{"id":1882,"date":"2009-01-20T00:00:19","date_gmt":"2009-01-19T23:00:19","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1882"},"modified":"2009-09-05T23:33:15","modified_gmt":"2009-09-05T22:33:15","slug":"no-mercado-do-dondo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/no-mercado-do-dondo\/","title":{"rendered":"No mercado do Dondo"},"content":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio de muitos dos expatriados em Angola, que est\u00e3o limitados a viver no centro econ\u00f3mico do pa\u00eds, sem poder escapar \u00e0 confus\u00e3o de Luanda com facilidade, tenho podido dar umas voltinhas interessantes por esta terra. Com todo o poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico concentrado na capital, Angola \u00e9 Luanda e o resto \u00e9 prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Luanda, com toda a sua confus\u00e3o, n\u00e3o deixa boa imagem de Angola. \u00c9 por isso que aproveito todas as oportunidades para escapar da balb\u00fardia.<\/p>\n<p>As viagens at\u00e9 ao Dondo, apesar de fisicamente extenuantes, deixam repousar a alma, relaxar um pouco o sexto-sentido que nos faz ir olhando sobre o ombro por um eventual lar\u00e1pio.<\/p>\n<p>As pessoas que moram fora da vista da poeira da capital, s\u00e3o diferentes. Mais abertas e de sorriso f\u00e1cil.<\/p>\n<p>As cerca de tr\u00eas horas de estrada at\u00e9 ao Dondo correm bem. A estrada est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es e a dist\u00e2ncia percorrida at\u00e9 parece mais curta. No entanto, gra\u00e7as ao h\u00e1bito aborrecido que os carros angolanos t\u00eam de avariar a cada momento e \u00e0 cren\u00e7a inabal\u00e1vel nas <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1319\" target=\"_blank\">coisas de pr\u00e9-sinaliza\u00e7\u00e3o<\/a>, o perigo espreita no final de cada curva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_011\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-011.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>A estrada \u00e9 boa, mas esconde algumas surpresas<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as matas que ladeiam a estrada, de aspecto inofensivo, por vezes nos deixam apreensivos. Uns paus pintados espetados aqui e ali relembram sempre o muro invis\u00edvel que foi sendo constru\u00eddo ao <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=444\" target=\"_blank\">longo de d\u00e9cadas<\/a>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_005\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-005.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>A triste realidade dos campos minados<\/p>\n<p>Mas chegamos ao Dondo sem sobressaltos e com apenas alguns saltos num ou noutro tro\u00e7o de estrada mais esburacado.<\/p>\n<p>A cidade do Dondo est\u00e1 entalada entre dois centros. De um lado tem o Kwanza, com a sua marginal. Aqui se acotovelam as lavadeiras, numa esp\u00e9cie de mercado bolsista de sab\u00e3o, cuecas e camisas. As crian\u00e7as passam o dia a brincar \u00e0 beira-rio, correndo e mergulhando. Os mais afortunados surripiam uma c\u00e2mara de ar e passam a ser os reis da festa, comandantes do seu paquete de borracha e ar. Todos os outros disputam o direito de navegar em t\u00e3o exclusivo navio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_001\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-001.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Destino: Rio Kwanza, para muita brincadeira<\/p>\n<p>Do outro lado da cidade, logo a seguir ao quartel de bombeiros, crescem as cubatas e casas tradicionais. T\u00eam um ar mais salubre que as dos musseques de Luanda e, acima de tudo, est\u00e3o mais afastadas umas das outras. Junto a estas, desenvolve-se um mercado cheio de vida, onde se vende tudo, excepto <em><a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1885\" target=\"_blank\">mexericos<\/a><\/em>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_002\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-002.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Minguito e a sua loja de panos<\/p>\n<p>A um canto temos as lojas de mob\u00edlias, que fazem camas e c\u00f3modas com restos de caixotes e peda\u00e7os sortidos de \u00e1rvores. Torneadas \u00e0 m\u00e3o e com um desenho muito pr\u00f3prio, quase nos tentam a comprar. Mas a dificuldade de transporte faz-nos logo mudar de ideias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_003\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-003.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Aqui tamb\u00e9m h\u00e1 artistas pintores<\/p>\n<p>Quase no centro do mercado, agrupam-se os restaurantes. As ementas s\u00e3o variadas quanto toca ao acompanhamento do funge. H\u00e1 funge com tudo ou tudo com funge, ainda n\u00e3o percebi bem. A um canto funge de javali, a outro funge de vaca e, se tivermos sorte, vemos uma mulher a virar na grelha um roedor grande, de dentes salientes. Servir\u00e1 para o funge de Paca&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m vendedoras de milho e banana-p\u00e3o assados. O cheiro do mercado abre o apetite. Mas, curiosamente, tal como reparei quando cheguei a Angola, os cheiros s\u00e3o menos intensos. A uns metros das cozinhas j\u00e1 n\u00e3o conseguimos distinguir o aroma da comida do cheiro do p\u00f3 do ch\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_004\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-004.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Fazendo roupa por medida<\/p>\n<p>O mercado est\u00e1 organizado segundo zonas. Os vendedores das mesmas mercadorias aglomeram-se uns perto dos outros. E, a dada altura, damos por n\u00f3s a ser embalados por um som familiar, daqueles que vem l\u00e1 dos confins da mem\u00f3ria. Um tchuc-tchuc que s\u00f3 quer significar uma coisa, m\u00e1quinas de costura.<\/p>\n<p>Mestres e aprendizes, velhos uns e muito novos outros, d\u00e3o ao pedal enquanto fazem sair camisas e cal\u00e7as de panos coloridos. T\u00eam m\u00e1quinas antigas, de marca <em>Singer<\/em> ou <em>Oliva<\/em>, mas tamb\u00e9m j\u00e1 h\u00e1 algumas recentes, com nomes escritos em caracteres chineses.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_006\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-006.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>No centro do Dondo ainda encontramos sinais de outros tempos<\/p>\n<p>Como as crian\u00e7as do Dondo n\u00e3o cabem todas no rio, algumas t\u00eam de brincar noutros s\u00edtios. N\u00e3o sei se tiram \u00e0 sorte, se t\u00eam um esquema rotativo ou se lhes foi atribu\u00eddo o local de brincadeira \u00e0 nascen\u00e7a, o certo \u00e9 que os do mercado n\u00e3o invejam os do rio e vice-versa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_009\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-009.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Barbas acabadinhas de pintar<\/p>\n<p>As brincadeiras no mercado s\u00e3o menos espalhafatosas, mas n\u00e3o menos divertidas. No dia em que l\u00e1 fui, os mi\u00fados pintavam barbas e bigodes com graxa uns aos outros. O H\u00e9lder chegou mesmo a pintar o cabelo e ficou a parecer uma gravura eg\u00edpcia, com umas patilhas muito certinhas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_010\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-010.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Mi\u00fado feliz<\/p>\n<p>A alegria de se verem e reconhecerem na fotografia quase suplantou a alegria de ver aparecer uma bola. Num instante estavam \u00e0 minha volta e no seguinte corriam e gritavam enquanto tentavam chutar a bola para uma baliza que, suponho, imaginavam entre os alguidares e o sapateiro do mercado.<\/p>\n<p>Vi-me sozinho e regressei ao centro da cidade. Encontrei o Gelson, que se atarefava a regular a sua cria\u00e7\u00e3o, umas andas feitas com latas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Dondo_007\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-007.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Afinando as m\u00e1quinas<\/p>\n<p>Perguntei-lhe para que serviam as latas que tinha nos p\u00e9s. Riu-se muito. Eu n\u00e3o percebia o \u00f3bvio. Servem para andar, \u00f3 tonto! Depois p\u00f4s-se de p\u00e9 e mostrou-me. Deu uns passos para a frente e para tr\u00e1s, puxando com for\u00e7a os peda\u00e7os de pl\u00e1stico amarrados \u00e0s latas.<\/p>\n<p>Disse-me que se chamavam <em>Up\u00e9<\/em> e depois foi-se embora a rir, t\u00e3o depressa quanto as latas o permitiam.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"600\" alt=\"Dondo_008\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/dondo-008.jpg\" width=\"400\" border=\"0\"><br \/>Gelson e os seus <em>Up\u00e9<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel, como uma pequena terra, quase \u00e0s portas de Luanda, consegue ser t\u00e3o natural. Aqui sentimo-nos bem!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao contr\u00e1rio de muitos dos expatriados em Angola, que est\u00e3o limitados a viver no centro econ\u00f3mico do pa\u00eds, sem poder escapar \u00e0 confus\u00e3o de Luanda com facilidade, tenho podido dar umas voltinhas interessantes por esta terra. Com todo o poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico concentrado na capital, Angola \u00e9 Luanda e o resto \u00e9 prov\u00edncia. 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