{"id":2145,"date":"2009-03-07T00:00:00","date_gmt":"2009-03-06T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2145"},"modified":"2009-07-16T23:34:39","modified_gmt":"2009-07-16T22:34:39","slug":"apartheid-de-esplanada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/apartheid-de-esplanada\/","title":{"rendered":"Apartheid de esplanada"},"content":{"rendered":"<p>De vez em quando sabe bem poder ir almo\u00e7ar fora. N\u00e3o sempre, porque isso acabava por chatear.<\/p>\n<p>Quando o trabalho \u00e9 fora de Luanda, n\u00e3o h\u00e1 grande escolha. Almo\u00e7o e jantar s\u00e3o fora. Sempre que poss\u00edvel, fujo dos s\u00edtios mais caros. N\u00e3o \u00e9 por me cobrarem 50 d\u00f3lares que a comida vai ser melhor que os pregos da Escurinha, no Dondo, a 200 kz cada.<\/p>\n<p>Estando no Huambo e com algum tempo para ver ementas e perguntar pre\u00e7os, acabei por ficar numa simp\u00e1tica esplanada, virada para o jardim central da cidade.<\/p>\n<p>A esplanada era mesmo agrad\u00e1vel. Dentro do restaurante, s\u00f3 os empregados. C\u00e1 fora, mais seis brancos almo\u00e7avam.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os eram bem mais baixos que os de Luanda. Quase diria que civilizados. Uma refei\u00e7\u00e3o completa e muito bem servida ficou por menos de 2000 Kz. Para os padr\u00f5es de Portugal \u00e9 caro, mas para estrangeiro em Angola, uma pechincha.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do mais, o servi\u00e7o era bestialmente r\u00e1pido. Contava com uma meia-hora ou mais at\u00e9 ser servido, mas nem tive tempo de abrir o caderninho onde vou deixando umas notas para o Aerograma. A comida chegou num instante.<\/p>\n<p>Enquanto apreciava o panado com arroz de legumes, pus-me a pensar na segrega\u00e7\u00e3o que se fazia sentir na esplanada. Sete brancos \u00e0 sombra, almo\u00e7ando, enquanto dezenas de negros passavam no passeio e deitavam o rabinho do olho \u00e0s mesas. N\u00e3o com cobi\u00e7a, ou com inveja, mas com pesar, talvez.<\/p>\n<p>De vez em quando passava um grupo de mi\u00fados com bujigangas para vender. N\u00e3o diziam nada. Paravam apenas em frente \u00e0s mesas e esperavam um pouco. N\u00e3o agitavam a mercadoria, n\u00e3o olhavam para ningu\u00e9m em especial. Depois seguiam caminho.<\/p>\n<p>Habituado aos pre\u00e7os de Luanda, estava a gastar uma quantia irris\u00f3ria. Para quem passava era uma pequena fortuna. N\u00e3o duvido que haja negros que tenham posses para ali comer mas, se bem come\u00e7o a conhecer esta terra, devem preferir s\u00edtios mais caros, onde tudo se paga em m\u00faltiplos de 100 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Pretos ao sol, suando. Brancos \u00e0 sombra, comendo. Apartheid \u00e0 refei\u00e7\u00e3o, limitado \u00e0 esplanada\u2026<\/p>\n<p>O que pagam 2000 Kz no Huambo? 100 Mangas. 200 bananas-macaco. 400 pastilhas el\u00e1sticas. 30 latas de cerveja. Quanta mercadoria despacha a vendedora? Algumas d\u00fazias de bananas e mangas. Uma dezena de pastilhas ou uma grade de cerveja. E quanto disso \u00e9 lucro? 10%? 30%?<\/p>\n<p>Um quase-nada de dinheiro faz toda a diferen\u00e7a. Irritei-me com os brancos barulhentos e cheios de soberba, que olham os pretos como pretos. Se calhar tamb\u00e9m sou assim. Espero olhar para eles mais vezes como gente do que como pretos. Quero esquecer que somos de cores diferentes, mas sem disfar\u00e7ar que somos diferentes, cada um com a sua bagagem cultural.<\/p>\n<p>Senti-me mal na esplanada. Senti-me na pele do branco-explorador esterotipado. Quero acreditar que estou c\u00e1 por outros motivos. Quero acreditar que deixarei o pa\u00eds mais desenvolvido e um monte de amigos de todas as cores.<\/p>\n<p>Paguei a conta. Fui \u00e0 procura de gente com quem conversar. Encontrei-os a jogar <a href=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2081\" target=\"_blank\">Kiela<\/a>.<\/p>\n<p>Entretanto, j\u00e1 voltei a almo\u00e7ar mais vezes naquele restaurante. N\u00e3o fiquei mais na esplanada. Mas encaro a porta, resistindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o encarar o receio de ter medo de olhar l\u00e1 para fora e sentir vergonha da segrega\u00e7\u00e3o que um pouco de dinheiro traz.<\/p>\n<p>A grande divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ser-se branco ou preto. A divis\u00e3o \u00e9 entre pobres e, neste caso, remediados. Suponho que os ricos me encarem da mesma maneira. S\u00f3 que aqui, em Angola, \u00e9 muito mais dif\u00edcil encontrar brancos pobres que pretos pobres\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De vez em quando sabe bem poder ir almo\u00e7ar fora. N\u00e3o sempre, porque isso acabava por chatear. Quando o trabalho \u00e9 fora de Luanda, n\u00e3o h\u00e1 grande escolha. Almo\u00e7o e jantar s\u00e3o fora. Sempre que poss\u00edvel, fujo dos s\u00edtios mais caros. 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