{"id":1922,"date":"2009-01-24T00:00:20","date_gmt":"2009-01-23T23:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1922"},"modified":"2009-09-19T15:17:11","modified_gmt":"2009-09-19T14:17:11","slug":"massangano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/massangano\/","title":{"rendered":"Massangano"},"content":{"rendered":"<p>Na estrada para o Dondo, quase a chegar \u00e0 terra onde se faz a cerveja Eka e no cimo de uma lomba, come\u00e7a uma pequena estrada com um aspecto diferente das demais. N\u00e3o \u00e9 de terra batida, pelo que indica ir dar a algum lugar de maior relev\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00ea conserva\u00e7\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas, o que poder\u00e1 significar a perda de import\u00e2ncia do s\u00edtio, ou falta de interesse de quem decide quais as estradas que se reparam.<\/p>\n<p>O seu destino \u00e9 um mist\u00e9rio. As tabuletas j\u00e1 desapareceram h\u00e1 muito e a estrada an\u00f3nima n\u00e3o promete grande coisa. No entanto, deve conduzir a um local m\u00e1gico. N\u00e3o \u00e9 em todos os s\u00edtios que encontramos uma povoa\u00e7\u00e3o com bandeiras da UNITA e MPLA frente-a-frente, a escassos metros uma da outra. O habitual \u00e9 ver uma aldeia com uma das bandeiras e a aldeia seguinte com outra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_009\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-009.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>UNITA e MPLA, lado-a-lado<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse andar \u00e0 procura deste acesso ao Kwanza em mapas e fotografias de sat\u00e9lite, nunca adivinharia que esta \u00e9 a estrada que liga a Massangano.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"383\" alt=\"Massangano_14\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-14.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Ru\u00ednas do Tribunal de Massangano<\/p>\n<p>Em boa hora me aventurei. Massangano \u00e9 uma verdadeira p\u00e9rola. Uma pequena povoa\u00e7\u00e3o com cubatas de adobe e capim esconde-se no meio das palmeiras de um vale abrigado. No terreno mais alto erguem-se as ru\u00ednas da C\u00e2mara Municipal, do Tribunal e do Forte. Mais longe, ao lado do novo Hospital, que n\u00e3o passa de um pequeno posto m\u00e9dico, fica uma igreja imponente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_001\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-001.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Forte de Massangano<\/p>\n<p>Massangano foi uma terra importante. As ru\u00ednas dos seus edif\u00edcios mais importantes atestam-no. Mas o que define a import\u00e2ncia de uma povoa\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua for\u00e7a econ\u00f3mica. Massangano est\u00e1 longe da estrada que liga a Malanje, Huambo, N&#8217;dalatando e Dondo. Encarrapitada num monte, o acesso ao Kwanza \u00e9 dif\u00edcil, especialmente para as mercadorias. A cidade mais pr\u00f3xima, o Dondo, que se atravessa na estrada principal, com o sua praia no Kwanza e o caminho-de-ferro, roubou, naturalmente, a import\u00e2ncia a esta terra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_003\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-003.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Sombra centen\u00e1ria<\/p>\n<p>Hoje em dia tem um novo posto administrativo, uma esquadra da pol\u00edcia, um hospital e mais um par de edif\u00edcios com aspecto oficial, entre os quais, um comit\u00e9 do MPLA, como n\u00e3o poderia deixar de ser.<\/p>\n<p>A sombra do velho forte \u00e9 o local de encontro das crian\u00e7as da terra. L\u00e1 t\u00eam o seu mundo de faz-de-conta muito a s\u00e9rio. Nos dias em que n\u00e3o h\u00e1 escola, juntam-se todos para brincar. Mas, pelos conhecimentos que demonstram na leitura e escrita, os dias de escola tamb\u00e9m devem ser l\u00e1 passados.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_011\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-011.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Brincando \u00e0s mulheres crescidas<\/p>\n<p>Eles jogam \u00e0 bola ou correm atr\u00e1s uns dos outros, atirando pedras aos que ficam para tr\u00e1s. Mesmo quando acertam no alvo n\u00e3o se ouvem choros, apenas uma risada alta e solta. O alvejado tamb\u00e9m ri, embora com menos convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Elas, sabedoras do que lhes reserva o futuro, brincam \u00e0s cozinhas, repetindo o que as suas m\u00e3es e av\u00f3s sempre fizeram \u00e0 sua frente. Descem ao rio e pescam um peixe. Trazem-no para o forte, onde o amanham e cortam aos peda\u00e7os. As mais novas j\u00e1 trataram de fazer lume entre tr\u00eas pedras e de encontrar uma panela ou uma lata que cumpra a mesma fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_010\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-010.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Cacusso das meninas<\/p>\n<p>Alguns meninos, mais pacientes e engenhosos, transformaram latas de leite em p\u00f3 e concentrado de tomate em verdadeiros b\u00f3lides de duas e quatro rodas. E conseguiram algo que a ind\u00fastria autom\u00f3vel anseia h\u00e1 anos, m\u00e1quinas n\u00e3o poluentes e econ\u00f3micas. Estas, afinal de contas, n\u00e3o deitam fumo e funcionam com um simples cordel.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"600\" alt=\"Massangano_013\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-013.jpg\" width=\"400\" border=\"0\"><br \/>Motociclista com os cal\u00e7\u00f5es ao contr\u00e1rio<\/p>\n<p>As vantagens destas m\u00e1quinas n\u00e3o se ficam por aqui. As avarias s\u00e3o raras e, mesmo quando acontecem, n\u00e3o impedem a viagem de modo algum. Um pux\u00e3o mais vigoroso no cordel resolve atascan\u00e7os, ultrapassa buracos e pedregulhos inoportunos. E, se o ve\u00edculo carecer de repara\u00e7\u00e3o, as \u00fanicas ferramentas necess\u00e1rias s\u00e3o uma faca e uma pedra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_002\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-002.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Circula sem luzes, como muitos em Luanda<\/p>\n<p>Melhor ainda, \u00e9 que a pol\u00edcia fecha os olhos a estes condutores sem carta e com carros desprovidos de matr\u00edcula, inspec\u00e7\u00f5es ou selos de imposto. Estou para ouvir a hist\u00f3ria do menino que foi multado enquanto rebocava o seu Rav4 na ponta do cordel.<\/p>\n<p>Dizem os mais pessimistas que estas m\u00e1quinas t\u00eam defeitos. Eu c\u00e1 n\u00e3o vejo nenhum.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_004\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-004.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Repouso<\/p>\n<p>Numa das pontas da povoa\u00e7\u00e3o, ergue-se a igreja, dedicada a Nossa Senhora da Vit\u00f3ria, a <em>Mam\u00e3 Vit\u00f3ria<\/em>. Tem dimens\u00f5es semelhantes \u00e0 da Muxima, mas est\u00e1 em muito mau estado de conserva\u00e7\u00e3o. Foi recuperada h\u00e1 alguns anos, mas depois voltou a ser esquecida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_007\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-007.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Nossa Senhora da Vit\u00f3ria<\/p>\n<p>As \u00e1rvores come\u00e7aram a crescer no telhado e nos contrafortes, desfazendo paredes e empurrando telhas. Os morcegos e as cabras invadem o templo fora das horas de culto, uns pelas janelas abertas, outros pelas portas que n\u00e3o fecham.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_005\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-005.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>J\u00e1 viu melhores dias<\/p>\n<p>\u00c0 entrada, pela porta lateral, cruzamos a campa de um padre. Morreu no s\u00e9c. XVIII, na altura em que Massangano vivia os seus tempos \u00e1ureos.<\/p>\n<p>L\u00e1 dentro, o cheiro a humidade e guano aperta-nos a garganta e faz-nos lacrimejar. Alguns bancos corridos, muito gastos, alinham-se num ch\u00e3o de tijoleira escura, com aspecto antigo. De frente para o altar, no fundo da nave, est\u00e1 o coro, carcomido pelo caruncho e pela chuva. O dia em que cair\u00e1 j\u00e1 esteve mais longe.<\/p>\n<p>Cinco esculturas adornam a igreja. Quatro, mais pequenas, habitam os nichos laterais. Santo Ant\u00f3nio de Lisboa, duas Nossas Senhoras, uma das quais de F\u00e1tima e um santo que n\u00e3o identifiquei. A est\u00e1tua j\u00e1 estava incompleta e faltavam-lhe os s\u00edmbolos que o distinguiam dos restantes santos barbudos. Ao centro, sobre o altar, a Nossa Senhora da Vit\u00f3ria tentava abrigar-se da chuva e do Sol a que est\u00e1 exposta. Alguns panos coloridos decoram o templo, numa simplicidade que contrasta com o tamanho do edif\u00edcio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_012\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-012.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>C\u00e1 fora, as crian\u00e7as brincam<\/p>\n<p>Voltamos ao exterior, n\u00e3o v\u00e1 uma telha cair-nos na cabe\u00e7a. As crian\u00e7as que nos acompanharam desde o Forte correm descal\u00e7as sobre as pedras agu\u00e7adas e fazem-nos inveja por poderem viver num mundo sem preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas os mist\u00e9rios de Massangano n\u00e3o se esgotam s\u00f3 nas suas crian\u00e7as e marcas do passado. H\u00e1 tantas coisas, grandes e pequenas, para ver. Basta estar atento&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Massangano_006\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/massangano-006.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Jogando \u00e0 bola<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na estrada para o Dondo, quase a chegar \u00e0 terra onde se faz a cerveja Eka e no cimo de uma lomba, come\u00e7a uma pequena estrada com um aspecto diferente das demais. 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