{"id":213,"date":"2008-07-01T23:00:07","date_gmt":"2008-07-01T23:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=213"},"modified":"2008-07-02T21:35:04","modified_gmt":"2008-07-02T21:35:04","slug":"as-propriedades-hipnoticas-do-leite-em-po","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/as-propriedades-hipnoticas-do-leite-em-po\/","title":{"rendered":"As propriedades hipn\u00f3ticas do leite em p\u00f3"},"content":{"rendered":"<p>Estou h\u00e1 duas semanas em Angola e j\u00e1 n\u00e3o posso ver chineses \u00e0 frente. Nem me deixam dormir!<\/p>\n<p>Apesar de haver milhares de ruas em Luanda a precisar de repara\u00e7\u00f5es urgentes, houve algu\u00e9m que convenceu o munic\u00edpio a refazer as bermas das ruas \u00e0 volta de nossa casa. Como n\u00e3o se consegue fazer a obra de dia por causa do tr\u00e2nsito, optaram por come\u00e7ar os trabalhos \u00e0 meia-noite e parar l\u00e1 pelas cinco da manh\u00e3. \u00c9 uma az\u00e1fama que n\u00e3o deixaria envergonhada a rua durante o dia. Olho pela janela e s\u00f3 vejo cabelos pretos escorridos e olhos rasgados. Eu bem queria dormir, mas n\u00e3o me deixam.<\/p>\n<p>Quando abriram a estrada ficaram uns grandes montes de entulho, que retiraram com duas m\u00e1quinas. A retroescavadora apanhava a terra e os peda\u00e7os de asfalto e enchia uma p\u00e1 carregadora de quatro toneladas que, por sua vez, despejava tudo num cami\u00e3o estacionado ao fundo da rua. A dan\u00e7a das duas m\u00e1quinas debaixo da minha janela fazia lembrar um rouxinol-dos-cani\u00e7os a alimentar um cuco.<\/p>\n<p>Esta obra, s\u00f3 feita de noite, tem-se arrastado. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 estacionamento em lado nenhum e os poucos lugares que se encontram t\u00eam sempre dois ou tr\u00eas <em>controladores<\/em> a exigir dinheiro com maus modos. Se, durante a noite, a rua \u00e9 cortada ao tr\u00e2nsito por causa da obra, n\u00e3o faria sentido cortar a rua durante dois ou tr\u00eas dias e fazer tudo de uma s\u00f3 vez? Agora que a obra est\u00e1 no final, foi isso mesmo que fizeram. O planeamento da obra est\u00e1 a ser afinado\u2026 A \u00fanica coisa que falta \u00e9 mesmo trabalhar durante o dia. A estrada foi cortada mas ningu\u00e9m trabalha.<\/p>\n<p>Entretanto, depois de uma noite mal dormida gra\u00e7as \u00e0s buzinas de ar das escavadoras e das pedras a cair nos cami\u00f5es, dei por mim a fitar o remoinho na caneca onde misturava o leite em p\u00f3. Pensava nem sei em qu\u00ea, mas cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que, quando estamos cansados e distra\u00eddos, a mente nos leva por caminhos estranhos. Conclu\u00ed que h\u00e1 quatro escolas para mexer um l\u00edquido numa caneca.<\/p>\n<p>A primeira diz que a colher nunca deve tocar nas paredes da porcelana do servi\u00e7o, que foi prenda de casamento da tia Ermelinda, para n\u00e3o fazer barulho. \u00c9 a mais educada. Implica segurar na colher entre o polegar e o indicador, mantendo o mindinho esticado e um ar circunspecto. Suspeito que as coisas nunca devem ficar l\u00e1 muito bem mexidas e isso explica o ar enjoado com que vejo algumas pessoas beber ch\u00e1 depois de o mexerem assim. O vizinho n\u00e3o ouve o <em>clinc-clinc<\/em> e o a\u00e7\u00facar fica no fundo, mas \u00e9 assim que a Paula Bobone diz que se faz.<\/p>\n<p>A segunda insiste em fazer a maior barulheira poss\u00edvel. O importante n\u00e3o \u00e9 mexer o l\u00edquido, mas sim testar a resist\u00eancia dos materiais da caneca e da paci\u00eancia de quem rodeia o <em>agitador<\/em>. Ao fim de algum tempo, n\u00e3o s\u00f3 o leite em p\u00f3 ficou bem dissolvido, como se conseguiu fazer manteiga.<\/p>\n<p>A terceira tend\u00eancia \u00e9 uma variante da segunda. Consiste em raspar o fundo da caneca com a ponta da colher, em busca do som mais irritante poss\u00edvel. Novamente, o importante n\u00e3o \u00e9 misturar o conte\u00fado da caneca, mas sim aborrecer o vizinho.<\/p>\n<p>A quarta forma resume-se a girar a colher dentro da caneca, fazendo-a faz tocar levemente em tr\u00eas ou quatro pontos das paredes, acabando conferir uma certa musicalidade ao acto. Se a for\u00e7a for bem doseada e o ritmo mantido, forma-se um remoinho perfeito que vai trepando pela caneca at\u00e9 quase entornar. O principal objectivo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 mexer bem o conte\u00fado, mas sim tentar fazer com que o remoinho suba o mais alto poss\u00edvel sem entornar. Dependendo da per\u00edcia, o resultado final oscila entre um l\u00edquido bem mexido e um l\u00edquido bem mexido com a mesa molhada. J\u00e1 se deve ter percebido que esta \u00e9 a linha preferida. \u00c9 o gene de engenheiro a vir ao de cima.<\/p>\n<p>Depois de se dominar a altura a que se consegue fazer subir o l\u00edquido \u00e9 necess\u00e1rio moldar o remoinho, fazendo-o ficar cada vez mais circular. Fitamo-lo e ele fita-nos de volta. Ele tenta desfazer-se e n\u00f3s insistimos para o manter no centro da caneca e redondinho. Ele luta e estica-se numa direc\u00e7\u00e3o inesperada. Sem darmos por isso, s\u00f3 vemos o remoinho \u00e0 nossa frente. Nada mais importa sen\u00e3o saber quem tem a vontade mais forte. Passa a ser uma quest\u00e3o pessoal. \u00c9 este o efeito hipn\u00f3tico do leite em p\u00f3!<\/p>\n<p>Ca\u00edmos em n\u00f3s e temos um leite em p\u00f3 bem mexido, muito sono e vontade de mandar todos os chineses \u00e0 fava.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou h\u00e1 duas semanas em Angola e j\u00e1 n\u00e3o posso ver chineses \u00e0 frente. Nem me deixam dormir! Apesar de haver milhares de ruas em Luanda a precisar de repara\u00e7\u00f5es urgentes, houve algu\u00e9m que convenceu o munic\u00edpio a refazer as bermas das ruas \u00e0 volta de nossa casa. 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