{"id":1860,"date":"2009-01-18T00:00:43","date_gmt":"2009-01-17T23:00:43","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1860"},"modified":"2009-07-19T13:18:31","modified_gmt":"2009-07-19T12:18:31","slug":"a-memria-jean-michel-jarre-e-descartes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-memria-jean-michel-jarre-e-descartes\/","title":{"rendered":"A Mem\u00f3ria, Jean Michel Jarre e Descartes &#8211; que grande salganhada!"},"content":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria humana \u00e9 algo de muito complexo. Funciona de maneiras estranhas e imprevis\u00edveis. Lembramo-nos das coisas mais inusitadas e esquecemo-nos das que julg\u00e1vamos importantes. N\u00e3o o deviam ser assim tanto, porque as acabamos por esquecer.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem tenha jeito para decorar datas e n\u00fameros, quer seja por mnem\u00f3nicas que exigem treino, quer seja por aptid\u00e3o natural. Outros decoram milhares de factos, muito provavelmente in\u00fateis.<\/p>\n<p>Fui aben\u00e7oado com uma mem\u00f3ria cheia de personalidade. Que se lembra s\u00f3 do que quer e n\u00e3o do que eu desejo. E muitas vezes dou por mim a agradecer o facto de ser esquecido. \u00c9 certo que por vezes me surpreende e me relembra coisas que j\u00e1 dava por perdidas.<\/p>\n<p>O que despoleta certas mem\u00f3rias s\u00e3o sempre as coisas inesperadas, os est\u00edmulos dos sentidos menos usados conscientemente. Durante todo o dia usamos os olhos para nos enquadramos no mundo, a todo o momento lemos letras e situa\u00e7\u00f5es. Poder-se-ia quase dizer que os olhos est\u00e3o t\u00e3o saturados de informa\u00e7\u00e3o que a filtram de modo a que tenhamos apenas a necess\u00e1ria para funcionar. J\u00e1 o tacto, a audi\u00e7\u00e3o e o olfacto passam despercebidos grande parte do tempo. Ouvimos e sentimos, mas n\u00e3o lhes prestamos aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 determinadas alturas em que um pequeno est\u00edmulo num destes sentidos desprezados desencadeia uma reac\u00e7\u00e3o violenta na mem\u00f3ria que habita c\u00e1 dentro, a tal com vida pr\u00f3pria. Peda\u00e7os da nossa viv\u00eancia s\u00e3o despejados violentamente dentro de n\u00f3s, fazendo-nos, por um momento, perder a no\u00e7\u00e3o da realidade que nos rodeia e viver intensamente aquela explos\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O cheiro dos sabonetes <em>Feno de Portugal<\/em> transporta-me, de imediato, \u00e0 minha inf\u00e2ncia mais rec\u00f4ndita, para a \u00e9poca em que come\u00e7ava a ter consci\u00eancia de mim e do assombroso que era o mundo, das <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1704\" target=\"_blank\">descobertas<\/a> e do deslumbramento com as coisas mais pequenas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/memoria-01.jpg\" border=\"0\" alt=\"Memoria_01\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nA mercearia do Lobito, que me trouxe de volta o Dep\u00f3sito do Sabugal<\/p>\n<p>Em Angola os cheiros s\u00e3o diferentes. S\u00e3o ex\u00f3ticos e desconhecidos. Para j\u00e1, ainda os estou a descobrir, mas tenho a certeza de que daqui a alguns anos serei despertado para um qualquer epis\u00f3dio em <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=592\" target=\"_blank\">\u00c1frica<\/a> gra\u00e7as a um qualquer aroma com que me cruze.<\/p>\n<p>Qual o sabor de uma palavra? N\u00e3o sei bem, mas um paladar traz-nos de volta o sabor de uma determinada palavra sem que o sonhemos. Percebi que as palavras tamb\u00e9m v\u00eam em v\u00e1rios paladares, \u00e0 medida que fui descobrindo o que despertava a mem\u00f3ria. Mesmo quem ainda n\u00e3o se apercebeu disto, d\u00e1 por si a fechar os olhos e a rebuscar na mem\u00f3ria qualquer coisa long\u00ednqua, quando prova algo que lhe \u00e9 familiar de h\u00e1 muito tempo. \u00c9 a tentativa de resumir todo o paladar numa \u00fanica palavra que, provavelmente, n\u00e3o far\u00e1 sentido para mais ningu\u00e9m. E depois, basta pensar nessa palavra para senti-la desfazer-se na boca&#8230;<\/p>\n<p>O mesmo se passa com o tacto. Por vezes basta uma textura na ponta dos dedos para entrarmos naquela fabulosa m\u00e1quina do tempo que \u00e9 a mem\u00f3ria e rever todos os pormenores de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o antiga que j\u00e1 nem parece ter sido vivida por n\u00f3s.<\/p>\n<p>Por vezes dou por mim a pensar se aquilo que somos \u00e9, na verdade, real. Somos moldados pelo que nos rodeia e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, essas situa\u00e7\u00f5es s\u00f3 nos afectam hoje porque nos recordamos delas. E que acontece quando tentamos imaginar se tudo isso n\u00e3o passa de um exerc\u00edcio criativo da nossa mem\u00f3ria? Ser\u00e1 que somos o que julgamos ser? E se todas as nossas mem\u00f3rias forem apenas fantasia? E se tudo n\u00e3o passar de um sonho? Com um pequeno est\u00edmulo recordamos o que j\u00e1 tom\u00e1vamos como definitivamente perdido e que, por isso, pode nunca ter existido. Temos per\u00edodos na nossa vida em que somos incapazes de saber ao certo o que aconteceu, mas a dada altura, recordamos com absoluto rigor um qualquer epis\u00f3dio. Este problema afectou Descartes, que resolveu a quest\u00e3o com a eleg\u00e2ncia de tr\u00eas palavras apenas. Mas a quest\u00e3o persistia em mim e, durante anos, tentei encontrar uma falha no seu racioc\u00ednio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/memoria-02.jpg\" border=\"0\" alt=\"Memoria_02\" width=\"600\" height=\"425\" \/><br \/>\nAinda mal andava quando parti a cabe\u00e7a nesta mesma rua, mas em Portugal<\/p>\n<p>Parti do princ\u00edpio que tudo era um sonho, que dormia sem parar e todo o Mundo que conhecia n\u00e3o passava de uma constru\u00e7\u00e3o minha, tal como os sonhos complicados que por vezes temos. E depois interroguei-me se seria poss\u00edvel sonhar que sonhava. Ou sonhar que sonhava um sonho. Acabei por dar a m\u00e3o \u00e0 palmat\u00f3ria e assumir que, de duas, a explica\u00e7\u00e3o mais simples para o mesmo facto \u00e9, habitualmente, a verdadeira. Sem est\u00edmulos do mundo que nos rodeia ser\u00edamos incapazes de sonhar, por falta de mat\u00e9ria de sustento do sonho. <em>Penso, logo existo<\/em> parece-me uma explica\u00e7\u00e3o mais que satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>No entanto, isto levou-me a outro problema. Ser\u00e1 que o tempo existe? A nossa sensa\u00e7\u00e3o de tempo deve-se \u00e0 capacidade que temos de recordar o que j\u00e1 foi e de prever o que ser\u00e1 com base na nossa mem\u00f3ria. Mas isto pressup\u00f5e que a mem\u00f3ria seja verdadeira. N\u00e3o sou o mesmo de h\u00e1 instantes, nem serei quem sou daqui a pouco. Talvez me recorde de como fui, mas isso \u00e9 mais uma experi\u00eancia que me molda. Na verdade, o tempo n\u00e3o passa de uma ilus\u00e3o porque s\u00f3 posso ter a certeza do Presente. Ser\u00e1 que tudo aquilo que aprendemos n\u00e3o o sab\u00edamos j\u00e1, mas estava \u00e0 espera de ser relembrado? Talvez por isso sejamos incapazes de idealizar <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1047\" target=\"_blank\">per\u00edodos de tempo<\/a> muito superiores \u00e0 dura\u00e7\u00e3o da nossa vida ou at\u00e9 mesmo isso explique porque nos parece o tempo acelerar \u00e0 medida que envelhecemos. Cinco minutos de crian\u00e7a podem ser uma tarde inteira, na idade em que o tempo se mede em peda\u00e7os determinados pelos bra\u00e7os abertos ou por dois indicadores esticados \u00e0 frente da cara. Mas o curioso \u00e9 que na altura, n\u00e3o parecia ter sido uma tarde inteira. Seria porque a no\u00e7\u00e3o de tempo das crian\u00e7as est\u00e1 associada \u00e0 quantidade de mem\u00f3rias? Ali\u00e1s, as tardes n\u00e3o tinham fim e os anos demoravam um ano inteiro a passar. Agora demoram s\u00f3 doze meses.<\/p>\n<p>Tenho a certeza de que a minha m\u00e3e tamb\u00e9m se recorda dos peda\u00e7os de tempo medidos entre os dedos. Partilhamos mem\u00f3rias em tempos diferentes. E aqui reside mais uma falha na minha teoria de que tudo n\u00e3o passa de um sonho. Ser\u00e1 poss\u00edvel sonhar as mem\u00f3rias de outros?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se envelheci de repente, mas o tempo em Angola passa muito mais depressa do que em Portugal. Estes primeiros meses voaram.<\/p>\n<p>E o que me levou a escrever tudo isto? O panorama radiof\u00f3nico angolano n\u00e3o nos surpreende s\u00f3 com o seu programa semanal sobre os <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1207\" target=\"_blank\">Beatles<\/a>. \u00c9 Domingo e os seguran\u00e7as est\u00e3o a ouvir o programa desportivo da r\u00e1dio nacional. A m\u00fasica de fundo \u00e9 Jean Michel Jarre (<em>Equinoxe V<\/em>)&#8230; j\u00e1 s\u00f3 me faltava falar das mem\u00f3rias despertadas pela audi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era? Fui transportado para os primeiros anos de escola, quando era frequente ouvir Jean Michel Jarre na r\u00e1dio. Lembrei-me do <em>vai-e-vem<\/em> <em>Challenger<\/em> que explodiu ap\u00f3s descolar e da m\u00fasica que foi dedicada aos que l\u00e1 morreram (<em>Rendez-vouz IV<\/em>).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-002.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_002\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nSer\u00e1 um sonho, esta brisa que recordo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria humana \u00e9 algo de muito complexo. Funciona de maneiras estranhas e imprevis\u00edveis. Lembramo-nos das coisas mais inusitadas e esquecemo-nos das que julg\u00e1vamos importantes. 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