{"id":2075,"date":"2009-02-27T00:00:00","date_gmt":"2009-02-26T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2075"},"modified":"2009-07-16T22:53:32","modified_gmt":"2009-07-16T21:53:32","slug":"parede-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/parede-branca\/","title":{"rendered":"Parede branca"},"content":{"rendered":"<p>Lentamente, o avi\u00e3o foi subindo. O ponteiro do alt\u00edmetro girava devagar, como o ponteiro dos minutos do rel\u00f3gio ao lado.<\/p>\n<p>As nuvens, que escondiam o azul do c\u00e9u, foram-se aproximando como uma prensa alva e fofa.<\/p>\n<p>Momentos antes de mergulhar nelas, temos a sensa\u00e7\u00e3o de nos encolhermos. A parede branca, de aspecto t\u00e3o fr\u00e1gil quando vista de longe, parece-nos tornar-se algo impenetr\u00e1vel, s\u00f3lido e amea\u00e7ador.<\/p>\n<p>Mas as h\u00e9lices enrolam-se \u00e0 volta daquele algod\u00e3o que s\u00e3o as nuvens. Nenhum baque ou solavanco denuncia a entrada. O choque anunciado perde-se no zumbido perp\u00e9tuo dos motores e do ru\u00eddo branco que sai dos auscultadores e nos afoga os ouvidos.<\/p>\n<p>Olhamos para baixo e o ch\u00e3o vai surgindo a espa\u00e7os cada vez mais pequenos, nos buracos que ainda salpicam aquele muro caiado que nos envolve.<\/p>\n<p>Damos por n\u00f3s a contemplar uma parede branca, t\u00e3o brilhante que nos cega. Queremos fechar os olhos porque a luz \u00e9 demasiado forte e nem os \u00f3culos escuros a conseguem filtrar. Mas \u00e9 preciso fixar o horizonte artificial\u2026<\/p>\n<p>Todos os sentidos s\u00e3o subjugados por esta alvura. Os olhos s\u00f3 funcionam quando focam as m\u00e3os ou os instrumentos, que nos dizem que o ouvido interno est\u00e1 a ser enganado. N\u00e3o seguimos numa linha recta, mas julgamos que sim. Calor seca-nos a boca e o nariz. Deixamos de conseguir distinguir os cheiros. O tacto resume-se aos comandos, que est\u00e3o h\u00famidos do suor que nos escorre das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Tentamos corrigir a atitude do avi\u00e3o s\u00f3 pelos instrumentos. O instinto diz-nos para procurar um ponto de refer\u00eancia no horizonte, mas ele desapareceu. L\u00e1 fora s\u00f3 h\u00e1 branco.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de est\u00edmulos torna o ru\u00eddo das h\u00e9lices, habitualmente uma companhia discreta, num troar ensurdecedor. Na falta de um sentido, ou restantes apuram-se\u2026<\/p>\n<p>\u00c0 medida que vamos subindo, o branco torna-se cada vez mais brilhante. Desejamos voar numa caixa fechada. Escura. Fria. Silenciosa.<\/p>\n<p>Subitamente, a luz muda. Acima de n\u00f3s surgem peda\u00e7os de azul. O avi\u00e3o come\u00e7a a dar cabe\u00e7adas no topo das nuvens e a luz que nos cegava d\u00e1 lugar ao conforto do azul clarinho que costuma pintar os c\u00e9us limpos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"manicaca_04\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/manicaca-04.jpg\" border=\"0\" alt=\"manicaca_04\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nA parede branca a invadir o c\u00e9u<\/p>\n<p>\u00c0 nossa frente, por dezenas de milhas, estende-se um mar branco e revolto. Sem pontos de refer\u00eancia, perdemos a no\u00e7\u00e3o da escala. Mesmo voando a quase 300 km\/h, as nuvens que parecem estar na ponta do bra\u00e7o demoram vinte minutos a ser ultrapassadas. Voamos depressa, mas pod\u00edamos muito bem estar parados. Ocupamos o tempo com a verifica\u00e7\u00e3o de consumos de combust\u00edvel que, mesmo sem andar, se gasta regularmente.<\/p>\n<p>O mundo desapareceu. Somos s\u00f3 n\u00f3s, fechados numa caixa de alum\u00ednio aeron\u00e1utico e plexiglass. Acima de n\u00f3s, s\u00f3 azul. Abaixo, s\u00f3 branco. N\u00e3o h\u00e1 mais nada para al\u00e9m de n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p>Alucinamos e julgamos ouvir vozes distantes nos auscultadores. Dizem ser controladores invis\u00edveis, que moram abaixo da parede branca. N\u00e3o acreditamos, mas desejamos n\u00e3o ser os \u00fanicos e respondemos na mesma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lentamente, o avi\u00e3o foi subindo. O ponteiro do alt\u00edmetro girava devagar, como o ponteiro dos minutos do rel\u00f3gio ao lado. As nuvens, que escondiam o azul do c\u00e9u, foram-se aproximando como uma prensa alva e fofa. Momentos antes de mergulhar nelas, temos a sensa\u00e7\u00e3o de nos encolhermos. 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