{"id":2021,"date":"2009-02-14T00:00:00","date_gmt":"2009-02-13T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2021"},"modified":"2009-12-01T16:07:28","modified_gmt":"2009-12-01T15:07:28","slug":"galinha-rija","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/galinha-rija\/","title":{"rendered":"Galinha rija"},"content":{"rendered":"<p>As express\u00f5es idiom\u00e1ticas de cada povo d\u00e3o um colorido muito especial a esta l\u00edngua que nos une, mesmo que com sotaques e ritmos diferentes.<\/p>\n<p>O quotidiano vai moldando os discursos das pessoas, criando express\u00f5es muito caracter\u00edsticas. O curioso \u00e9 que, na maioria das vezes, o seu significado por ser fechado para os estrangeiros, mesmo que dominem bem a l\u00edngua. S\u00f3 com a conviv\u00eancia com os locais \u00e9 que se come\u00e7a a perceber algumas. Outras s\u00e3o-nos traduzidas, mas ficamos com a ideia de que metade da piada se perdeu.<\/p>\n<p>\u00c9 como a frase mais repetida na Tun\u00edsia aos turistas, \u201cLes Gazelles et les Gazous\u201d, usada para referir raparigas e rapazes. Bem nos explicaram que, para os mu\u00e7ulmanos, as gazelas s\u00e3o um s\u00edmbolo de beleza e que n\u00e3o \u00e9 desprimor nenhum chamar uma rapariga de gazela, muito pelo contr\u00e1rio. E, sorrindo, disseram que a segunda parte, os \u201cGazous\u201d era s\u00f3 para rimar. C\u00e1 para mim, h\u00e1 ali mais qualquer coisa\u2026<\/p>\n<p>Em Angola tamb\u00e9m h\u00e1 express\u00f5es muito peculiares, que reflectem a vida independente que o Portugu\u00eas tem em \u00c1frica. Tamb\u00e9m elas s\u00e3o moldadas pelo que rodeia as pessoas.<\/p>\n<p>Em Luanda, terra dos engarrafamentos e da gasolina barata (n\u00e3o necessariamente por esta ordem), os carros fazem parte da vida das pessoas. E devem ser uma parte muito importante, a julgar pelo esmero com que todos os dias s\u00e3o lavados, escovados, passados a pano, untados com sprays diversos, decorados com autocolantes, cortinas, altifalantes e aplica\u00e7\u00f5es cromadas.<\/p>\n<p>Era inevit\u00e1vel que come\u00e7assem a surgir alcunhas e defini\u00e7\u00f5es curiosas para os carros. Os <em>Olhos de Gatos<\/em> e <em>Rabo de Pato<\/em>\u00a0identificam Toyotas Corolla de v\u00e1rias s\u00e9ries, os <em>Tubar\u00f5es<\/em>\u00a0s\u00e3o Range Rover dos novos e as <em>i\u00e1ces sapatilha<\/em>\u00a0distinguem as Hiace das Liteace, com a sua frente alongada e o p\u00e1ra-choques a imitar uma sola.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"galinha_rija\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/galinha-rija.jpg\" border=\"0\" alt=\"galinha_rija\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nEst\u00e1 aqui para as curvas<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, a Toyota lan\u00e7ou um pequeno modelo a que deu o nome de <em>Starlet<\/em>. Como sempre, criou um carro pouco complicado, fi\u00e1vel e duradouro. At\u00e9 mesmo com a tortura que \u00e9 Luanda, alguns destes pequenos autom\u00f3veis sobrevivem at\u00e9 perto do meio milh\u00e3o de quil\u00f3metros. Quando come\u00e7aram a chegar, todos os que podiam, compraram um. Eram t\u00e3o frequentes os chamaram de <em>Gira-Bairro<\/em>. E os das primeiras gera\u00e7\u00f5es, por serem t\u00e3o fi\u00e1veis e resistentes ganharam a alcunha deliciosa de <em>Galinha Rija<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As express\u00f5es idiom\u00e1ticas de cada povo d\u00e3o um colorido muito especial a esta l\u00edngua que nos une, mesmo que com sotaques e ritmos diferentes. O quotidiano vai moldando os discursos das pessoas, criando express\u00f5es muito caracter\u00edsticas. 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