{"id":2027,"date":"2009-02-16T00:00:00","date_gmt":"2009-02-15T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2027"},"modified":"2009-08-08T21:24:12","modified_gmt":"2009-08-08T20:24:12","slug":"z-d-o-salvador-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/z-d-o-salvador-de-portugal\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 D\u00fa, o salvador de Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Durante a Idade M\u00e9dia, o empr\u00e9stimo de dinheiro com juros era considerado um pecado capital. Como n\u00e3o \u00e9 um ser vivo, era contra-natura que se multiplicasse. Para o devedor, caso fosse gente importante, dava um jeita\u00e7o invocar este pequeno pormenor. Num instante, a d\u00edvida e o credor desapareciam.<\/p>\n<p>Essas preocupa\u00e7\u00f5es foram esquecidas em tempos mais recentes. A teoria de que o mercado se regula a si pr\u00f3prio acabou por dar origem a instrumentos financeiros t\u00e3o rebuscados, assentes em mecanismos obscuros, que minaram o sistema financeiro mundial de tal maneira que hoje ningu\u00e9m sabe para onde se virar.<\/p>\n<p>Lucros obscenos sobre dinheiro que nunca existiu fora das imagina\u00e7\u00f5es dos especuladores, associados \u00e0 gan\u00e2ncia de cada gestor de conta e corretor de bolsa em apresentar resultados e receber comiss\u00f5es, levaram a que se baixasse as guardas e o bom-senso foi pelo cano abaixo.<\/p>\n<p>De um dia para o outro, pedacinhos de coisa nenhuma deixaram de valer os milh\u00f5es que se dizia valerem e voltaram ao seu pre\u00e7o justo, isto \u00e9, nada. Pa\u00edses inteiros, como a Isl\u00e2ndia, faliram. Bancos, seguradoras e firmas de investimentos precisaram de injec\u00e7\u00f5es de capital medonhas, oriundas dos impostos que todos pagamos, tudo para que os dep\u00f3sitos n\u00e3o desaparecessem subitamente.<\/p>\n<p>Por defini\u00e7\u00e3o, os bancos s\u00e3o todos insolventes. Gastam mais dinheiro do que t\u00eam, mas fingem que s\u00e3o capazes de honrar os seus compromissos mostrando n\u00e3o o dinheiro que l\u00e1 deposit\u00e1mos, mas sim o que acabou de ser depositado por outro crente. Esperam sempre que n\u00e3o haja mais de duas pessoas a levantar as economias.<\/p>\n<p>Os bancos portugueses, t\u00e3o ing\u00e9nuos como os demais, talvez at\u00e9 mais, por serem pequeninos e gostarem de seguir as pisadas dos grandes, ca\u00edram nas mesmas asneiras. O Estado teve de apagar alguns fogos, \u00e0 custa de subs\u00eddios e benesses. Para quem paga impostos, pode parecer injusto que sejam premiados pelos seus erros, mas a verdade \u00e9 que j\u00e1 estamos t\u00e3o dependentes do sistema banc\u00e1rio para nos esconder o dinheiro, que n\u00e3o nos podemos arriscar a ter repeti\u00e7\u00f5es das fal\u00eancias de bancos na Argentina, no final do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Angola diz que escapou imune a esta crise. Tenho as minhas d\u00favidas. O rombo deve ter sido grande, mas h\u00e1 muitos neg\u00f3cios onde se pode encontrar as verbas necess\u00e1rias para disfar\u00e7ar as perdas. At\u00e9 mesmo a subida continuada do pre\u00e7o do petr\u00f3leo acabou por ajudar a mascarar as coisas.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que Angola, com a sua taxa de crescimento econ\u00f3mico alt\u00edssima e a constante entrada de fundos derivados da venda de mat\u00e9rias-primas \u00e0 China e \u00e0s v\u00e1rias petrol\u00edferas que c\u00e1 operam, tem liquidez para fazer bons neg\u00f3cios em tempos de recess\u00e3o.<\/p>\n<p>A compra de grandes fatias do capital de bancos e empresas portuguesas tem feito a manchete de muitos jornais. H\u00e1 quem fique chocado. Eu n\u00e3o. Era esperado. Na sua maioria, eram j\u00e1 entidades que tinham la\u00e7os estreitos com Angola.<\/p>\n<p>Antes da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos j\u00e1 se come\u00e7ava a perceber que o centro de empreendedorismo e motor econ\u00f3mico de Portugal estava no continente africano. As ideias mais inovadoras come\u00e7avam c\u00e1 e s\u00f3 depois chegavam \u00e0 Metr\u00f3pole. Por essa altura pensou-se em transferir a capital do Imp\u00e9rio para uma Nova Lisboa, mesmo no centro de Angola. O projecto morreu, asfixiado pelas for\u00e7as conservadoras. Hoje, quase quatro d\u00e9cadas depois, as previs\u00f5es confirmaram-se. A capital econ\u00f3mica \u00e9 Luanda.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"IMG_1220\" style=\"border-top-width: 0px; display: inline; border-left-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-right-width: 0px\" height=\"400\" alt=\"IMG_1220\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/img-1220.jpg\" width=\"503\" border=\"0\" \/>    <br \/>Os borra-paredes j\u00e1 mudaram os slogans<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a Idade M\u00e9dia, o empr\u00e9stimo de dinheiro com juros era considerado um pecado capital. Como n\u00e3o \u00e9 um ser vivo, era contra-natura que se multiplicasse. 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