{"id":2150,"date":"2009-03-08T00:00:00","date_gmt":"2009-03-07T23:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/?p=2150"},"modified":"2009-08-08T21:36:16","modified_gmt":"2009-08-08T20:36:16","slug":"cicatrizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/cicatrizes\/","title":{"rendered":"Cicatrizes"},"content":{"rendered":"<p>Quem chega a \u00c1frica traz sempre consigo uma ideia do que ir\u00e1 encontrar, formada por tudo o que ouviu, leu e viu nos programas de vida selvagem. \u00c9, geralmente, uma ideia errada. Toda a imensid\u00e3o que idealiza n\u00e3o chega a encher aquela nesga enfezada de horizonte que nos espreita a cada momento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Catete_20081209-175604-S09-13360_E013-77119_1\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"Catete_20081209-175604-S09-13360_E013-77119_1\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/catete-20081209175604s0913360-e01377119-12.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>&#160; <br \/>David Attenborough, r\u00f3i-te de inveja<\/p>\n<p> Os horizontes imensos de Angola marcam indelevelmente todos os que por c\u00e1 passam. Compreendo agora os sonhos dos retornados, que giram sempre em torno da terra, nunca do trabalho ou das coisas. Dizem sempre que l\u00e1 deixaram muita coisa, mas n\u00e3o se lembram dos objectos. Recordam os cheiros e os paladares, recordam os montes e as matas, as gentes e os amigos.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de esmagamento que temos quando contemplamos a vastid\u00e3o de \u00c1frica deixa uma cicatriz funda. Daquelas cicatrizes que se fazem notar com uma comich\u00e3o quando muda o tempo.<\/p>\n<p>Mais funda cicatriz deixa a amea\u00e7a das minas. Um pouco por todo o lado se v\u00e3o assinalando zonas minadas ou suspeitas. Os paus vermelhos e brancos a bordejar as estradas ferem-nos a vista e a alma. Os horizontes que contemplamos passam a ser de outro planeta. Terra proibida. Sonhos proibidos.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de esmagamento da paisagem africana \u00e9 apagada quando comparada com o sentimento de opress\u00e3o que as minas trazem. E nem vale a pena pensar que muitas delas nunca ser\u00e3o retiradas, por falta de interesse econ\u00f3mico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Huambo_20090206-084259-S12-76750_E015-75186_30\" style=\"border-right: 0px; border-top: 0px; display: inline; border-left: 0px; border-bottom: 0px\" height=\"400\" alt=\"Huambo_20090206-084259-S12-76750_E015-75186_30\" src=\"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/02\/huambo-20090206084259s1276750-e01575186-30.jpg\" width=\"600\" border=\"0\" \/>    <br \/>M\u00e1quina blindada da desminagem <\/p>\n<p>As opera\u00e7\u00f5es de desminagem avan\u00e7am lentamente. O trabalho tem de ser minucioso. Para as obras de reabilita\u00e7\u00e3o de infraestruturas, como sejam as linhas de caminho-de-ferro e pontes, \u00e9 necess\u00e1rio limpar os terrenos antes de se come\u00e7ar a trabalhar. A \u00e1rea desminada \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 velocidade de avan\u00e7a da obra. H\u00e1 linhas de comb\u00f3io que s\u00f3 s\u00e3o seguras at\u00e9 dois metros para cada lado da plataforma\u2026 E se o comb\u00f3io descarrila e \u00e9 necess\u00e1rio levar m\u00e1quinas para o local?<\/p>\n<p>Infelizmente, apesar de haver muitos cuidados nas opera\u00e7\u00f5es de desminagem, nem sempre se levantam todas as armadilhas. De vez em quando l\u00e1 se ouve o relato de um carro que foi pelos ares numa zona acabada de desminar. Os horizontes acabam de ficar um pouco mais suspeitos\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem chega a \u00c1frica traz sempre consigo uma ideia do que ir\u00e1 encontrar, formada por tudo o que ouviu, leu e viu nos programas de vida selvagem. \u00c9, geralmente, uma ideia errada. Toda a imensid\u00e3o que idealiza n\u00e3o chega a encher aquela nesga enfezada de horizonte que nos espreita a cada momento. &#160; David Attenborough, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[507,17,504,34],"class_list":["post-2150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-angola","tag-desminagem","tag-marcas-de-guerra","tag-minas","tag-natureza"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2150"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2153,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2150\/revisions\/2153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/afonsoloureiro.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}