{"id":2118,"date":"2009-03-01T00:00:00","date_gmt":"2009-02-28T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2118"},"modified":"2009-08-08T21:22:32","modified_gmt":"2009-08-08T20:22:32","slug":"mmmmm","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/mmmmm\/","title":{"rendered":"A Mem\u00f3ria do Huambo"},"content":{"rendered":"<p>Uma sensa\u00e7\u00e3o recorrente que se tem ao visitar muitas cidades angolanas \u00e9 a da co-exist\u00eancia de duas povoa\u00e7\u00f5es e dois tempos no mesmo s\u00edtio.<\/p>\n<p>Em Luanda nunca deixamos de ter a sensa\u00e7\u00e3o de que a cidade colonial existe e que partilha o mesmo espa\u00e7o com a cidade actual. Os habitantes de hoje vivem-na de um modo distinto dos de outrora e, aos poucos, a nova capital vai apagando a antiga Luanda, uma torre de vidro de cada vez.<\/p>\n<p>Noutras povoa\u00e7\u00f5es, a cidade colonial estava l\u00e1, abandonada, acabadinha de entrar em 1975. A cidade africana tamb\u00e9m estava l\u00e1, um pouco a cargo da cubatiza\u00e7\u00e3o que a cidade branca sofreu.<\/p>\n<p>Mas esta sensa\u00e7\u00e3o desaparece quando se chega ao Huambo. A cidade continuou a ser vivida como cidade e n\u00e3o apenas como um aglomerado de telhados. A cidade evolu\u00edu e ganhou um rosto pr\u00f3prio. Parecido com o rosto colonial, \u00e9 certo, mas ao mesmo tempo diferente. Nova Lisboa desapareceu. S\u00f3 h\u00e1 o Huambo. Apesar de terem as mesmas casas e ruas, Nova Lisboa e Huambo n\u00e3o co-existem. A cidade n\u00e3o glorificou nem esqueceu o seu passado colonial. Adaptou-o e tornou-o seu.<\/p>\n<p>O actual Primeiro-Ministro angolano, Paulo Kassoma, e antigo Governador do Huambo fez um trabalho merit\u00f3rio na preserva\u00e7\u00e3o da identidade da cidade. Manteve os edif\u00edcios e monumentos mas, ao mesmo tempo, apagou as marcas coloniais.<\/p>\n<p>Os anos de guerra que mantiveram a cidade isolada contribu\u00edram, por estranho que pare\u00e7a, para que ficasse preservada. As marcas dos tiros e das bombas n\u00e3o contam. Isso s\u00e3o apenas rugas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_062\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-062.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_062\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nS\u00edmbolo do poder colonial<\/p>\n<p>O Pal\u00e1cio do Governador foi reduzido a escombros. Apenas as paredes exteriores resistiram aos anos de guerra. Em vez de ser demolido e constru\u00eddo um edif\u00edcio moderno, investiu-se tempo e saber na sua recupera\u00e7\u00e3o. Ganhou-se um edif\u00edcio que respira respeito pelo poder que alberga.<\/p>\n<p>Os bras\u00f5es e escudos herdados da tradi\u00e7\u00e3o her\u00e1ldica europeia foram retirados, e muito bem, a meu ver. O Huambo tem hoje uma sede do governo que respira hist\u00f3ria, sem recordar os tempos pr\u00e9-independ\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_072\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-0721.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_072\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nS\u00edmbolo do poder colonial<\/p>\n<p>Os v\u00e1rios escudos de granito retirados das fachadas foram amontoados num canto da cidade. N\u00e3o foram tratados com desprezo ou vandalizados. Foram apenas esquecidos. N\u00e3o fazia sentido que ocupassem ou partilhassem o lugar devido aos s\u00edmbolos nacionais vigentes.<\/p>\n<p>O facto de se terem retirado alguns dos s\u00edmbolos do poder colonial n\u00e3o quer dizer que tenham escondido todos. Alguns, por terem significados mais vastos foram mantidos.<\/p>\n<p>Na Pra\u00e7a Agostinho Neto, onde se ergue o Pal\u00e1cio do Governador e quase todos os grandes edif\u00edcios p\u00fablicos, havia uma s\u00e9rie de <a href=\"http:\/\/casadeluanda.blogspot.com\/2008\/12\/praa-dos-fundadores.html\" target=\"_blank\">est\u00e1tuas<\/a>. Eram do tempo em que a pra\u00e7a se chamava Dr. Manuel de Arriaga. a pra\u00e7a dos primeiros presidentes de cada pa\u00eds, portanto.<\/p>\n<p>Estas est\u00e1tuas viveram a guerra de perto. Ficaram presas num fogo cruzado de d\u00e9cadas e acabaram por se tornar alvos ingl\u00f3rios.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_013\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-013.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_013\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nFortaleza<\/p>\n<p>Quando se recuperou a pra\u00e7a, estou certo que ficaram indecisos acerca do que fazer \u00e0s est\u00e1tuas de bronze tornadas passadores. Afinal de contas, mesmo que do tempo colonial, eram obras de arte.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_022\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-022.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_022\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nMarcas do tempo<\/p>\n<p>Havia tr\u00eas op\u00e7\u00f5es. A primeira, mais simples e r\u00e1pida, era simplesmente deitar fora as est\u00e1tuas. A segunda, implicava tapar cada buraco de bala e devolver-lhes o aspecto original, quase que glorificando o passado. Optaram pela terceira via, mant\u00ea-las como est\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_032\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-032.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_032\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nNem o bronze resistiu<\/p>\n<p>Aooptarem por preservar as est\u00e1tuas no estado actual, criou-se um monumento aos horrores da batalha do Huambo. As est\u00e1tuas perderam o seu significado e passaram a ser apenas uma recorda\u00e7\u00e3o do que foi a guerra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_042\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-042.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_042\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nMarcas do tempo<\/p>\n<p>Os mais radicais sempre podem olhar para estas est\u00e1tuas esburacadas e interpretar isto como a persegui\u00e7\u00e3o aos brancos que se seguiu \u00e0 indeped\u00eancia, mas a maioria das pessoas vai olhar para isto e lembrar-se apenas da guerra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"memoria_053\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/memoria-053.jpg\" border=\"0\" alt=\"memoria_053\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nGeneral Norton de Matos<\/p>\n<p>At\u00e9 a estabiliza\u00e7\u00e3o que se fez da est\u00e1tua do General Norton de Matos mostra que n\u00e3o houve preocupa\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas quanto \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do significado da est\u00e1tua. Um remendo rude \u00e9 adequado ao tratamento rude que sofreu.<\/p>\n<p>Est\u00e3o agora a algumas centenas de metros do seu lugar original, em frente a uma esquadra da pol\u00edcia e num canto do jardim central do Huambo. N\u00e3o est\u00e3o em destaque, como seria de prever, mas n\u00e3o s\u00e3o invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Muito depois de se ter tapado o \u00faltimo buraco de bala das fachadas ou demolido todos os edif\u00edcios bombardeados, este monumento mostrar\u00e1 que a luta fraticida que assolou angola por quase trinta anos n\u00e3o foi apenas um facto hist\u00f3rico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma sensa\u00e7\u00e3o recorrente que se tem ao visitar muitas cidades angolanas \u00e9 a da co-exist\u00eancia de duas povoa\u00e7\u00f5es e dois tempos no mesmo s\u00edtio. Em Luanda nunca deixamos de ter a sensa\u00e7\u00e3o de que a cidade colonial existe e que partilha o mesmo espa\u00e7o com a cidade actual. 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