{"id":215,"date":"2008-07-02T18:59:28","date_gmt":"2008-07-02T17:59:28","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=215"},"modified":"2009-12-01T11:54:13","modified_gmt":"2009-12-01T10:54:13","slug":"futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/futuro\/","title":{"rendered":"Futuro"},"content":{"rendered":"<p>Desde que a guerra terminou que o governo angolano tem feito um esfor\u00e7o para reduzir o n\u00famero de armas ilegais em circula\u00e7\u00e3o. As campanhas de entrega de armas de guerra t\u00eam tido algum sucesso, mas, como sempre, apenas as pessoas de bem entregam as suas. Nos jornais oficiais apela-se \u00e0 necessidade de haver um desarmamento completo da popula\u00e7\u00e3o civil, a bem da democracia. As elei\u00e7\u00f5es est\u00e3o \u00e0 porta e n\u00e3o conv\u00e9m haver \u00e2nimos exaltados e armas misturadas. Ali\u00e1s, as elei\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis porque h\u00e1 uma melhoria das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e uma maior estabilidade social. As estradas que ligam as v\u00e1rias prov\u00edncias j\u00e1 s\u00e3o mais seguras e os bandos armados s\u00e3o perseguidos.<\/p>\n<p>Por outro lado, o MPLA vai ganhar as elei\u00e7\u00f5es com maioria absoluta. As ac\u00e7\u00f5es de campanha t\u00eam sido eficazes e a voz da oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 demasiado fragmentada para causar mossa. Nas minhas voltinhas por Luanda tenho visto muitas sedes nacionais dos pequenos partidos da oposi\u00e7\u00e3o. Creio que s\u00e3o 98 for\u00e7as diferentes a concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. Na R\u00e1dio Angola ouvem-se not\u00edcias que d\u00e3o conta de ac\u00e7\u00f5es de massas (com\u00edcios), a entrega de equipamento escolar e de reinaugura\u00e7\u00f5es (c\u00e1 como l\u00e1) de centros de sa\u00fade ou de mercados.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o haja d\u00favidas acerca dos resultados eleitorais, est\u00e3o a ser criados todos os mecanismos legais de controlo e observa\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia do Zimbabwe mostra que a credibilidade internacional das elei\u00e7\u00f5es africanas n\u00e3o se consegue apenas com a nomea\u00e7\u00e3o de um governo. \u00c9 preciso mostrar que foram justas. O MPLA n\u00e3o precisa de se preocupar. At\u00e9 os homens de Savimbi, segundo o Jornal de Angola, est\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>A \u00fanica voz discordante que se ouve \u00e9 a da R\u00e1dio Despertar. No \u00e2mbito dos acordos de paz, a VORGAN continuava a emitir, mas sob este novo nome. Pelo estilo de not\u00edcias que emite, parece-me o jornal <em>Avante<\/em> c\u00e1 do s\u00edtio.<\/p>\n<p>At\u00e9 2012 v\u00e3o ser renovados doze mil quil\u00f3metros de estradas por todo o pa\u00eds. \u00c9 um primeiro passo para a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida. Apesar de Angola ser um pa\u00eds extraordinariamente rico, n\u00e3o consegue tirar proveito da sua riqueza por falta de vias de comunica\u00e7\u00e3o e 95% do seu produto interno bruto deriva do petr\u00f3leo. Com tantos recursos minerais e agr\u00edcolas, o pa\u00eds n\u00e3o deveria depender tanto do petr\u00f3leo. Mas enquanto n\u00e3o houver estradas ou caminhos-de-ferro a funcionar normalmente, como se escoam os produtos?<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de uma semana, a liga\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria de Luanda a Malanje foi restabelecida e a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola dessa zona f\u00e9rtil poder\u00e1 chegar \u00e0 capital.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o da rede vi\u00e1ria permitir\u00e1 tamb\u00e9m o regresso de muita gente \u00e0s suas prov\u00edncias de origem, reduzindo a press\u00e3o humana sobre Luanda. N\u00e3o faz sentido que metade da popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds se concentre, sem condi\u00e7\u00f5es, \u00e0 volta da capital. Espa\u00e7o aqui n\u00e3o falta.<\/p>\n<p>Desde que c\u00e1 estou j\u00e1 assisti a uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o em massa das crian\u00e7as at\u00e9 aos cinco anos. A doen\u00e7a focada, desta vez, era a poliomielite. Ainda se v\u00eaem pessoas com marcas do polio. Algumas muito novas.<\/p>\n<p>Entretanto, tamb\u00e9m se est\u00e3o a fazer campanhas nas r\u00e1dios para explicar o objectivo dos censos que se avizinham. Numa linguagem muito simples, explicam que pretendem conhecer as condi\u00e7\u00f5es de vida dos angolanos e que as respostas devem ser verdadeiras.<\/p>\n<p>No bairro do Cassenda a criminalidade subiu e a explica\u00e7\u00e3o oficial \u00e9 o grande n\u00famero de jovens desocupados. No meio dos muitos angolanos trabalhadores, h\u00e1 uma minoria de rapazes que se sustentam das esmolas dos brancos, das lavagens de carros e do guardar lugares de estacionamento. Sem aspira\u00e7\u00f5es, o pouco que recebem equivale a um dia de trabalho esfor\u00e7ado dos carregadores, vendedores e condutores. Lavar carros na via p\u00fablica \u00e9 proibido em todo o mundo. Em Luanda faz parte da paisagem e tem sido grandemente ignorado. H\u00e1 problemas piores. Mas as\u00a0autoridades perceberam que \u00e9 tamb\u00e9m uma fonte de sustento dos <em>desocupados<\/em> e <em>controladores<\/em>. Foi anunciado que nas Ingombotas (onde moro) a pol\u00edcia vai estar atenta aos lavadores de carros.<\/p>\n<p>Angola quer evitar importar m\u00e3o-de-obra, mas, acima de tudo, quer evitar que apenas os estrangeiros lucrem com a riqueza do pa\u00eds, pelo que as empresas t\u00eam de respeitar quotas m\u00ednimas de trabalhadores angolanos. \u00c9 um ponto de vista com o qual concordo plenamente. Quando se trata de t\u00e9cnicos especializados, \u00e9 inevit\u00e1vel contratar estrangeiros porque ainda n\u00e3o h\u00e1 quadros nacionais suficientes. O que choca e vai contra as pretens\u00f5es angolanas, \u00e9 a importa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra n\u00e3o especializada. H\u00e1 trabalho para fazer, muita gente ao alto e importam-se oper\u00e1rios da China.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos exemplos deste fen\u00f3meno um pouco por Angola, mas a mim basta-me olhar para a rua onde moro. Pelas onze da noite come\u00e7a-se a ouvir a m\u00e1quina de cortar asfalto, que n\u00e3o passa de uma serra circular com rodas e que trabalha a gasolina. Faz uma barulheira ensurdecedora. Passa debaixo da minha janela, que \u00e9 no primeiro andar\u2026 Habitualmente tenho de dormir com o barulho da clientela do sal\u00e3o de jogos do r\u00e9s-do-ch\u00e3o (que foi uma casa de alterne no tempo do colono). Agora \u00e9 a m\u00e1quina. Depois vem o martelo pneum\u00e1tico e a escavadora. N\u00e3o h\u00e1 sossego. Vou \u00e0 janela ver quem trabalha a estas lindas horas. Um brasileiro e um chin\u00eas, nenhum angolano (n\u00e3o era preciso <em>controlar<\/em>). \u00c0s duas da manh\u00e3 as m\u00e1quinas param. O brasileiro come\u00e7a a cantar. Seria uma serenata?<\/p>\n<p>C\u00e1 por casa j\u00e1 temos bomba. N\u00e3o estamos totalmente dependentes do abastecimento p\u00fablico. Com 3000 litros de reserva devemos estar mais ou menos descansados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que a guerra terminou que o governo angolano tem feito um esfor\u00e7o para reduzir o n\u00famero de armas ilegais em circula\u00e7\u00e3o. As campanhas de entrega de armas de guerra t\u00eam tido algum sucesso, mas, como sempre, apenas as pessoas de bem entregam as suas. 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