{"id":2012,"date":"2009-02-10T00:00:00","date_gmt":"2009-02-09T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2012"},"modified":"2009-07-18T13:20:06","modified_gmt":"2009-07-18T12:20:06","slug":"o-cheiro-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-cheiro-do-medo\/","title":{"rendered":"O cheiro do medo"},"content":{"rendered":"<p>Luanda fica a pouco menos de uma hora do Huambo e todos os dias h\u00e1 v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es entre ambas as cidades, efectuadas quer pela companhia estatal, quer por mais algumas companhias a\u00e9reas privadas. Desta feita, viajei na TAAG, num Boeing que \u00e9 incapaz de esconder a idade, nem que seja pelo desenho dos seus motores.<\/p>\n<p>No regresso \u00e0 capital, com algumas horas de atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tabela, fic\u00e1mos a aguardar a nossa vez de aterrar. Sobre Cacuaco e a foz do Bengo, o 737-200 entrou no <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1668\" target=\"_blank\">carrossel de Luanda<\/a> e mostrou f\u00e1bricas, contentores, navios carregados, navios encalhados, ruas castanhas com candongueiros azuis e brancos, cami\u00f5es cobertos de p\u00f3 e carros vermelhos, telhados de chapa amontoados e muita, muita gente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"TAAG_737-200\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/taag-737200.jpg\" border=\"0\" alt=\"TAAG_737-200\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nDescolando do Huambo<\/p>\n<p>A nossa vez de aterrar chegou ao fim de algumas voltas. O avi\u00e3o come\u00e7ou a fazer-se \u00e0 pista, mas seguia demasiado depressa e muito alto. O piloto, sacrificando o conforto dos passageiros em detrimento da sua pressa, corrigiu a altitude e a orienta\u00e7\u00e3o com duas descidas repentinas em curva, que faziam lembrar po\u00e7os de ar violentos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m contava com esta surpresa, nem mesmo eu, que j\u00e1 experimentei emo\u00e7\u00f5es fortes na altura de escolher a pista do 4 de Fevereiro. Seis dezenas de est\u00f4magos subiram repentinamente at\u00e9 \u00e0s respectivas bocas e cobriram os seus donos de suores frios. O casario desorganizado l\u00e1 em baixo a aproximar-se das janelas em \u00e2ngulos pouco habituais e a velocidades absurdas faziam imaginar o que seria se\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"Futebol\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-007.jpg\" border=\"0\" alt=\"Futebol\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nN\u00e3o queiram interromper o jogo<\/p>\n<p>No curto intervalo entre as duas descidas, a cabine encheu-se com o cheiro acre do medo. Ap\u00f3s o segundo mergulho, cheirava intensamente a catinga. Cento e vinte palmas de m\u00e3os suadas, sessenta nucas com os cabelos em p\u00e9, cento e vinte olhos arregalados. Reflexos condicionados de mam\u00edferos que somos\u2026<\/p>\n<p>O avi\u00e3o acabou por descer mesmo na cabeceira da pista 23, mas continuou a sobrevo\u00e1-la at\u00e9 quase meio. Demasiado depressa para aterrar em seguran\u00e7a\u2026 aquelas descidas s\u00fabitas corrigiram a altitude, mas pioraram a velocidade. Os trav\u00f5es a\u00e9reos ficaram esquecidos logo ap\u00f3s a chegada ao r\u00e1dio-farol.<\/p>\n<p>Perto do meio da pista, onde deveria sair para a placa, o avi\u00e3o tocou no asfalto com viol\u00eancia. De imediato se armaram os inversores para o ajudar a parar. Motores antigos em m\u00e1xima pot\u00eancia, para poupar os trav\u00f5es. Devia ser ao contr\u00e1rio, mas enfim\u2026<\/p>\n<p>A pista desfilava debaixo de n\u00f3s, bem mais depressa do que qualquer um desejaria, provavelmente at\u00e9 o piloto. Agora sim, trav\u00f5es a fundo. E os inversores tamb\u00e9m armados. O avi\u00e3o l\u00e1 parou, quase, quase onde os 747 o fazem. \u00c9 obra!<\/p>\n<p>Meia-volta no fim da pista. H\u00e1 que fazer <em>backtrack<\/em> at\u00e9 \u00e0 sa\u00edda da placa. A tal que ficou para tr\u00e1s onde as rodas tocaram no ch\u00e3o. Motores ao m\u00e1ximo, como se fosse para descolar de novo. Cada vez mais depressa, as guaritas ao longo da veda\u00e7\u00e3o do aeroporto passavam pelas janelas pequeninas pelas quais os passageiros espreitavam a terra firme que anseavam.<\/p>\n<p>Perto da curva para a placa, os inversores armam outra vez. Motores a fundo durante uma eternidade. A velocidades t\u00e3o baixas n\u00e3o servem de nada. O jacto n\u00e3o tem press\u00e3o suficiente para abrandar o avi\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 para estragar o compressor, fazendo-o aquecer demasiado.<\/p>\n<p>Duas voltinhas pela placa e depois trav\u00f5es a fundo outra vez. O avi\u00e3o parou e a porta abriu-se. Descobri que este piloto, cujo nome sei, mas n\u00e3o digo, \u00e9 um grande feiticeiro. Pela porta pequena sa\u00edram sessenta brancos. No autocarro para o terminal foram retomando as cores dos passageiros que tinham embarcado no Huambo. Na recolha de bagagens j\u00e1 havia pretos, brancos e mesti\u00e7os outra vez!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luanda fica a pouco menos de uma hora do Huambo e todos os dias h\u00e1 v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es entre ambas as cidades, efectuadas quer pela companhia estatal, quer por mais algumas companhias a\u00e9reas privadas. Desta feita, viajei na TAAG, num Boeing que \u00e9 incapaz de esconder a idade, nem que seja pelo desenho dos seus motores. 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