{"id":190,"date":"2008-06-28T09:44:50","date_gmt":"2008-06-28T08:44:50","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=190"},"modified":"2009-12-01T13:36:59","modified_gmt":"2009-12-01T12:36:59","slug":"duas-semanas-em-luanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/duas-semanas-em-luanda\/","title":{"rendered":"Duas semanas em Luanda"},"content":{"rendered":"<p>Faz hoje duas semanas que cheguei a Angola. O tempo j\u00e1 voltou \u00e0 sua velocidade normal e os fins-de-semana sucedem-se com apenas cinco dias pelo meio. A primeira custou muito a passar. Agora j\u00e1 me sinto mais \u00e0 vontade para fazer um balan\u00e7o. J\u00e1 bebi o suficiente de Luanda para saber o que me espera nos pr\u00f3ximos dois anos.<\/p>\n<p>Tenho chegado a casa com a boca a saber a p\u00f3. Por enquanto ainda estranho, mas h\u00e1-de ser normal, porque em Luanda h\u00e1 p\u00f3. P\u00f3 branco, p\u00f3 vermelho e p\u00f3 castanho. Muito. Chega a todo o lado e deixa tudo coberto com uma camada fina de <em>\u00c1frica<\/em>. As fachadas s\u00e3o cor de p\u00f3, as ruas s\u00e3o cor de p\u00f3 (quando n\u00e3o s\u00e3o feitas s\u00f3 de p\u00f3) e os carros ficam cor de p\u00f3. Mas \u00e9 o pr\u00f3prio p\u00f3 que d\u00e1 sustento a muita gente. H\u00e1 uma verdadeira ind\u00fastria de lavadores de autom\u00f3veis, desde os mais modestos que cobram 50 ou 100 Kz para lavar o carro com a \u00e1gua que escorre da rua, at\u00e9 aos que compraram um gerador, uma bomba para tirar \u00e1gua do rio e uma m\u00e1quina de alta press\u00e3o e montaram uma lavagem profissional (para os padr\u00f5es africanos), que pode custar 300 Kz. Em qualquer vau dos rios e <em>valas<\/em> de Luanda h\u00e1 carros a ser lavados. At\u00e9 os carros da pol\u00edcia s\u00e3o lavados neste mercado informal.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062808-0944-duassemanas1.jpg\" alt=\"\" width=\"682\" height=\"235\" \/><br \/>\nAuto-estrada<\/p>\n<p>A imagem que guardo de Luanda n\u00e3o \u00e9 a da cidade colonial. Essa existe, mas foi absorvida por uma cultura diferente, com necessidades diversas das ocidentais. Os edif\u00edcios est\u00e3o l\u00e1 e os monumentos politicamente correctos tamb\u00e9m, assim como alguma topon\u00edmia antiga, mas a cidade \u00e9 outra. A viv\u00eancia da cidade \u00e9 outra. Alguns h\u00e1bitos subsistem, como as \u00e1rvores com os troncos caiados.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma terra de contrastes, onde todos os sentidos s\u00e3o estimulados, com a excep\u00e7\u00e3o do olfacto. De facto, a temperatura constante e a elevada humidade disfar\u00e7am bem os odores. Se Luanda tivesse o clima de Lisboa aposto que fedia que nem um bode velho. Que melhor contraste poderia encontrar sen\u00e3o o de um monte de lixo que n\u00e3o cheira? At\u00e9 mesmo o colorido do lixo contrasta com o aspecto ba\u00e7o que o p\u00f3 d\u00e1 \u00e0s coisas e a az\u00e1fama das pessoas contrasta com a quantidade de coisas que nunca mais est\u00e3o acabadas.<\/p>\n<p>Os musseques s\u00e3o Luanda. Sem eles, a cidade j\u00e1 tinha morrido. \u00c9 l\u00e1 que vive o motor econ\u00f3mico de Angola, pago com muito trabalho e pouqu\u00edssimo dinheiro.<\/p>\n<p>Diz-se que h\u00e1 por c\u00e1 um mercado paralelo que mant\u00e9m a cidade abastecida. Eu j\u00e1 encontrei dois mercados paralelos a funcionar. Um, que alimenta a cidade \u00e0 margem dos canais oficiais e outro, mais discreto, que faz funcionar os musseques. S\u00e3o as pequenas ind\u00fastrias que produzem carrinhos para os entregadores, que fazem tanques de lavar roupa, que transformam peda\u00e7os de sucata em pequenos carros para a \u00e1gua.<\/p>\n<p>O mercado de valores angolano tamb\u00e9m passa pelas ruas de Luanda. Os <em>kinguilas<\/em> s\u00e3o o equivalente do mercado de rua \u00e0 casa de c\u00e2mbios. Trocam d\u00f3lares americanos por kwanzas. A moeda nacional j\u00e1 est\u00e1 est\u00e1vel e n\u00e3o h\u00e1 uma verdadeira necessidade de usar d\u00f3lares para nada, mas a sensa\u00e7\u00e3o que todos t\u00eam \u00e9 que os kwanzas s\u00e3o mais <em>l\u00edquidos<\/em>, que escorrem mais depressa das m\u00e3os. Usam-se as notas de 50 e 100 d\u00f3lares como poupan\u00e7a tempor\u00e1ria. \u00c9 dinheiro que est\u00e1 de parte e que n\u00e3o se pode usar porque n\u00e3o h\u00e1 troco que chegue. Faz-se o c\u00e2mbio \u00e0 medida das necessidades. O valor dos produtos mais caros \u00e9 marcado em kwanzas, embora se pague em d\u00f3lares (oficiosamente, claro). O c\u00e2mbio oficial anda perto dos 74 kwanzas por d\u00f3lar, mas dependendo da quantidade de kwanzas que as casas de c\u00e2mbio (ou os <em>kinguilas<\/em>) t\u00eam nas m\u00e3os, pode-se fazer neg\u00f3cio at\u00e9 78 kwanzas.<\/p>\n<p>Li, no Jornal de Angola, que perto da Tourada (a tal pra\u00e7a de touros inacabada que se tornou um condom\u00ednio fechado) tinham morto um <em>kinguila<\/em> a tiro para o assaltarem. Dois sujeitos de mota aproximaram-se do senhor, deram-lhe quatro tiros nas costas e fugiram com cerca de 800 d\u00f3lares. Um pouco mais \u00e0 frente foram interceptados por populares e um deles foi espancado at\u00e9 \u00e0 morte. O outro escapou com vida porque chegou a pol\u00edcia. Os africanos n\u00e3o toleram roubos (excepto quando \u00e9 aos brancos) e o fim do ladr\u00e3o \u00e9 quase sempre uma morte cruel. A not\u00edcia era omissa quanto ao destino dos 800 d\u00f3lares roubados\u2026<\/p>\n<p>Em cada rua h\u00e1 duas ou tr\u00eas oficinas de mec\u00e2nica, bate-chapas e serralharias, cada uma com a sua m\u00e1quina de soldar. H\u00e1 milhares de m\u00e1quinas de soldar em Luanda. Provavelmente haver\u00e1 dois pares de \u00f3culos de soldador. Quase de certeza partidos.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o comum em Luanda s\u00e3o uns carros de m\u00e3o feitos em madeira e com um pneu de autom\u00f3vel. Os rapazes que os usam s\u00e3o um meio fi\u00e1vel de entregar mercadorias em qualquer ponto da cidade a tempo e horas. \u00c0 porta das lojas que vendem materiais mais pesados encontra-se sempre meia-d\u00fazia de entregadores. Em cinco ou seis horas atravessam Luanda de uma ponta \u00e0 outra com at\u00e9 trezentos quilos de cimento, blocos, \u00e1gua e tudo o que possa ser transportado a granel. Como a concorr\u00eancia \u00e9 muita, as tarifas s\u00e3o baix\u00edssimas\u2026<\/p>\n<p>A primeira coisa em que se repara quando de chega a Luanda \u00e9 no seu tr\u00e2nsito ca\u00f3tico, bem ao estilo africano. Depois apercebemo-nos de que quase todos os carros que circulam s\u00e3o t\u00e1xis azuis e brancos. Os candongueiros fazem parte da paisagem e cometem os maiores atentados automobil\u00edsticos para chegar mais depressa que os concorrentes ao seu destino. T\u00eam uma equipa de duas ou tr\u00eas pessoas. O condutor, o cobrador e o mec\u00e2nico, que \u00e9 opcional. O condutor ocupa-se de fazer passar a Toyota Hiace por todo o lado e de furar as filas. T\u00eam uma condu\u00e7\u00e3o muito agressiva e um sexto sentido que lhes permite adivinhar o \u00e2ngulo de capotamento das carrinhas consoante o n\u00famero de passageiros. Onde s\u00f3 vemos um talude perigoso, um candongueiro v\u00ea uma alternativa r\u00e1pida para contornar a fila de carros parados. O cobrador trata da porta de correr lateral. Perto das paragens, que s\u00e3o em qualquer lado, abre a porta e grita o destino &#8220;<em>\u00e9roporto&#8217;roporto<\/em>&#8221; (\u00e9 o destino mais popular, por ter muitos mercados \u00e0 volta). \u00c0 sa\u00edda dos passageiros, recebe o dinheiro, que habitualmente ronda os 100 Kz. Se houver lugares vagos, anda sentado \u00e0 janela da porta de correr, mas se a carrinha estiver cheia, espeta o rabo pela janela e vai de p\u00e9. Caso seja necess\u00e1rio, o mec\u00e2nico circula \u00e0 frente, no lugar do pendura. E h\u00e1 muitos candongueiros a precisar\u2026<\/p>\n<p>Apesar de cometerem todas as infrac\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e imagin\u00e1veis ao c\u00f3digo de estrada, que fariam os taxistas portugueses parecer meninos de coro, a pol\u00edcia faz vista grossa. Grande parte das frotas \u00e9 propriedade de pol\u00edcias. A \u00fanica norma que fazem respeitar \u00e9 a da lota\u00e7\u00e3o das carrinhas. Novamente porque grande parte das frotas \u00e9 de pol\u00edcias e n\u00e3o se quer concorr\u00eancia desleal.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns anos houve uma tentativa de regulamenta\u00e7\u00e3o do sector. Os candongueiros recusaram, porque implicaria pagar impostos e manter as frotas em bom estado (custos, portanto). Fizeram greve. Luanda parou. O governo recuou.<\/p>\n<p>\u00c9 seguro dizer que em Luanda h\u00e1 uma extraordin\u00e1ria densidade de carros japoneses. A maioria s\u00e3o Toyota. S\u00e3o robustos, fi\u00e1veis e baratos. A maioria \u00e9 trazida para c\u00e1 atrav\u00e9s de uma meia-d\u00fazia de eg\u00edpcios que compram carros em fim de vida na Europa e os trazem para \u00c1frica. S\u00e3o comprados quase a peso por serem antigos, transportados em cargueiros baratos e vendidos caros. Um Toyota Starlet com 15 anos \u00e9 comprado em Angola por cerca de 5500 d\u00f3lares. \u00c9 vendido na Europa por menos de 1000\u2026<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 as crian\u00e7as. Milh\u00f5es de crian\u00e7as. Grande parte anda s\u00f3 de cuecas\u2026<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/06\/062808-0944-duassemanas2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz hoje duas semanas que cheguei a Angola. O tempo j\u00e1 voltou \u00e0 sua velocidade normal e os fins-de-semana sucedem-se com apenas cinco dias pelo meio. A primeira custou muito a passar. Agora j\u00e1 me sinto mais \u00e0 vontade para fazer um balan\u00e7o. 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