{"id":1992,"date":"2009-02-05T00:00:14","date_gmt":"2009-02-04T23:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1992"},"modified":"2009-07-25T12:56:05","modified_gmt":"2009-07-25T11:56:05","slug":"a-utilidade-dos-trnsitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/a-utilidade-dos-trnsitos\/","title":{"rendered":"A utilidade dos Tr\u00e2nsitos"},"content":{"rendered":"<p>Uma figura muitas vezes criticada, odiada e comentada \u00e9 o pol\u00edcia de tr\u00e2nsito angolano. Por estes lados \u00e9 Tr\u00e2nsito, apenas. \u00c9 preciso usar a t\u00e9cnica das <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1576\" target=\"_blank\">meias-palavras<\/a> para sentir a angolanidade da coisa.<\/p>\n<p>Os Tr\u00e2nsitos, de colete cor-de-laranja com letras brancas escrevendo <em>TRANSITO<\/em> e uma bra\u00e7adeira vermelha com um grande T mai\u00fasculo, distinguem-se \u00e0 dist\u00e2ncia. S\u00e3o altivos e sabem que a sua palavra \u00e9 lei.<\/p>\n<p>Na maior parte das vezes, associamo-los a <em><a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1187\" target=\"_blank\">gasosas<\/a><\/em> e outros pecadilhos. H\u00e1, no entanto, outros que s\u00e3o conhecidos pelas <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=688\" target=\"_blank\">coreografias<\/a> imaginativas que usam para coordenar o fluir do tr\u00e2nsito nos cruzamentos.<\/p>\n<p>Comum \u00e0 maioria dos pol\u00edcias de tr\u00e2nsito do mundo, estes tamb\u00e9m atrapalham um bocado o normal funcionamento das coisas. Se numa estrada que n\u00e3o \u00e9 habitual estar engarrafada, os carros se come\u00e7am a apertar mais e andar devagar, \u00e9 certo e sabido que na outra ponta est\u00e1 um Tr\u00e2nsito a agilizar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-038.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_038\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPouco movimento<\/p>\n<p>Ora, aconteceu que a rua que d\u00e1 acesso ao escrit\u00f3rio foi cortada. Fazem isto regularmente, para cobrir alguns buracos. Geralmente fazem-no quando os carros come\u00e7am a ter dificuldades em sair dos buracos mais fundos. Fecham a rua numa ponta, com um cami\u00e3o atravessado no cruzamento, e depois v\u00e3o despejando entulho nas covas. Um cilindro compressor ajeita as pedras e a terra e os buracos desaparecem. Durante algumas horas, pelo menos. No dia seguinte est\u00e1 igual, ou pior, que na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada da rua, junto ao cami\u00e3o, estavam dois Tr\u00e2nsitos. Abri o vidro e fiz-me de desentendido. Como podia eu chegar ao trabalho? O port\u00e3o do complexo ficava a menos de 100 metros da esquina.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o que me deram era, no m\u00ednimo, engenhosa. Contornava o complexo pela \u00fanica estrada aberta, na esquina seguinte voltava \u00e0 direita, para um sentido proibido e depois repetia a fa\u00e7anha, subindo a rua cortada em contra-m\u00e3o. Mais de um quil\u00f3metro para fazer menos de 100 metros. Pareceu-me excelente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-041.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_041\" width=\"600\" height=\"403\" \/><br \/>\n\u00c9 s\u00f3 um pulinho<\/p>\n<p>Como a \u00fanica rua aberta \u00e9 de via \u00fanica e h\u00e1 tr\u00e2nsito nos dois sentidos, a progress\u00e3o foi lenta, muito lenta.<\/p>\n<p>Meia-hora depois, j\u00e1 na esquina seguinte, a tal em que tinha de virar \u00e0 direita para um sentido proibido, estava outro pol\u00edcia de colete laranja. Recusou terminantemente permitir-me fazer aquela manobra. Era sentido proibido, afinal de contas. Estava cheio de raz\u00e3o e arranjou-me uma alternativa simples e pr\u00e1tica. Continuava na direc\u00e7\u00e3o em que estava e voltava tr\u00eas vezes \u00e0 esquerda. \u00cda dar ao in\u00edcio da rua que queria, a tal que d\u00e1 acesso ao complexo, mas que est\u00e1 cortada. Pedi-lhe outra sugest\u00e3o. Podia seguir em frente e entrar pela outra ponta da avenida. Uma volta de oito quil\u00f3metros pelo Rocha Pinto, Samba e arredores.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-024.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_024\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nSer\u00e1 que \u00e9 aqui que se abastecem para reparar a rua?<\/p>\n<p>Disse-lhe que j\u00e1 estava a seguir as indica\u00e7\u00f5es do seu colega, que me tinha dito que era ali que virava por causa do corte de estrada. O condutor do carro de tr\u00e1s tinha o mesmo destino que eu e, se n\u00e3o tinha ouvido as indica\u00e7\u00f5es do outro, pelo menos n\u00e3o se descoseu.<\/p>\n<p>O Tr\u00e2nsito olhou para a rua e viu tr\u00eas filas de tr\u00e2nsito compacto onde s\u00f3 cabe uma. Deve ter maldito a vida. Mas resolveu cumprir a sua miss\u00e3o. Foi abrindo caminho \u00e0 minha frente, cerca de 200 metros, para que se pudesse chegar ao final da rua cortada e entrar em contra-m\u00e3o. Atr\u00e1s de mim seguiam umas valentes dezenas de carros e carrinhas. A rua s\u00f3 \u00e9 de sentido \u00fanico naquele quarteir\u00e3o e o atalho deu muito jeito. Os condutores que circulavam em sentido contr\u00e1rio reclamavam que a rua era de sentido \u00fanico e o pol\u00edcia explicava que era s\u00f3 por causa do corte de estrada. Fui avan\u00e7ando devagar na faixa reservada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/luanda-20081208-182153-1.jpg\" border=\"0\" alt=\"Luanda_20081208-182153-__1\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nO sentido \u00fanico que se fez em contra-m\u00e3o<\/p>\n<p>No fim do quarteir\u00e3o agradeci-lhe por ter tomado uma boa decis\u00e3o. O Agente B. Facilitou a vida a muita gente. Aqueles dez minutos pouparam horas de engarrafamento.<\/p>\n<p>Voltei \u00e0 direita, contornei as escavadoras e os cilindros e cheguei ao escrit\u00f3rio. Demorei cerca de uma hora a dar a volta ao quarteir\u00e3o. Outros colegas desistiram, deixaram o carro algures e vieram a p\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma figura muitas vezes criticada, odiada e comentada \u00e9 o pol\u00edcia de tr\u00e2nsito angolano. Por estes lados \u00e9 Tr\u00e2nsito, apenas. \u00c9 preciso usar a t\u00e9cnica das meias-palavras para sentir a angolanidade da coisa. Os Tr\u00e2nsitos, de colete cor-de-laranja com letras brancas escrevendo TRANSITO e uma bra\u00e7adeira vermelha com um grande T mai\u00fasculo, distinguem-se \u00e0 dist\u00e2ncia. 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