{"id":1929,"date":"2009-01-26T00:00:58","date_gmt":"2009-01-25T23:00:58","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1929"},"modified":"2010-04-22T14:05:57","modified_gmt":"2010-04-22T13:05:57","slug":"escola-de-mosquitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/escola-de-mosquitos\/","title":{"rendered":"Escola de mosquitos"},"content":{"rendered":"<p>O Huambo esteve isolado do mundo muito tempo. Esta situa\u00e7\u00e3o teve reflexos na educa\u00e7\u00e3o das gentes e, espantem-se, dos bichos. Descobri-o num quarto de hotel&#8230;<\/p>\n<p>Bem lan\u00e7ado para o meu quinto sono, fui despertado por um zumbido familiar. Esvoa\u00e7ava erraticamente pelo quarto um vector, armado em parvo.<\/p>\n<p>Acendi a luz e dei-lhe ca\u00e7a. Acabei por lhe executar a senten\u00e7a com a almofada. Ficou uma mancha castanha na fronha. Menos mal.<\/p>\n<p>Apaguei a luz e fiz os poss\u00edveis por retomar o que tinha sido t\u00e3o rudemente interrompido.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, o zumbido regressou. Novamente acendi o candeeiros, que me ofuscou. Depois de muito pestanejar, vi o cad\u00e1ver do mosquito de h\u00e1 pouco no s\u00edtio onde o tinha deixado. Afinal era um par de vectores que me andava a rondar, cobi\u00e7ando-me o sangue.<\/p>\n<p>Mais uns minutos de olhos arregalados e ouvidos atentos, enquanto procurava o bicharoco. Acabou por ter o mesmo destino que o parceiro. Desta feita a arma do crime ganhou uma mancha castanho-escuro, sinal de que aquele mosquito j\u00e1 conhecia o gostinho do sangue humano.<\/p>\n<p>Felizmente para mim, matei-a antes que lhe servisse de refei\u00e7\u00e3o. Sabe-se l\u00e1 se a v\u00edtima anterior n\u00e3o tinha paludismo. Os mosquitos mordem cada coisa&#8230;<\/p>\n<p>Resolvi tomar medidas. Fui \u00e0 mala buscar o repelente electr\u00f3nico de mosquitame. Virei-o para a cama e deitei-me.<\/p>\n<p>Parece que os mosquitos andam a ouvir m\u00fasica demasiado alta. O aparelho dizia-lhes claramente, em ultra-sons, que n\u00e3o valia a pena ir para ali, que o sangue do humano adormecido era amargo, que fazia diarreia, que era azedo. Fizeram orelhas moucas e n\u00e3o desistiram de me rondar a cara e os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Percebi que a noite seria longa quando descobri um pequeno espa\u00e7o aberto na parede para passar os tubos do ar condicionado. Servia de entrada ao raio dos mosquitos.<\/p>\n<p>Como os bichos n\u00e3o fazem caso da maquineta de ultra-sons, voltei \u00e0 mala e desencantei repelente l\u00edquido.<\/p>\n<p>Borrifadelas no pesco\u00e7o, nos bra\u00e7os, nos ombros e nas costas. Fiquei a cheirar a eucaliptal e c\u00e2nfora.<\/p>\n<p>\u00abVenham l\u00e1 agora!\u00bb<\/p>\n<p>E vieram mesmo. Chegaram a ter o descaramento de me pousar no pesco\u00e7o, ignorando completamente o fedor a repelente.<\/p>\n<p>Acendi as luzes e persegui mais uma meia-d\u00fazia de analfabetos voadores. Bem lhe mostrei o r\u00f3tulo do frasco. Dizia l\u00e1 repelente de mosquitos, indicado para insectos tropicais. Nada, n\u00e3o conseguiam sequer soletrar o nome do produto. Ou ent\u00e3o, a angolanidade dos bichos sobrep\u00f4s-se a tudo o resto. Se n\u00e3o se cumpre o c\u00f3digo de estrada, porque se haveria de cumprir o r\u00f3tulo de um repelente?<\/p>\n<p>Foi uma noite longa, dormindo com um olho aberto, como os c\u00e3es. Pela madrugada, com olheiras pelos joelhos, contemplei a pilha de cad\u00e1veres alados que acumulei na mesinha-de-cabeceira e as manchas castanhas e vermelhas na fronha da almofada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" height=\"400\" alt=\"Huambo_3\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/huambo-3.jpg\" width=\"600\" border=\"0\"><br \/>Carnificina <\/p>\n<p>S\u00f3 dois me provaram o sangue, mas ambos foram justi\u00e7ados.<\/p>\n<p>O Governo de Angola tem de tomar medidas urgentes. Esta carnificina era evit\u00e1vel. Bestava que se ensinasse os bichos a ler. Ou pelo menos a cumprir as indica\u00e7\u00f5es dos repelentes.<\/p>\n<p>Escolaridade m\u00ednima obrigat\u00f3ria para os mosquitos, j\u00e1!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Huambo esteve isolado do mundo muito tempo. Esta situa\u00e7\u00e3o teve reflexos na educa\u00e7\u00e3o das gentes e, espantem-se, dos bichos. 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