{"id":187,"date":"2008-06-27T19:35:08","date_gmt":"2008-06-27T18:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=187"},"modified":"2009-07-17T00:14:25","modified_gmt":"2009-07-16T23:14:25","slug":"embondeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/embondeiros\/","title":{"rendered":"Embondeiros"},"content":{"rendered":"<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds pequeno, mas n\u00e3o tem paisagens mon\u00f3tonas porque \u00e9 muito variado. Perto das montanhas h\u00e1 plan\u00edcies, junto de vales encantadores e do mar. O horizonte raramente pode ser descrito como uma linha suave. H\u00e1 sempre um relevo que nos recorda que \u00e9 tudo j\u00e1 ali.<\/p>\n<p>As dist\u00e2ncias em \u00c1frica t\u00eam uma escala \u00e0 qual n\u00e3o estamos habituados. Uma plan\u00edcie \u00e9 algo de inimagin\u00e1vel, que se estende a toda a volta at\u00e9 ao horizonte e ainda mais para l\u00e1. A erva seca e as \u00e1rvores despidas transmitem uma sensa\u00e7\u00e3o de que a vida n\u00e3o foi capaz de encher tanto espa\u00e7o de uma vez s\u00f3 e faz-nos sentir pequeninos\u2026<\/p>\n<p>A imensid\u00e3o das paisagens angolanas, das suas plan\u00edcies a perder de vista, \u00e9 compensada pela majestosidade das \u00e1rvores que a salpicam. O embondeiro \u00e9 o verdadeiro s\u00edmbolo de Angola. A sua silhueta em forma de garrafa com uma copa quase despida destaca-se da paisagem e s\u00e3o verdadeiros marcos. Come\u00e7am por ser umas \u00e1rvores esguias e v\u00e3o engordando com o passar dos s\u00e9culos. Os ramos finos e quase sem folhas parecem uma cabeleira. No final do Ver\u00e3o t\u00eam as <em>m\u00facuas<\/em> penduradas, o fruto do embondeiro. Parecem brincos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros1.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nInverno<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o serem \u00e1rvores muito altas, alguns atingem propor\u00e7\u00f5es colossais, do tamanho de casas. Infelizmente, tal como em Portugal, em Luanda as \u00e1rvores s\u00e3o abatidas apenas por duas raz\u00f5es. Por tudo e por nada. Nem os embondeiros escapam. Mesmo as \u00e1rvores centen\u00e1rias s\u00e3o vandalizadas, queimadas e abatidas a machado, moto-serra ou explosivos. Como s\u00e3o muito grandes, h\u00e1 muitos embondeiros em que o trabalho foi deixado a meio. Acabam por morrer mutilados alguns anos depois. Uma vez abatidos, s\u00e3o demasiado grandes para serem aproveitados para madeira ou lenha e ficam onde ca\u00edram, a apodrecer. Passam a ocupar mais espa\u00e7o deitados do que alguma vez ocupariam de p\u00e9.<\/p>\n<p>Na maior parte dos locais, a sua impon\u00eancia vai-se perdendo \u00e0 medida que ficam rodeados de casas e de lixo. Apenas nos s\u00edtios onde n\u00e3o se pode mesmo construir \u00e9 que n\u00e3o se abatem embondeiros. Estes s\u00edtios resumem-se aos leitos de cheia dos rios. Nestas v\u00e1rzeas surgem uns bosques que disfar\u00e7am o lixo e a mis\u00e9ria, como me apercebi nas primeiras visitas aos musseques. A sua disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 volta da \u00e1gua, o seu tamanho e a cor acinzentada fazem lembrar uma manada de elefantes \u00e0 beira-rio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros2.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nA Manada \u00e0 beira-rio<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros3.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nE agora espera-se que apodre\u00e7a<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros4.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nResistente<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros5.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nMais valia pintar uma casa<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros6.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nGarraf\u00e3o de tinto<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros7.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nImponente<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros8.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nEmbondeiro a prazo<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062708-1909-embondeiros9.jpg\" alt=\"\" \/><br \/>\nElefantes na savana<\/p>\n<p>A luta pela sobreviv\u00eancia embrutece as pessoas. Quem trabalha de Sol a Sol n\u00e3o consegue apreciar a beleza do p\u00f4r-do-Sol na ba\u00eda de Luanda, porque esse \u00e9 apenas o instante que marca o fim da jorna e antecipa um magro jantar. Quando se passa fome \u00e9 imposs\u00edvel olhar para uma \u00e1rvore e ver mais do que uma \u00e1rvore &#8211; uma fonte de lenha, comida ou de materiais de constru\u00e7\u00e3o. Um embondeiro \u00e9 muito mais do que isso, \u00e9 uma entidade com uma presen\u00e7a pr\u00f3pria, que se sente quando se lhe toca na casca rugosa do tronco, que se intui ao ver a sua sombra engolir a nossa. Cada copa revela uma personalidade diferente. Descobri embondeiros col\u00e9ricos a discutir com outros bem mais pacientes. Vi embondeiros deslumbrados com o mundo, vivendo num perp\u00e9tuo espanto. Outros tinham um ar sonhador e infantil. Muitos estavam apenas cansados. N\u00e3o sei se cansados de viver, ou da vida que v\u00eaem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds pequeno, mas n\u00e3o tem paisagens mon\u00f3tonas porque \u00e9 muito variado. Perto das montanhas h\u00e1 plan\u00edcies, junto de vales encantadores e do mar. O horizonte raramente pode ser descrito como uma linha suave. H\u00e1 sempre um relevo que nos recorda que \u00e9 tudo j\u00e1 ali. 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