{"id":2029,"date":"2009-02-17T00:00:00","date_gmt":"2009-02-16T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2029"},"modified":"2009-09-18T22:01:42","modified_gmt":"2009-09-18T21:01:42","slug":"o-tesouro-do-jacar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/o-tesouro-do-jacar\/","title":{"rendered":"O tesouro do Jacar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Nas primeiras semanas em Angola, a caminho do trabalho, cruzava-me sempre com um <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1164\" target=\"_blank\">jacar\u00e9<\/a>, que se dizia comer criancinhas e candongueiros. O borbulhar sinistro nas \u00e1guas escuras na sarjeta da esquina anunciava a presen\u00e7a sombria. Quem passava perto do buraco quase adivinhava o ro\u00e7ar das escamas duras contra as paredes dos tubos e tremia de medo com a ilus\u00e3o de que uma imensa boca cheia de dentes afiados saltaria para se lhe agarrar a um membro.<\/p>\n<p>Alguns taxistas mais descuidados, assisti eu, foram v\u00edtimas do monstro. Nem todos viram a <em>i\u00e1ce<\/em> desaparecer sem rasto, mas duvido que tenha sido f\u00e1cil explicar as fundas marcas de dentes na metade que sobrou da carrinha.<\/p>\n<p>Um dia deram <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=1540\" target=\"_blank\">ca\u00e7a ao bicho<\/a>. Talvez tenha tido a ousadia de espreitar durante um passeio do Z\u00e9 D\u00fa e a diligente guarda presidencial deu-lhe cabo do canastro. Ou ent\u00e3o mordiscou o pneu do <em>Hummer<\/em> de um general bem posicionado. O buraco apareceu coberto com uma laje de bet\u00e3o armado, em jeito de l\u00e1pide ca\u00edda ou campa rasa. Al\u00edvio, gritaram os candongueiros! Al\u00edvio, gritaram as m\u00e3es de mi\u00fados pequenos!<\/p>\n<p>Os varredores come\u00e7aram a arriscar trabalhar naquela esquina e o lixo foi desaparecendo aos poucos. At\u00e9 ao dia em que se acabou. N\u00e3o mais houve montes de lixo perto da toca do jacar\u00e9. Mas o trabalho precisava ser feito e, como a esquina at\u00e9 \u00e9 agrad\u00e1vel e bem localizada, os varredores foram por ali ficando. Quase pod\u00edamos jurar que tentavam puxar o lustro \u00e0 estrada, pelas in\u00fameras vezes que a varriam depois de varrida.<\/p>\n<p>\u00c0 superf\u00edcie o lixo tinha desaparecido e, n\u00e3o sei se por incitamento dos supervisores ou por iniciativa pr\u00f3pria, come\u00e7aram a olhar, cobi\u00e7osos, para a campa do jacar\u00e9 que tanto os assustava. Dizem que os crocodilos levam as presas para o fundo, onde esperam que apodre\u00e7am. O Jacar\u00e9 da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro n\u00e3o era diferente dos demais. Aquela toca devia estar cheia de cangalhada. Sorriram uns para os outros e mandaram vir um carro para aspirar fossas. Era preciso tirar a \u00e1gua que escondia o Tesouro do Jacar\u00e9!<\/p>\n<p>A m\u00e1quina veio e o longo tubo esverdeado, parecido com um verme que se contorce, mergulhou no l\u00edquido cinzento e espesso da sarjeta. Aos poucos, engasgando-se e tossindo, foi sugando o esgoto da toca do jacar\u00e9. Antes de entrar para o tanque, parte do l\u00edquido espichava de volta para a rua, enchendo as valetas e o ar com um l\u00edquido nojento e um cheiro nauseabundo. As pessoas tapavam o nariz e franziam o sobrolho. Os cantoneiros, esses, esticavam os pesco\u00e7os para o buraco, tentando controlar a vontade de vomitar.O fedor fazia-os chorar, mas insistiam. Talvez j\u00e1 se visse o tesouro, sonhavam.<\/p>\n<p>Um, mais afoito, come\u00e7ou a remexer o fundo do buraco com um gancho. De vez em quando prendia-se em alguma coisa e ela puxava-a, decidido. Uma lata de \u00f3leo de palma. Um chinelo. Uma embalagem de lix\u00edvia. Dois sapatos amarrados pelos atacadores. Peda\u00e7os de cart\u00e3o empapado. Nada de riquezas. Nada de fortuna. Des\u00e2nimo. Mais chinelos\u2026<\/p>\n<p>Outro tomava o seu lugar manobrando o gancho e pescava mais cal\u00e7ado e umas quantas latas de refrigerante amassadas. Outro ainda, de luvas grossas, atirava tudo para um carrinho-de-m\u00e3o, verificando sempre se n\u00e3o tinha escapado algo de interesse.<\/p>\n<p>A tentativa de encontrar alguma coisa de valor f\u00ea-los desviar a aten\u00e7\u00e3o da enorme quantidade de sapatos que pescavam. Quantas v\u00edtimas fez aquele jacar\u00e9? E os sapatos amarrados um ao outro? Ser\u00e1 que algu\u00e9m se livrou de um indiv\u00edduo inc\u00f3modo, atirando-o ao bicho? As hist\u00f3rias de atirar pessoas de helic\u00f3pteros para as matas ou para o mar s\u00e3o pouco imaginativas, comparadas com atirar um rival ao jacar\u00e9 da sarjeta. Isso sim, \u00e9 ser cruel!<\/p>\n<p>Muitos chinelos pequeninos mostravam a prefer\u00eancia do animal pelas carnes tenras. Suponho que a mortalidade infantil tenha descido em flecha desde que o mataram\u2026 acho que \u00e9 esse o verdadeiro Tesouro do Jacar\u00e9!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas primeiras semanas em Angola, a caminho do trabalho, cruzava-me sempre com um jacar\u00e9, que se dizia comer criancinhas e candongueiros. O borbulhar sinistro nas \u00e1guas escuras na sarjeta da esquina anunciava a presen\u00e7a sombria. 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