passaportes. O senhor da camisa branca n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 para conferir os boletins de vacinas. Os senhores que controlam os vistos, habitualmente atentos \u00e0 falta desse carimbo, parecem distra\u00eddos e n\u00e3o implicam com ningu\u00e9m por isso. Quarenta minutos depois, tenho o passaporte carimbado. \u00c0 sa\u00edda da sala est\u00e1 uma senhora a controlar outra vez os passaportes. N\u00e3o sei se por desconfian\u00e7a pelo trabalho dos colegas, se por suspeita de que algu\u00e9m consiga passar sem os controlos habituais.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, estou a caminho de casa, cheio de vontade de dormir seguido aquilo que dormi aos intervalos no avi\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o oito da manh\u00e3. Est\u00e3o 26\u00ba. N\u00e3o h\u00e1 luz. Bem-vindo a Luanda!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No regresso a Angola tive a felicidade de viajar de noite. N\u00e3o s\u00f3 a viagem parece muito mais curta, como revela excelentes surpresas. A partida de Lisboa, numa noite triste de Inverno, fica envolta numa bruma de sono e nuvens. 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