{"id":1905,"date":"2009-01-21T00:00:41","date_gmt":"2009-01-20T23:00:41","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1905"},"modified":"2009-07-19T13:29:22","modified_gmt":"2009-07-19T12:29:22","slug":"insnia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/insnia\/","title":{"rendered":"Ins\u00f3nia"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias, ou melhor, noites, em que o sono n\u00e3o chega de maneira nenhuma. O cansa\u00e7o do dia longo obriga-nos a arrastar o corpo para a cama, antevendo uma noite descansada. O corpo pede repouso. A cabe\u00e7a pede tr\u00e9guas e os sonhos imploram para sair e brincar um pouco. Mas deitamo-nos e&#8230; nada. Os olhos n\u00e3o se fecham por si. Os sonhos n\u00e3o saem. Mudamos de posi\u00e7\u00e3o, viramos a almofada ao contr\u00e1rio, co\u00e7amos a cabe\u00e7a, esfregamos as pernas nos len\u00e7\u00f3is e&#8230; nada.<\/p>\n<p>Desfiamos milhares de carneiros lanudos, em rebanhos que fariam inveja a muito latifundi\u00e1rio do ramo, mas o sono, esse, esconde-se algures. N\u00e3o no meio dos carneiros, obviamente.<\/p>\n<p>Tentamos um \u00faltimo recurso, a posi\u00e7\u00e3o fetal e, respirando profunda e compassadamente, pensamos em esvaziar a mente. \u00c9 rem\u00e9dio santo. Mas n\u00e3o hoje. Quando o nosso pensamento se resume a um pequeno ponto negro, baixamos a guarda e v\u00eamo-lo crescer e a fugir em todas as direc\u00e7\u00f5es. Preocupa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia, recorda\u00e7\u00f5es e planos de futuro misturam-se numa forma indom\u00e1vel de cor indistinta.<\/p>\n<p>Deitamo-nos de barriga, com os bra\u00e7os cruzados \u00e0 fara\u00f3, julgando conseguir conter a ins\u00f3nia no espa\u00e7o que se forma debaixo do peito, para que ela sossegue e desapare\u00e7a, mas ela escorrega e foge. Da\u00ed a pouco j\u00e1 nos fez desistir e voltar os olhos para o tecto. A almofada d\u00e1 mais uma volta ou vai parar ao meio do ch\u00e3o, n\u00e3o importa nem adianta.<\/p>\n<p>Os olhos ficam pesados e o corpo come\u00e7a a reclamar. \u00c9 hora de dormir! Mas n\u00e3o conseguimos. N\u00e3o hoje.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora s\u00f3 se consegue distinguir o ressonar leve dos seguran\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 tr\u00e2nsito nem alarmes a disparar. Uma noite demasiado silenciosa para Luanda, talvez seja isso. N\u00e3o, passam duas motas barulhentas que acordam os seguran\u00e7as. Mas n\u00e3o me fazem adormecer.<\/p>\n<p>Um dos candeeiros l\u00e1 de fora apaga-se, como que me dizendo que eu devia fazer o mesmo. S\u00f3 me provoca curiosidade acerca do motivo da s\u00fabita escurid\u00e3o. E os padr\u00f5es de luz e sombra na rede mosquiteira, que j\u00e1 tive oportunidade de decorar nas \u00faltimas horas, alteram-se profundamente. Repito o exerc\u00edcio e procuro nas manchas escuras algum carneiro que tenha ficado esquecido.<\/p>\n<p>Quatro da manh\u00e3. Desisto de tentar adormecer. Aplicando a t\u00e9cnica da chaleira, declaro que me recuso a adormecer e que n\u00e3o preciso do sono para nada. Ele n\u00e3o cai no engodo e dou por mim sentado na cama a olhar o vazio, com os olhos pesados, mas sem sono.<\/p>\n<p>Quatro e meia. J\u00e1 que n\u00e3o durmo, ao menos que d\u00ea alguma utilidade \u00e0 ins\u00f3nia. Vou escrever qualquer coisa. Levanto-me e ligo o computador. Come\u00e7o a ouvir os reguladores de tens\u00e3o a dar estalos. Queres ver que se vai? As luzes l\u00e1 fora apagam-se e o sinal de bateria fraca acende-se. Foi-se. Desligo o computador e penso regressar \u00e0 cama. N\u00e3o, o sono continua longe. Troco a bateria \u00e0s escuras, com cuidado para n\u00e3o fazer barulho, que as ins\u00f3nias s\u00f3 me atacaram a mim. Ligo-o de novo. Que cansa\u00e7o! Os olhos teimam em abrir quando sei que o que mais desejam \u00e9 fechar-se por umas horas valentes.<\/p>\n<p>Quando estamos extenuados e sem for\u00e7as para organizar os pensamentos, as palavras saem mais fluidas, porque j\u00e1 n\u00e3o pensamos nelas, s\u00e3o elas que ganham vida pr\u00f3pria e pensam por n\u00f3s enquanto escrevem a hist\u00f3ria, tal como fazem hoje. Preferia t\u00ea-las apenas sonhado.<\/p>\n<p>Cinco da manh\u00e3. O gerador da casa do lado j\u00e1 trabalha. Vou aproveitar a can\u00e7\u00e3o de embalar e tentar dormir, finalmente. At\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias, ou melhor, noites, em que o sono n\u00e3o chega de maneira nenhuma. O cansa\u00e7o do dia longo obriga-nos a arrastar o corpo para a cama, antevendo uma noite descansada. O corpo pede repouso. A cabe\u00e7a pede tr\u00e9guas e os sonhos imploram para sair e brincar um pouco. Mas deitamo-nos e&#8230; nada. 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