{"id":1923,"date":"2009-01-23T00:00:27","date_gmt":"2009-01-22T23:00:27","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1923"},"modified":"2009-09-05T23:32:54","modified_gmt":"2009-09-05T22:32:54","slug":"a-vaca-mwangol-zunga-bw","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-vaca-mwangol-zunga-bw\/","title":{"rendered":"A vaca mwangol\u00ea zunga bw\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>No meio de uma conversa acerca de um qualquer assunto, que agora n\u00e3o vem a prop\u00f3sito nem me lembro qual era, calhou falar-se do desd\u00e9m que os angolanos t\u00eam \u00e0 carne nacional (os que podem escolher, entenda-se). Fiquei a saber que n\u00e3o se lhe op\u00f5em por princ\u00edpio ou por ser moda comer carne brasileira, afeg\u00e3 ou islandesa. \u00c9 mesmo por ser dura.<\/p>\n<p>Quando v\u00e3o ao talho, l\u00e1 est\u00e1 pendurada a desgra\u00e7ada carca\u00e7a de vaca, por vezes assediada por moscas insistentes, abatida para carne porque j\u00e1 n\u00e3o servia para mais nada. A idade e os milhares de quil\u00f3metros que percorreu ao longo da vida deixaram-lhes as carnes duras e sem gosto.<\/p>\n<p>Um criador de gado angolano (criador angolano de gado angolano talvez fosse mais correcto, mas fica repetitivo), entrou na conversa e perdeu alguns minutos a fazer contas. Disse-nos que os criadores tradicionais t\u00eam de percorrer grandes dist\u00e2ncias entre os pastos, os currais e os bebedouros com o gado. Assim por alto, dez quil\u00f3metros para a \u00e1gua, outros tantos para o pasto e repetem tudo ao final do dia, de volta aos cercados. Ao final da vintena de anos que costumam durar, as pobres vacas j\u00e1 calcorrearam perto de 300&#8217;000 km.<\/p>\n<p>O <em>mais-velho<\/em> da mesa, at\u00e9 ent\u00e3o calado, disse-nos que s\u00f3 comia carne brasileira. Que fugia da carne nacional, com o seu aspecto seco e duro. E depois contou-nos alguns epis\u00f3dios acerca do assunto. Descobri que parte da carne do Lubango que se vende em Luanda n\u00e3o \u00e9 transportada em cami\u00f5es frigor\u00edficos ou em cami\u00f5es sequer. Vem para a capital a p\u00e9, pelos antigos caminhos da transum\u00e2ncia. O pastor demora cerca de seis semanas para trazer a manada da Hu\u00edla at\u00e9 ao matadouro, em Luanda. Depois regressa de t\u00e1xi e forma uma nova manada durante o m\u00eas seguinte. E recome\u00e7a o ciclo, manada a manada. Mesmo que as vacas fossem novas e de carne macia, com semelhante caminhada, ficam a parecer feitas de sola.<\/p>\n<p>Parece que nesta terra tudo zunga para tr\u00e1s e para diante, dirigindo-se para um destino mais ou menos incerto. As mulheres, com um alguidar \u00e0 cabe\u00e7a, fazem-no para ganhar a vida e o gado para encontrar a morte, a caminho de um qualquer prato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No meio de uma conversa acerca de um qualquer assunto, que agora n\u00e3o vem a prop\u00f3sito nem me lembro qual era, calhou falar-se do desd\u00e9m que os angolanos t\u00eam \u00e0 carne nacional (os que podem escolher, entenda-se). Fiquei a saber que n\u00e3o se lhe op\u00f5em por princ\u00edpio ou por ser moda comer carne brasileira, afeg\u00e3 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[422,420,28,421],"class_list":["post-1923","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","tag-carne-dura","tag-gado","tag-tradicoes","tag-transumancia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1923","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1923"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1923\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3424,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1923\/revisions\/3424"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1923"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}