{"id":2127,"date":"2009-03-04T00:00:00","date_gmt":"2009-03-03T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2127"},"modified":"2009-07-19T13:33:55","modified_gmt":"2009-07-19T12:33:55","slug":"grua-sempiterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/grua-sempiterna\/","title":{"rendered":"Grua sempiterna"},"content":{"rendered":"<p>No Kinaxixi h\u00e1 um pr\u00e9dio famoso. Inacabado desde as v\u00e9speras da independ\u00eancia, o pr\u00e9dio da lagoa passou a ser um ex-l\u00edbris de Luanda.<\/p>\n<p>Durante vinte anos esteve desocupado, mostrando apenas o seu esqueleto e as paredes de tijolo por rebocar. Com a guerra civil de 1992, milhares de novos refugiados procuraram a capital e acabaram por ver naquela estrutura um abrigo tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os andares foram sendo divididos e ocupados ao sabor das necessidades. O abrigo tempor\u00e1rio passou a permanente num instante. A cubatiza\u00e7\u00e3o vertical instalou-se depressa.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o ainda n\u00e3o tinha redes de \u00e1guas, esgotos ou electricidade, cada um se desenrascou como podia. Os geradores e os dep\u00f3sitos come\u00e7aram a ganhar lugar aqui e ali. \u00c0 noite conseguimos descortinar as luzes amareladas e tr\u00e9mulas que os geradores velhos e as velas produzem.<\/p>\n<p>Os po\u00e7os dos elevadores foram selados e transformados em conduta de lixo. Os relatos mais actuais dizem que o lixo j\u00e1 chegou ao d\u00e9cimo andar. Faltam poucos at\u00e9 ao topo. Todo o lixo que n\u00e3o cabe aqui \u00e9 atirado para as traseiras, onde formou uma pilha desordenada que j\u00e1 dava pela altura do segundo andar. Entretanto foi removida \u00e0 custa de cami\u00f5es e escavadoras. N\u00e3o demorou muito at\u00e9 que come\u00e7assem a chover novas imund\u00edcies no lote acabado de limpar.<\/p>\n<p>Parceira do pr\u00e9dio inacabado ao longo dos \u00faltimos 37 anos, uma grua amarela foi enferrujando ao sabor do clima tropical de Luanda. \u00c0 medida que envelhecia, tornou-se cada vez mais um perigo, amea\u00e7ando desistir da verticalidade a qualquer d\u00e9cada.<\/p>\n<p>O edif\u00edcio est\u00e1 bem mais perigoso e j\u00e1 foi causa de morte a muita gente, que caiu pelos po\u00e7os das escadas sem corrim\u00e3o. As pr\u00f3prias <em>obras<\/em> que foram sendo feitas nos v\u00e1rios andares e os dep\u00f3sitos de \u00e1gua e geradores espalhados um pouco por todo o lado deixaram a estrutura n\u00e3o se sabe bem como.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/blog-jan09-04.jpg\" border=\"0\" alt=\"blog_jan09_04\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nPr\u00e9dio da Lagoa<\/p>\n<p>Pelo Jornal de Angola, fiquei a saber que a culpa desta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica e exclusivamente do colono, que nem se deu ao trabalho de terminar o pr\u00e9dio ou remover a grua. O culpado do costume, pelo acusador oficial do costume.<\/p>\n<p>Subitamente, passou a ser des\u00edgnio nacional desmontar a grua. Jornais e televis\u00e3o s\u00f3 falavam da grua e dos seus malef\u00edcios. Discorriam acerca de todos os s\u00edtios onde poderia cair. Faziam previs\u00f5es acerca do n\u00famero de mortos, feridos e assim-assim. De vez em quando falavam do pr\u00e9dio. L\u00e1 diziam alguma coisa acerca da demoli\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito programada mas depois mudavam de assunto. A grua era muito mais importante!<\/p>\n<p>Algumas das principais art\u00e9rias da cidade foram cortadas durante dias, complicando ainda mais o tr\u00e2nsito que j\u00e1 se achava imposs\u00edvel piorar. A grua passou a ser o centro das conversas at\u00e9 que toda a gente se cansou dela.<\/p>\n<p>Alguns dias depois, o circo medi\u00e1tico cessou. A grua sumiu-se, pensei, foi desmontada e transformada em sucata. Fica s\u00f3 o pr\u00e9dio, que aguarda a mesma sorte.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que me enganei. A grua continua l\u00e1, est\u00f3ica, pronta para aguentar mais umas d\u00e9cadas ao lado do pr\u00e9dio da lagoa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" title=\"grua_sempiterna\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/grua-sempiterna.jpg\" border=\"0\" alt=\"grua_sempiterna\" width=\"600\" height=\"400\" \/><br \/>\nXARAM!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Kinaxixi h\u00e1 um pr\u00e9dio famoso. Inacabado desde as v\u00e9speras da independ\u00eancia, o pr\u00e9dio da lagoa passou a ser um ex-l\u00edbris de Luanda. Durante vinte anos esteve desocupado, mostrando apenas o seu esqueleto e as paredes de tijolo por rebocar. 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