{"id":2125,"date":"2009-03-02T00:00:00","date_gmt":"2009-03-01T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2125"},"modified":"2009-07-16T22:33:28","modified_gmt":"2009-07-16T21:33:28","slug":"cabidela-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/cabidela-humana\/","title":{"rendered":"Cabidela humana"},"content":{"rendered":"<p>A vida d\u00e1 muitas voltas. Por vezes numa escorregadela na casa-de-banho ou dentro de um Land Rover fora de controlo a despencar-se por uma ribanceira.<\/p>\n<p>O nosso motorista, aquele que mata <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=573\" target=\"_blank\">le\u00f5es \u00e0 bofetada<\/a> e assusta os rinocerontes com o cheiro dos sovacos, deu uma dessas voltas na vida. Ou melhor, primeiro despencou-se no Land Rover e sa\u00edu ileso, depois, para comemorar, armou-se em <em><a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?page_id=2066\" target=\"_blank\">candengue<\/a><\/em> e p\u00f4s-se aos pulos na casa-de-banho e partiu uma perna.<\/p>\n<p>Foi direitinho para o hospital p\u00fablico.<\/p>\n<p>N\u00e3o se antev\u00ea coisa boa, ao falar em hospitais p\u00fablicos angolanos. Come\u00e7amos logo a pensar num barrac\u00e3o com telhado de chapa ondulada e moscas, muitas moscas \u00e0 volta de doentes ap\u00e1ticos nos cantos. N\u00e3o podia estar mais longe da verdade.<\/p>\n<p>Os hospitais p\u00fablicos angolanos em nada ficam a dever aos melhores da Europa. S\u00e3o limpos, bem equipados e, acima de tudo, t\u00eam bons profissionais a trabalhar.<\/p>\n<p>Dentro do hospital reina a calma. Para evitar as confus\u00f5es t\u00edpicas dos grandes ajuntamentos de africanos, as visitas s\u00e3o muito controladas \u00e0 entrada dos port\u00f5es. Duas visitas por doente e a identifica\u00e7\u00e3o fica na portaria, para evitar as esquivas.<\/p>\n<p>O fen\u00f3meno da perna partida precisa ser operado. Vai passar a ter um cabide na perna, com uns seis ou sete ferrinhos a segurar os peda\u00e7os do f\u00e9mur no s\u00edtio. Agora j\u00e1 sabe onde pendurar as chaves de casa. Mas, antes de ser operado, precisa de dadores de sangue, n\u00e3o v\u00e1 ser preciso durante o corte e costura ortop\u00e9dico. A crise dos bancos de sangue \u00e9 igual em todo o mundo\u2026<\/p>\n<p>Na empresa encontraram-se tr\u00eas volunt\u00e1rios para uma s\u00f3 unidade pedida. Fomos todos para o hospital esperar a vez de nos espetarem uma agulha no bra\u00e7o. O primeiro foi recusado ap\u00f3s a primeira an\u00e1lise. Est\u00e1 doente e n\u00e3o sabia. Nada de grave. Tem cura. Depois foi a minha vez.<\/p>\n<p>Fui pesado e respondi a uma s\u00e9rie de perguntas acerca do meu estado de sa\u00fade. No entretanto, um enfermeiro trocava de luvas e tirava uma seringa esterilizada da embalagem. Amarrou-me um el\u00e1stico ao bra\u00e7o e procurou uma veia. Desistiu. Amarrou o el\u00e1stico mais acima e voltou a procurar. Preparou a agulha. Deixei-me escorregar pela cadeira, s\u00f3 para ter a certeza de que n\u00e3o me dava uma coisinha m\u00e1. Segurou-me na m\u00e3o e apontou a agulha. Desviei o olhar. A agulha entrou. O sangue sa\u00edu. A agulha sa\u00edu. Comecei a ouvir vozes ao longe. Muito ao longe. Fechei os olhos com for\u00e7a e pensei em gatinhos e coisa bonitas. Apeteceu-me dar um pontap\u00e9 nos gatinhos, estavam a fazer-me ficar tonto. <em>\u00abEst\u00e1 a ficar branco!\u00bb<\/em>, julguei ouvir. \u00abMais?\u00bb, acho que respondi.<em> <\/em>Tiraram-me o el\u00e1stico. Fizeram-me c\u00f3cegas com uma pena no nariz. Pelo menos parecia. \u00abAcho que se dormir um bocadinho isto passa\u00bb, pensei.<\/p>\n<p>Dei por mim sem sapatos e meias a ser levado em bra\u00e7os para a sala ao lado. Deitaram-me numa maca e tiraram-me a camisola e o cinto. A pena no nariz voltou. Percebi agora que era um algod\u00e3o embebido em alco\u00f3l.<\/p>\n<p>Corre o boato que ainda me deram uns estalos. N\u00e3o dei por nada. Muita galhofa \u00e0 minha volta. Mediram-me a tens\u00e3o. Baixa, como de costume. No question\u00e1rio s\u00f3 me perguntaram se era hipertenso\u2026<\/p>\n<p>Fui reprovado no teste. Se fiquei assim por 3 cc. de sangue, n\u00e3o me podiam tirar outros 450. O que tenho est\u00e1 todo contadinho e, pelos vistos, n\u00e3o sobra muito para os outros.<\/p>\n<p>O \u00faltimo volunt\u00e1rio para a sangria, julgando que se safava, ria-se e aproveitou para me fotografar numa triste figura. Passados uns minutos, estava ele na maca do lado, a reclamar do tubo grosso que lhe desviava o sangue do bra\u00e7o para um saco de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"cabidela_01\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/cabidela-01.jpg\" border=\"0\" alt=\"cabidela_01\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nJ\u00e1 est\u00e1 tudo bem<\/p>\n<p>No final, enquanto a enfermeira fazia uma gin\u00e1stica esquisita para selar a unidade de sangue vermelho-escuro do meu colega, deixou escapar a pin\u00e7a que estancava o tubo. Um esguicho vermelho sujou cadeira, ch\u00e3o e balan\u00e7a. Um cheiro ferroso encheu a sala. Fic\u00e1mos todos a pensar no almo\u00e7o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"cabidela_02\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/cabidela-02.jpg\" border=\"0\" alt=\"cabidela_02\" width=\"400\" height=\"600\" \/><br \/>\nEstavas-te a rir, n\u00e3o estavas?<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas depois de termos chegado ao hospital, sa\u00edmos com a sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido. A opera\u00e7\u00e3o j\u00e1 pode come\u00e7ar.<\/p>\n<p>E o almo\u00e7o n\u00e3o foi cabidela\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida d\u00e1 muitas voltas. Por vezes numa escorregadela na casa-de-banho ou dentro de um Land Rover fora de controlo a despencar-se por uma ribanceira. O nosso motorista, aquele que mata le\u00f5es \u00e0 bofetada e assusta os rinocerontes com o cheiro dos sovacos, deu uma dessas voltas na vida. 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